09 de julho de 2026
Regional

Homenagem nas ruas vira "gol de placa"

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 9 min

Éder Azevedo

Rodrigo Justo com a filha Lorena Justo e a sobrinha Livia Falasca na rua Jorge Amado

Colocar nome em uma rua é ação que, se elaborada com justo critério, transforma-se em merecida homenagem concedida por vereadores de cada cidade. O que nem sempre percebe-se é a variedade de personagens que viram referência em vias.

 

Placas homenageiam as famílias que perderam seus entes queridos, pessoas que tiveram alguma notoriedade na comunidade, que representaram algum fato histórico... Enfim, que tiveram alguma participação na vida daquela sociedade (ou até mesmo uma planta, ave ou lugar). 

 

O que muitos não sabem é que, desde o ano passado, em todo o território nacional, é proibido atribuir nome de pessoa viva ou que tenha se notabilizado pela defesa ou exploração de mão de obra escrava a bem público pertencente à União (ou a pessoas jurídicas da administração indireta - redação da Lei 12.781, de 2013).  

 

A cidade de São Paulo promulgou lei que permite mudança do nome de ruas que fazem homenagem a pessoas que tenham cometido crime de lesa-humanidade ou graves violações dos direitos humanos. Para promover a mudança é necessário abaixo-assinado com concordância de dois terços dos moradores à Câmara. 

 

As alterações, até então, só era permitida desde que as vias tivessem denominações homônimas ou nos casos em que haja similaridade ortográfica ou fonética que gere ambiguidade de identificação. 

 

Também podiam exigir a mudança quando a denominação é suscetível de expor ao ridículo moradores ou

domiciliados no entorno.

 

Em Bocaina (69 quilômetros de Bauru) uma avenida, no final da rodovia de acesso Benedito Montenegro, principal acesso a Bocaina, recebeu o nome de Ênio Inforzato que na década de 70, ficou nacionalmente conhecido como o ‘rei da Loteria Esportiva”. Ele teve 60 cartelas premiadas, o que lhe rendeu popularidade. 

 

Em Jaú (47 quilômetros de Bauru), um bairro todo homenageia os trabalhadores da indústria calçadista. Em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru), conhecida como a cidade do Livro, em função de Orígenes Lessa ter nascido ali, um bairro inteiro tem nomes com nomes de escritores.  

 

Moradores do núcleo sabem que todas as ruas são nomes de escritores, porém não conhecem todos. 

 

Os mais conhecidos , além do lençoense Orígenes Lessa, são Dias Gomes e Janete Clair (por conta das novelas).  E Jorge Amado por conta de seus romances transformados em minissérie.

 

Uma cidade e suas quase 2 mil vias    

 

A cidade de Jaú (47 quilômetros de Bauru) tem 1.796 vias (ruas avenidas, vielas e travessas), 120 bairros, 10 condomínios horizontais, 30 verticais, um distrito (Potunduva) e dois bairros distantes; Vila Ribeiro e Pouso Alegre de Baixo. Dentre os nomes de ruas com maior quantidade há 103 José, 69 João e 23 Marias iniciais, segundo o gerente de relações institucionais da Secretaria de governo municipal, José Carlos Batista Camilo.

 

No centro de Jahu, a maioria dos nomes de vias homenageiam fundadores e antigos moradores da cidade, como exemplo Edgard Ferraz, primeiro prefeito e primeiro deputado pela cidade. Major Prado, Marechal Bitencourt, Tenente Lopes, Orozimbo Loureiro, Luiz Liarte, Francisco Carvalhães, Paulino Maciel, Eduardo Hilst, Bento Manuel entre outros. 

 

Também vários personagens da nossa história brasileira foram homenageados, como Floriano Peixoto, Quintino Bocaiuva, Campos Salles, Francisco Glicério, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Princesa Isabel.

 

Médicos, dentistas, advogados, professores, poetas, escritores e vários profissionais locais e nacionais também foram agraciados com nomes em vias públicas da cidade, assim como ex-políticos locais.

 

Santos e religiosos da Igreja Católica, como Nossa Senhora Aparecida, São José, São João, São Sebastião, Frei Galvão (o 1º santo brasileiro), Santo Antônio, São Benedito, São Caetano, São Leonardo, Santa Carolina, Santa Catarina, Santa Clara, Santa Luzia, Santa Tereza, Santa Isabel, Santa Inês, Santa Maria.

