“Minha profissão é feita de histórias. São muitas. Inúmeras. E interessantes, viu!”, diz o taxista Vanderlei Dionísio, 62 anos de idade e duas décadas de profissão, sobre a sua rotina profissional. Ele faz parte do time de 199 profissionais cadastrados na Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) e espalhados pelos mais de 40 pontos existentes na cidade, segundo dados do Sindicato dos Taxistas, Caminhoneiros e Transportadores Autônomos de Bauru e Região.
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Arquivo JC |
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Vanderlei Dionísio: “O taxista é um pouco psicólogo, padre, confidente...”
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Se a sociedade e o trânsito mudaram com a tecnologia e as novas leis, esses profissionais se adaptaram ao novo ritmo. Segundo o presidente do sindicato da categoria, Vitor Moreira Tallão, os profissionais têm tentado acompanhar a evolução tecnológica e a exigência dos passageiros, principalmente no que diz respeito aos meios de comunicação.
“É preciso evoluir para não perder a carteira de clientes. E isso não diz respeito somente ao telefone celular e seus aplicativos. Há muito tempo, a divulgação do serviço era feita somente pela lista telefônica ou cartão pessoal. Hoje, com a internet, isso ficou mais prático, eficiente e fundamental. Eles correm atrás dos meios com maior número de pessoas se comunicando”.
A facilidade em adquirir um automóvel, com os financiamentos, e a concorrência de outros serviços, como os mototaxistas, também contribuíram para a mudança de perfil do taxista, que passou a criar novas possibilidades e oferecer novos serviços. “Não dá mais para ficar parado nos pontos esperando por clientes. É preciso ir até eles com propagandas nos meios de comunicação, visitas nas empresas...”
Insegurança
Para Tallão, o atual desafio da categoria é a insegurança nas ruas. “Há um receio muito grande porque o marginal não tem cara. Eles se camuflam em roupas de executivos, usam mulheres bonitas como cúmplices...”
Para tentar amenizar o problema, o sindicato oferece uma cartilha de segurança e orientação elaborada em parceira com a Polícia Militar. Uma das recomendações é não ficar nos pontos depois das 19h. E é fácil encontrar motoristas que não transportam clientes estranhos.
“Seu” Vanderlei já sofreu na pele tal insegurança. “Há dois anos, eu tive todo o rosto quebrado em uma tentativa de assalto. Eles chegaram de surpresa, armados, deram-me uma pancada que me jogou de boca na guia. Hoje, tenho sete placas e dezenas de parafusos no rosto, mas acredito que o risco é o mesmo para os motoristas comuns”, recorda.
Fiado
Quando o cliente é fixo e de confiança, os taxistas costumam fazer o conhecido e antigo fiado. As corridas são marcadas em uma caderneta e pagas mensalmente. Normalmente, os aposentados, pessoas sem habilitação e que vivem sozinhas ou quem simplesmente não suporta mais enfrentar o trânsito de Bauru são os que mais utilizam esse tipo de serviço, que segundo Tallão, cresce a cada dia.
Nem tudo mudou...
Mas quando o assunto são as histórias vividas com os passageiros, o taxista que iniciou a nossa história, Vanderlei, lembra que elas sempre existiram e sempre existirão, e vão desde desabafos sobre problemas no trabalho e com a família, até as “espionagens” no rastro de parceiros infiéis.
“E isto é o que mais tem por aí. Mulheres que vão atrás de maridos com amantes, homens que nos pedem para levá-los até suas mulheres infiéis. Há de tudo. Coisas que até me surpreendem”, conta, com bom humor.
Se você vir um táxi na porta de um motel, não tire conclusões precipitadas. Vanderlei lembra que outra coisa comum é um cliente pegar um táxi para ir ao motel, principalmente se o romance for “proibido”.
“Certa vez, o carro de um casal quebrou em um desses estabelecimentos. E eu fui resgatá-los”.
Além de dirigir, motoristas de táxi acabam sendo uma espécie de terapeutas ou, ao menos, conselheiros.
“Quando perguntam a minha opinião, eu tento aconselhar. Algumas pessoas chamam uma corrida apenas para cumprir tarefas do dia a dia. Outras, para terminar um relacionamento ou ir ao encontro de decisões importantes. Cada passageiro, uma história”, afirma o taxista, que tem quatro irmãos na mesma profissão em Bauru
A apenas um clique do serviço
City tour, viagens, retirada e despacho de encomendas, serviços especiais com hora marcada para viagens e atendimento e táxi contratado por dia. Estes são alguns dos serviços oferecidos pelo site Táxi Bauru, que também dá dicas de segurança aos clientes e orienta sobre multas de trânsito. Tendência entre taxistas, as páginas na web “fisgam” boa parte dos clientes.
Taxista há 17 anos, Hermenegildo Miranda da Silva, o Zico, explica que o site está no ar há cerca de cinco anos e que o objetivo foi modernizar o serviço para atingir a maior cartela de clientes possível. E os resultados têm sido os melhores.
“O pessoal está voltado para a internet, não tem jeito. As pessoas procuram nossos telefones no Google porque é mais rápido e confortável. Temos clientes em outras cidades. Por exemplo, a pessoa está em São Paulo e precisa vir a Bauru. Ela nos liga, contrata o serviço e a gente busca no aeroporto”.
