08 de julho de 2026
Articulistas

O exemplo da macaca

Valderez de Mello
| Tempo de leitura: 2 min

Num grande zoológico viviam os animais para serem exibidos aos grupos de homo sapiens que, curiosos, admiravam os macacos alegres e arteiros. A mamãe símia andava às turras com seu filhote sobre a árvore, onde, prestimosa, ajeitava com carinho feixes de capim macio para o ninho do rebento. Colhia o material no chão e subia célere para as galhadas para arrumar o então berço de seu lindo macaquinho que ficava a espreitar cada gesto da mãe com olhar maroto. Então, o pequeno símio escalava a árvore frondosa em ágeis saltos até o local carinhosamente arrumado e, num gesto desafiador, afrontando a mãe, atirava todo o capim do ninho para o chão. A mamãe, pela segunda vez, refaz o trabalho com paciência e abnegação. O macaquinho fica a espiar com olhar atrevido o trabalho da genitora e, pela segunda vez, sobe até o caprichado ninho e, ciente da malandragem, atira a maciez do berço para o chão. A mãe, calmamente, refaz seu trabalho pela terceira vez e fica à espera do teimoso que, agilmente, saltita por entre os galhos, alcança o berço e, atrevido, junta todo o capim para atirar ao solo. Porém, a macaca, educadora nata, pega o afoito filhote pelos braços e sem pestanejar atira-o das alturas para o chão. O filhote de olhos arregalados e assustado com a reação da mãe, de pronto aquietou-se e não mais repetiu o ato de vandalismo simiesco. Tinha entendido o recado!

Esta pequena história dá um brilhante exemplo de limites de tolerância. Ser tolerante é preciso, mas no ponto certo. A falta de limites além de gerar o caos, demonstra fraqueza e abre o grande portal para o enfrentamento. Ato de vandalismo reiterado mostra que o atrevimento cresce amparado pelos braços da impunidade e que agressão e violência, não combinam com reivindicação de direitos sociais.

Urge seguir o exemplo da mamãe macaca e saber discernir a hora certa da tomada de decisão. A morosidade exacerbada, a inércia e a negligência por parte dos responsáveis geram descontrole da situação e oferece liberdade em doses excessivas propiciando o vandalismo continuado: destruição do patrimônio público, assaltos seguido de morte, tudo em nome da impunidade fartamente induzida pela falta de limites e ausência de responsabilidade. Se os animais, denominados de irracionais, sabem discernir o momento da tomada de decisão, qual seria a dificuldade dos órgãos governamentais que não despertaram ainda para a realidade e continuam a afrouxar o nó da impunidade fazendo vista grossa para o crime hediondo ingenuamente denominado de ato infracional?

A autora é professora, advogada, psicopedagoga, pedagoga, autora de Anjinho de Procissão e Quintal de Sonhos.