08 de julho de 2026
Articulistas

O jogo de Copa

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 3 min

Ele estava abatido. Mais que isso: arrasado. Um eterno cumpridor da palavra dada, dessa vez tudo saíra errado. E logo com quem? Com a sua esposa! Fiel companheira de todas as horas, excelente dona-de-casa e mãe exemplar, ela não merecia uma coisa dessas. Explicar-lhe o que havia acontecido seria um verdadeiro suplício. Resumindo: ele se considerava um homem derrotado na vida.

Tudo começou quando ambos viram algo na televisão. Ele também gostou, mas ela ficou verdadeiramente encantada. Sabe com quê? Com um jogo de copa. Não, não era um jogo da Copa do Mundo. Presenciar, ao vivo e no estádio, um espetáculo dessa natureza era algo tão impossível que não valia a pena sonhar. E o casal sabia disso, pois a renda familiar era realmente modesta. Assim, o jogo em questão era: mesa, cadeiras e um pequeno móvel. Quando a esposa demonstrou todo aquele interesse, ele não teve dúvidas e prometeu que aquele seria o seu presente pelo aniversário de casamento.

Ao ser atendido, surgiu o problema: o jogo cabia na sua casa, mas não cabia no seu cartão de crédito. Melhor dizendo: o número relativamente pequeno de parcelas tornava tão alto o valor de cada prestação, que acabava inviabilizando a transação. Ele estava visando um verdadeiro inferno astral. A voz do vendedor, ainda distante, fez com que ele fosse emergindo do fundo do poço. Aos poucos foi entendendo o que se passava. O funcionário estava lhe propondo algo incrível: fazer um cartão da própria loja, através do qual efetuaria a compra do jogo pelo mesmo preço, mas com um número muito maior de parcelas. Ele não teve dúvidas: apesar das dívidas, que muitas vezes o faziam perder o sono, agarrou a proposta com unhas e dentes.

Alguns dias após a entrega dos móveis, e ainda impressionado com a felicidade da esposa, recebeu uma correspondência com o logotipo da loja. Deu pouca importância ao fato, pois já sabia do que se tratava. Só podia ser aquele impresso cheio de quadradinhos, em quais se faz um xis de acordo com a avaliação a perguntas tipo: "Você foi bem atendido?", "o produto foi entregue no prazo combinado?", e tantas outras do gênero. Abriu o envelope sem nenhuma pressa e teve uma surpresa: não havia o tal impresso cheio de quadradinhos. Era apenas uma carta. Mas a verdadeira surpresa aconteceu quando entendeu o que ela dizia: em sorteio efetuado pela rede de lojas, ele fora um dos contemplados. Prêmio: assistir à abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, e ainda passar o final de semana em hotel cinco estrelas, em São Paulo. Tudo com acompanhante. Mais ainda: também ganhara a importância de R$ 30 mil para despesas pessoais. A esposa achou que ele estava brincando. Só acreditou quando leu a carta ? e explodiu de felicidade!

Agora ele se considerava um vencedor, um verdadeiro campeão, capaz de tornar realidade um sonho quase impossível ? comprar um jogo de copa ? e um sonho absolutamente impossível ? ir ao Itaquerão assistir ao jogo de abertura da Copa do Mundo!

Nota 1: Ele usou R$ 20 mil para pagar as dívidas e poder dormir sossegado.

Nota 2: Eu não conheço o protagonista desta história (verídica). Mas conheço quem o conhece.

O autor é colaborador de Opinião