Segundo Zico, pessoas de todas as idades procuram pelos serviços depois de visualizarem o site, mas os jovens, principalmente os universitários, representam uma parcela significativa desse grupo.
O aplicativo de mensagens WhatsApp, que permite a troca de informações pelo celular sem pagar, também é usado por Zico. “Eles (os jovens) não pegam cartão, perguntam qual é o número do meu WhatsApp”.
Passa cartão?
Ainda de acordo com Zico, a máquina de cartão está sendo solicitada por muitos usuários de táxi. “Por segurança, as pessoas preferem não andar com dinheiro e, volta e meia, alguém pergunta se passo cartão. Será meu próximo passo para me modernizar e acompanhar a tendência. Isso é bom até mesmo para evitar assaltos”, acredita.
No quadro abaixo, veja a localização exata de 45 pontos de táxi de Bauru, situados nos mais diversos bairros da cidade.
Cada corrida, uma história
Antônio Freitas de Almeida tem 56 anos e já está na praça há 35 deles. Viu Bauru crescer para todos os lados e se modernizar através das ruas, como ele gosta de dizer. Também viu a violência aumentar e o trânsito ficar caótico. Transportou e falou com muita gente interessante. E coleciona histórias marcantes.
“Bauru já foi muito famosa pelo meretrício, embora nem todos gostem de ouvir isso. Há um certo tempo, atendi um casal bem vestido, pessoas vindas de outra cidade, distintas e educadas. Ele me pediu para levá-los até a casa da Eny. Fiquei espantado e expliquei que a casa fechou as portas há décadas e que a dona faleceu há tempos também. Foi quando ele me disse que sabia. Queria apenas rever os seus velhos tempos. Levei-o até o antigo casarão”.
Violência
Recentemente, Antônio também foi vítima da violência. Ele pegou um passageiro que o assaltou, ameaçou a sua vida e levou seu carro, veículo que foi encontrado “do outro lado” da cidade. “Isso aconteceu por volta das 16h30. Mesmo com a minha experiência, eu caí. Ele estava bem vestido, aparentava ser uma pessoa do bem, um trabalhador. E tinha comparsas me esperando. Eu pulei do carro e me machuquei. Foi uma experiência horrível”, desabafa.
No congestionamento
Se dirigir de casa para o trabalho já pode ser estressante nas principais vias da cidade, imagine fazer o trajeto várias vezes ao dia. O congestionamento também faz parte da rotina dos taxistas e, para driblar o engarrafamento, só mesmo com jogo de cintura e muito conhecimento sobre a cidade: “A gente pega atalhos quando o passageiro tem pressa, horário para chegar. Mas nem sempre isso é possível. As ruas são estreitas, muitos ônibus, motos. Antes, você pegava um trajeto e sabia em quanto tempo o faria, exatamente. Hoje, isso é impossível de prever”.
‘Toma, que as malas são suas’
Entre as histórias que os taxistas presenciam, sem dúvida a contada por José Roberto Manzato é, no mínimo, criativa. “Há pouco tempo, recebi a ligação de uma mulher, na madrugada, pedindo para eu ir até a sua casa. Lá, ela me deu algumas malas e um endereço. Pagou a corrida antecipadamente e me pediu para entregar a encomenda no local determinado, onde era para eu tocar a campainha e esperar”.
Foi o que o taxista fez. Demorou, mas um homem atendeu a porta. Para a surpresa do motorista. “Ele ficou pálido quando viu as malas. Foi quando eu percebi do que se tratava. Ele estava na casa da amante, a esposa descobriu e mandou suas malas para lá”.
Histórias à parte, José também já passou por situações difíceis. Uma delas foi um golpe que levou no início da profissão. Ele levou um homem a São Paulo e ficou esperando o passageiro ir até o banco. “Fiquei esperando o dia todo, claro. Eu era inexperiente. Perdi o combustível, o dia e um pouco da confiança nas pessoas, mas aprendi. E ainda hoje tem espertinhos por aí. É preciso ficar atento. À noite, por exemplo, eu só faço corrida se o cliente for cadastrado no meu celular”.
De bar em bar
Com a chamada nova Lei Seca, em vigor após uma resolução publicada pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) há pouco mais de um ano, o cerco se fechou para os motoristas que gostam de curtir a noite. Bom para os taxistas, que passaram a ter um novo perfil de passageiro. Afinal, as penas ficaram mais severas, configurando crime, em alguns casos, e chegando à detenção de até três anos, além de multas e suspensão temporária ou permanente da habilitação.
O motorista Adilson Carlos Tavares dirige taxi há três anos. Boa parte de seus clientes são os baladeiros de plantão. Ele já é figurinha carimbada em diversos bares e casas noturnas de Bauru. E garante que chega a fazer até 10 corridas por noite no final de semana, com esse tipo de passageiro.
“São pessoas conscientes que gostam de beber e não querem se arriscar dirigindo. Meninos, meninas, casais... Gente de todas as idades. Alguns saem carregados dos bares, outros saem das casas noturnas direto para os motéis. Eu até estranho algumas coisas”, narra, bem humorado.