Proliferação de igrejas, shoppings, agências bancárias, concessionárias de carro e condomínios fechados. Vejo isso na minha cidade de origem - Bauru - e sempre reclamo, e sempre sou a chata, a rabugenta, a que pôde ver outras coisas e fica todo tempo comparando. Pergunto-me como as pessoas podem achar normal uma cidade que cresce dessa maneira, tendo seus cinemas transformados em igrejas, suas calçadas em paredões de condomínios fechados, suas casas em quartéis generais com cercas elétricas que separam os vizinhos, os homens, a rua...
Julgo tudo isso ser considerado normal por aqueles que lá passam todos os dias, porque a eles foi negado o direito de crítica. Digo isso, pois a mim também foi negado esse direito. Com péssimas escolas em que os professores eram em sua maioria apenas bem intencionados, sem formação intelectual consistente que permitisse a eles nos levar para uma caminho da libertação que somente o conhecimento é capaz, fomos aceitando as ideologias vendidas pela televisão, o consumo de carrões e os dogmas das muitas igrejas que proliferaram pelos rincões da cidade.
Para me entenderem melhor, explico que julgo por boa educação aquela que forma um cidadão, ou seja, que lhe ensina de modo crítico a história, a geografia, a filosofia, a literatura, a biologia, a matemática, os sistemas que regem a humanidade e até mesmo as religiões. Essa educação que nos permite olhar o nosso entorno e questioná-lo cientificamente, levando-nos a transformá-lo ? impulsionando os homens a serem agentes da sua cidade, da sua história. Essa escola ainda não existe no Brasil como regra, apenas como exceção. Ao contrário dessa educação libertadora, temos as igrejas que florescem e não educam, não ensinam sobre a vida dos homens, não ensinam sobre a história dos homens, não ensinam aos homens a se defenderem do cotidiano que oprime. Essa Igreja imobiliza, tira a liberdade dos mesmos ao pedir que acreditem em suas ficções, impondo-lhes que tomem uma verdade única ? a contra mão da ciência.
Cansei de ouvir sobre a força de Deus na minha infância e rebato agora com mais clareza. Desculpem-me os crentes, mas Deus não está vendo, Deus não sabe o que faz. Quem sabe o que faz são os homens, os banqueiros que nos dominam, os proprietários de terra, os donos de shoppings, os patrões das concessionárias, o Edir Macedo e o Papa porque eles sabem que as doutrinas religiosas formam pessoas dóceis, submissas, domináveis, fáceis de serem controladas porque pregam que a luta se estabelecerá em outra dimensão ? no pós morte, no reino divino. Escutando os religiosos percebo que esse perfil de crença é como um véu sobre os olhos que impossibilita uma visão mais crítica do mundo.
O que me preocupa ainda mais é que essa mentalidade religiosa, vide o luxurioso e faraônico templo do Edir Macedo, cresce, cresce na mesma medida das concessionárias de carro, dos shoppings, dos condomínios, das cercas elétricas, das péssimas faculdades, das horripilantes escolas. O crescimento das igrejas não é um fenômeno isolado. Ele está em comunhão ao nosso embrutecimento, a nossa alienação, à mediocridade fundamental para que estejamos sob controle. A minha crença é no homem, na educação política, na ciência que modifica a vida para melhor. A minha crença é na luta cotidiana que devemos travar contra essa passividade que nos mata, que nos tira as palavras, que nos deixa sem argumento e à mercê de qualquer ideologia.
Anna Carolina Botelho Takeda ? Professora de Literatura e pesquisadora pela Universidade de São Paulo.