Já faz uns meses que me deparei com a expressão "self-hating jew" (algo como "judeu que se odeia", em português), e desde então ela me cerca e me incomoda como é: um ataque bobo, infantil e sem sentido. Normalmente, a acusação de se odiar enquanto judeu segue uma lógica simples. Basta uma pessoa judia ? israelita ou não ? criticar as violências cometidas pelo estado e/ou empresas de Israel contra os palestinos que sionistas (pessoas e grupos que defendem a criação do estado judaico de Israel em todo o território que era a Palestina antes de 1947) rebatem chamando-a de "self-hating jew". E com a intensificação do genocídio de palestinos pelo exército israelense nas últimas semanas, só tem aumentado no número de judeus "desonrados" com tal título. Mas quem quer que seja o alvo, a intenção de quem atribui tal título é somente uma: calar e desqualificar os judeus críticos da violência sionista, um anseio político que não tem outro meio de se realizar se não for com o extermínio ? moral ou físico ? de todos os palestinos.
E no Brasil? Quem atualmente poderia receber o título de "brasileiro que se odeia"? Basta dar uma olhada em tudo o que foi publicado na imprensa nacional nos últimos meses para saber que os vencedores seriam o "vândalos" que estiveram as manifestações que tomaram as ruas do Brasil desde junho de 2013, representados por seus "líderes" presos recentemente no Rio de Janeiro em um processo que aparentemente aponta como suspeito até mesmo o filósofo anarquista russo Mikhain Bakunin, morto na Suíça, em 1876.
Quando reiteramos, em consonância com a grande mídia, a alcunha de "vândalos" para aqueles que vão para as rua protestar contra a desigualdade e os desmandos dos políticos no Brasil e optam por usar do ataque específicos a propriedades públicas e privadas de empresas alinhadas com o poder e a exploração como arma para chamar a atenção para sua causa, tampamos nossos ouvidos para as críticas e ideias que esses grupos trazem desde muito antes de tomarem as ruas. São ideias vindas de debates, estudo, leitura, ações sociais continuas realizadas em coletivos, associações, sindicatos e salas de aula na presença do que acadêmicos, trabalhadores, jovens e grupos marginalizados.
Ficar sentado no sofá ou atrás de um computador e desqualificar a ação direta é desconhecer a história e desprezar suas mais diversas conquistas que até hoje desfrutamos. É ignorar que foi com saques, sabotagens e grandes manifestações que a Greve Geral de 1917 ? que contou com uma importante atuação de anarquistas, como aqueles que desprezamos hoje ? trouxe melhorias nas condições de vida e trabalho do operário paulista, assim com o inicio da consolidação de direitos hoje entendidos como básicos: jornada de oito horas, regulamentação do trabalho noturno, fim do trabalho infantil, direito de associação; é esquecer que o fim do Apartheid, na África do Sul, da ditadura militar no Brasil, da política racial norte-americana e a ocupação inglesa na Índia também contaram com levantes violentos que, ao mesmo tempo que buscavam derrubar a ordem vigente, expunham ao mundo o abuso e o autoritarismo daqueles que detinham o poder econômico e político; é se iludir que sem os irrisórios ataques do Hamas contra Israel, os palestinos conseguirão o direito de se autodeterminarem. Como dizia o notório suspeito da polícia carioca, Mikhail Bakunin: "A paixão pela destruição é uma paixão criativa".
O autor é jornalista, formado em filosofia