08 de julho de 2026
Articulistas

A USP e a greve: simples assim!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 3 min

Desde a ditadura, lutamos para que as contas públicas sejam transparentes. Não tem por que ser diferente: o dinheiro é da sociedade! A contabilidade é simples: recebemos tanto no mês e a origem do dinheiro é essa. Gastamos tanto nisto e naquilo. Pronto: sobrou ou faltou. Agora, vamos decidir o que fazer com a sobra ou planejar como pagar o que falta.

A USP diz que falta dinheiro, mas tem que ser transparente para crermos. Não exigimos transparência da prefeitura, governo estadual e federal? Não queremos transparência da câmara de vereadores, Assembleia Legislativa e Congresso Nacional? As contas da universidade, unidade por unidade, têm que ficar disponíveis na Internet para quem quiser consultar. Isto é democracia. Me desculpem, amigos, se um órgão público não faz assim, aí tem!

Temos que esconder quantos ganham os professores e funcionários? Temos que esconder quantas bolsas disto e daquilo são dadas aos alunos e pós-graduandos com o dinheiro da universidade? Temos que esconder o tanto que é gasto com vale-refeição e alimentação? Quanto gastamos com os restaurantes universitários? Quanto arrecadamos e gastamos em cada hospital, em cada clínica? Quanto de aluguel ganhamos das fundações que usam as estruturas? Quanto gastamos com viagens para congressos, reuniões e outras atividades? Quanto se paga para um professor ser diretor, chefe de departamento e outras chefias? Quanto se gasta de combustível e diárias com os carros e motoristas?

Precisamos esconder estes gastos? Não está de acordo com a lei? Quanto a universidade tem nos bancos? Onde a universidade aplica seu dinheiro de reserva? Que vantagem o banco oferece para a universidade ser sua cliente? Quem faz as licitações não tem tudo comprovado certinho, inclusive seu patrimônio pessoal anterior registrado para não se ter dúvida?

Magnífico reitor, dialogue, sente para conversar, mostre todas as contas, revele onde estão os déficits ou as sobras, sejamos transparentes de forma absoluta. Quem não deve não tem o que temer em abrir as contas da universidade nos últimos 20 anos ou mais. Teríamos algo a esconder da sociedade que nos sustenta? Se não, paremos de teimosia ou enfrentamentos onde todos saem perdendo, principalmente a sociedade!

O cidadão pergunta: o que perdemos com a greve? Pesquisas, patentes e marcas deixam de ser feitas ou atrasam. Aulas, quando são ministradas neste ambiente tenso e inseguro, não são bem aproveitadas. Na reposição sempre ficará alguma coisa para trás! Os profissionais formados não serão os mesmos em termos de competência técnica e filosófica. Pacientes deixam de ser atendidos, fornecedores ficam perdidos e sofrem perdas. Reagentes e outros produtos perdem validade e são jogados no lixo. As agências financiadoras perdem a confiança na universidade e seus membros, pois cronogramas e metas não são mantidos. A desmotivação dos jovens alunos, pós-graduandos, professores e funcionários é impagável e, às vezes, irrecuperável.

Magnífico reitor, não temas, abra as contas, negocie, coloque transparência, mas tem que ser total, absoluta e irrestrita! Como pedíamos a anistia na época da ditadura: transparência, liberdade, confiança no país e muita responsabilidade com o futuro! Explique a todos os seus limites e razões. Desta forma, todos te compreenderão e aceitarão a realidade mostrada, mas tem que ser transparente, auditada e mensal. Senão, como fica? Diziam meus pais: no jogo da verdade, quem não deve, não teme! Simples assim.

O autor é professor titular da USP e articulista do JC