“Ela morre sem a cirurgia e eu morro aqui. Pelo menos, a Justiça irá matar dois.” Em plena semana que antecede o Dia dos Pais, esse era o desabafo do desempregado Donzílio Quaggio Merli, 52 anos. Em um ato de desespero, ele se acorrentou a um poste em frente ao Fórum de Bauru, na noite desta quarta-feira (6), na tentativa de salvar a vida da filha, de 28 anos, portadora de uma neuropatia por trauma raquimedular e síndrome pós laminectomia. O protesto durou algumas horas.
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João Rosan |
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Merli busca há dois meses uma solução judicial para custear tratamento da filha |
A jovem precisa passar por uma cirurgia de alto custo para corrigir um problema na coluna e sofre por conta de uma fibromialgia. A Justiça negou a compra de um eletrodo epidural, de R$ 110 mil, o que levou o pai a se acorrentar e fazer greve de fome, que teve início às 11h desta quarta-feira.
Há dois meses, Merli ingressou com um processo pedindo que o governo do Estado custeie o eletrodo, uma espécie de chip, que precisa ser implantado na coluna vertebral da filha, para que ela possa voltar a ter uma vida com o mínimo de qualidade, sem dores tão agudas.
Nesta quarta-feira (6), o pai soube que a sentença negou o pagamento do tratamento. O processo ainda cabe recurso em outras instâncias. Merli procurou um promotor e foi informado que um novo julgamento poderá demorar até dois anos e entrou em desespero.
“Assim que soube da decisão da juíza, sinceramente, eu tive vontade de ir pular do viaduto. Mas quem vai cuidar delas? não tenho quem lute por elas (filha e esposa). Nem esse 'luxo' eu posso me dar hoje. Por isso, decidi me acorrentar. Eu morro aqui de fome, de sede e minha filha morre lá. Sem a cirurgia, ela vai morrer de qualquer jeito mesmo. Mas não posso vê-la morrer sem fazer nada”, desabafou o pai, que se acorrentou por volta das 19h.
O drama da família
De acordo com Merli, os problemas de saúde da filha tiveram início em 2004. Depois, em 2008, ela teve uma fratura na coluna, que se transformou em uma dor crônica, o que a obriga tomar morfina constantemente, de três a quatro comprimidos por semana, e torna as visitas ao pronto-socorro praticamente diárias. A única alternativa para se livrar do sofrimento causado pelas dores seria a jovem se submeter a uma cirurgia de alto custo, no valor de R$ 400 mil.
Desde que obteve essa informação, sem recursos para custear a operação, o pai começou uma longa batalha para viabilizar o processo cirúrgico. Após percorrer vários médicos e hospitais, conseguiu que um médico do Hospital das Clínicas de Botucatu se prontificasse a realizar o procedimento. Mas seria necessária a compra de um eletrodo, uma espécie de chip, que seria implantado na coluna. Foi quando teve início uma nova luta. O aparelho custa R$ 110 mil e, sem ele, não é possível realizar a operação.
O homem, que já trabalhou por 28 anos em uma multinacional, onde chegou a exercer o cargo de executivo, está desempregado há alguns anos. Ele se desfez dos bens que acumulou por conta dos problemas de saúde da filha. A única renda da família é um imóvel que está locado por R$ 2.500,00. Os remédios foram obtidos através de mandado judicial, mas ele conta que a entrega sempre atrasa e, às vezes, é necessário comprá-los.
“Eu vejo a minha filha urrar de dor todos os dias. Ela toma tanto medicamento que o fígado está completamente inchado. Um País que gasta com Copa, não pagar um tratamento desse? Agora é uma vergonha negar o tratamento dela, que pode melhorar as dores entre 80% e até 100%. Eu me sinto um lixo diante dessa insensibilidade. Minha filha precisa viver”, desabafa o pai, emocionado.
A Polícia Militar (PM) foi acionada assim que foi informada de que um homem estava acorrentado ao poste, porém deixou o local cerca de uma hora depois. Os policiais tentaram, sem sucesso, convencer o pai a desistir do ato de desespero.
Os PMs explicaram à reportagem que temiam pela segurança de Merli naquele local, por já ser noite, mas, como se tratava de um protesto pacífico, ele estava simplesmente exercendo o direito dele como cidadão.
O homem permaneceu acorrentado em frente ao Fórum de Bauru, com as cópias dos processos, durante a madrugada e, antes de amanhecer, saiu do local. Por conta do horário, a reportagem não conseguiu contato com o Estado nem com a Justiça para saber a posição deles sobre o caso.
Eletrodos
O tratamento com eletrodos é um implante definitivo de um microchip, que funciona como um estimulador medular e alivia dores consideradas agudas e crônicas.
Também já há estudos na área da neurociência em processo de experimentação. Esses microchips estão sendo testados, inclusive, para devolver os movimentos aos pacientes com paralisia.
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João Rosan |
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“Ela morre sem a cirurgia e eu morro aqui. Pelo menos, a Justiça irá matar dois.” Em plena semana que antecede o Dia dos Pais, esse era o desabafo do desempregado Donzílio Quaggio Merli, de 52 anos |