 

Ainda: São Joaquim, São Marcos, Santa Mônica, São Norberto, São Paulo, São Pedro, Monsenhor Serra, Irmão Frederico, Irmão João, Irmão Lucas, Cônego Bento, assim como atributos necessários à vida como Paz, Amizade e Fraternidade, foram denominadas travessas na cidade.

 

Camilo ressalta que espécies arbóreas foram lembradas para denominar ruas no Parque Frei Galvão. “As margens do Rio Tietê. Lá temos a rua Araucária, Cabreúva, Cerejeira, Flamboyant, Imbuia, Jacarandá, Jequitibá, Mógno, Paineira e Timburi.

 

Os Estados do Brasil foram homenageados com nome de ruas no bairro Vila Maria Cristina. Lá é possível encontrar rua São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. 

 

Essas ruas têm acesso pela Avenida do Café, produto que movimentava a economia da cidade até a década de 70. Os imigrantes italianos se concentravam na rua da Polenta que hoje é a rua Rui Barbosa. O patrono dos sapateiros, São Crispim é hoje o nome de um conjunto habitacional. O bairro foi construído para abrigar, especialmente os trabalhadores da indústria de calçados. As ruas também receberam nomes de ex-trabalhadores da indústria calçadista. 

 

Hidroavião, acácias, andorinha e Humaitá

 

O primeiro americano a cruzar o Oceano Atlântico, sem escalas e sem auxílio de embarcações, foi comandante jauense João Ribeiro de Barros. Tudo a bordo de um hidroavião, o JAHÚ. 

 

Seus companheiros de aventura Vasco Cinquini e Newton Braga) também recebem nome de rua (lei 208/1951), além do Estádio Municipal.

 

Em dois condomínios horizontais da cidade, Jardim Primavera I e II, as ruas possuem nomes da fauna e flora, dentre as quais, rua dos Ipês, Acácias, Jacarandás, Mangueiras... E das Siriemas, Pássaros,  e Sabiás. No condomínio Vila Real, os nomes são de vegetais: Rua das Acácias, Aroeiras, Cedros, Coqueiros, Figueira, Ipês, Jatobás, Laranjeiras e Pau Brasil.

 

Em outro bairro deu-se preferência às aves brasileiras como a Andorinha, Arara, Azulão, Bem-te-vi, Beija flor, Canário, Cardeal, Codorna, Cotovia, Curió, Inhambu, Pavão, Perdiz, Pintassilgo, Rouxinol.Também Siriema e Tucano. 

 

As batalhas vencidas na Guerra do Paraguai foram lembradas com as ruas Paissandu, Humaitá e Riachuelo.

 

Cidade do Livro ressalta escritores famosos e ‘desconhecidos’ em ruas

 

Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) é conhecida como a cidade do livro. Quem criou o slogan foi Pedro Block, que era amigo do escritor Orígenes Lessa, um legítimo lençoense. 

 

Em certa ocasião, Block teria dito: “Esta cidade tem mais livros do que pessoas. Com certeza é a cidade do livro”. Para homenagear os escritores brasileiros, alguns que frequentaram as cadeiras da Academia Brasileira de Letras, um bairro inteiro, o núcleo habitacional João Zillo teve ruas batizadas com nomes de escritores.

 

A história começou na década de 60 com o escritor Orígenes Lessa. Ele queria montar a biblioteca da cidade e pedia doações aos seus amigos escritores, conforme já mostrou o JC. 

 

Fez um acordo com o prefeito da época e, ao mesmo tempo, que pedia livros, prometia dar o nome do autor a uma rua da cidade. A promessa foi cumprida e os moradores do núcleo habitacional têm o privilégio de morar em ruas com nomes de escritores que fizeram a história literária brasileira. 

 

Nomes como Janete Clair, Dias Gomes, Jorge Amado, Zélia Gattai, Carlos Drumont de Andrade, Cora Coralina, Guimarães Rosa, Raquel de Queirós, Procópio Ferreira dentre outros são os mais conhecidos e comentados no bairro. Austregésilo de Athayde é um dos “desconhecidos”. Nem mesmo os moradores da via sabem quem foi o autor de crônicas, ensaios e orador que viveu de 1898 a 1993.  

 

A dona de casa Alice Faria confessa que é moradora recente do bairro e que teve dificuldade para falar o nome da rua que mora. “As pessoas demoram a entender. É muito diferente. Sei que ele foi um escritor, porém nunca li uma obra dele.” 

 

Austregésilo

 

Mas afinal, quem foi Austregésilo de Athayde? Ele foi o 3º ocupante da cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras. Nasceu em Caruaru/PE e recebeu 170 medalhas, placas e condecorações. Escreveu “Histórias amargas”, contos; “A influência espiritual americana”, etc.

 

No bairro, Austregésilo de Athayde é uma rua que ‘vizinha’ a  Ciro Fernandes autor de “Sonho de Papel” e artista plástico. 

 

Paraibano ele fazia desenhos, xilogravuras e capas para Orígenes Lessa.  

 

Já o escritor lençoense Orígenes Lessa deu nome a uma avenida que corta todo o núcleo residencial. 

 

Carlos Drummond de Andrade ganhou outra avenida, assim como Procópio Ferreira. A via denominada com o nome do ilustre escritor de Lençóis faz vizinhança com a rua Jorge Amado, amigo pessoal dele e grande apoiador da biblioteca do município.     

 

Imortais ficam um ao lado do outro

 

O técnico de laboratório lençoense Rodrigo Justo mora no núcleo habitacional João Zillo, bairro Caju,  e confessa que pouco sabe sobre aqueles que hoje são nomes as ruas, mas acha muito “bacana” o bairro ter nome de escritores. “Morei 27 anos na rua Zélia Gattai com meus pais. Há cinco, moro na rua Jorge Amado. Dele já li livros.” 

 

Eunice Aparecida Raine diz que acha lindo morar em um bairro que homenageia escritores famosos, mas confessa que não conhece todos. “Já li Jorge Amado, mas não sei quem é Zélia Gattai.” 

 

Zélia Gattai Amado  foi uma escritora, fotógrafa e memorialista que durante 56 anos foi casada com Jorge Amado. Aos 63 anos começou a escrever suas memórias. A obra mais famosa dela foi “Anarquistas, graças a Deus”, adaptado para a minissérie pela Rede Globo. 

 

Jorge Leal Amado de Faria foi um dos mais famosos e traduzidos escritores brasileiros. Autor de sucesso, dentre eles “Dona Flor e seus dois maridos”, “Tenda dos Milagres”, “Tieta do Agreste” e “Grabriela Cravo e Canela”, dentre outras.

 

Agente de serviços gerais que trabalha todos os dias no núcleo, Rosa Maria Rosa garante que todas as ruas têm nome de escritores famosos, porém não conhece a maioria. José Albertini da Silva mora há mais de 10 anos na rua Adriano da Gama Kury, mas nunca ouviu falar do escritor que nasceu no Acre em 1924 e trabalhou com Aurélio Buarque de Holanda. Filósofo, foi professor na UNB. É autor de várias obras, dentre elas: “Para Falar e Escrever Melhor o Português”; “Gramática Objetiva”; “Língua Portuguesa”, etc.

 

Foram e são

 

A rua Guimarães Rosa é vizinha de Manoel Bandeira. João Guimarães Rosa foi um dos mais importantes escritores brasileiros de todos os tempos. Foi médico e diplomata. Contos e romances dele são ambientados no sertão brasileiro. Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. 

 

A rua Raquel de Queirós é paralela a Manoel Bandeira e Paulo Ronai. Raquel de Queirós foi uma romancista, escritora e jornalista, cronista polífica e importante dramaturga brasileira. Foi a 1ª mulher a ingressas na Academia Brasileira de Letras.  

 

Ronai era húngaro, fugiu da 2ª Guerra Mundial e desembarcou no Brasil. Era amigo de Aurélio Buarque de Holanda, Drumont e Guimarães Rosa, dentre outros. O destaque de seu trabalho foram as traduções para o português das centenas de contos reunidas em “Mar de Histórias”, dentre outros. 

 

Moradores de Lençóis que transitam pela avenida Orígenes Lessa sabem que ele foi um escritor nascido na cidade, porém nada a mais do que isso. Para os menos avisados, Lessa foi imortal da Academia Brasileira de Letras, jornalista, contista, novelista, romancista e ensaísta brasileiro. Dentre suas obras, destaque para “O Feijão e o Sonho”;  “O escritor proibido”, contos; “Garçon, garçonnette, garçonnière e Rua do Sol”. Na literatura infanto-juvenil, escreveu quase 40 títulos, destaque para “O Sonho de Prequeté”, além dos ensaios.