As diretrizes de governo apresentadas por Eduardo Campos (PSB) à elite empresarial brasileira nesta semana guardam pouquíssimas semelhanças com o discurso feito quatro anos atrás no mesmo palco por Marina Silva, hoje sua candidata à vice.
Campos pautou sua fala na CNI (Confederação Nacional da Indústria) em demandas específicas do setor, apresentou como promessa principal não aumentar impostos durante seu mandato, passando praticamente em branco pela questão ambiental, fio condutor da carreira política de Marina.
Quatro anos antes, na mesma CNI, a então candidata à presidente foi bastante econômica nas promessas, preferindo adotar um discurso mais subjetivo, baseado no "sonho de um Brasil sustentável" e permeado por preocupações ambientais.
Campos e Marina se uniram politicamente em outubro do ano passado, após fracassar a tentativa da ex-senadora de colocar de pé seu próprio partido, a Rede.
Nos bastidores, os dois grupos políticos reconhecem as diferenças de pensamento e ação. Os "marineiros" ressaltam a característica "sonhática" de Marina; os pessebistas, o perfil mais objetivo do ex-governador de Pernambuco.
Lista de promessas
Na palestra aos empresários da indústria na quarta (30), Campos foi pragmático, disparando promessas ao setor, entre elas a de enviar, na primeira semana de governo, uma proposta de reforma tributária ao Congresso, com o compromisso de se empenhar pessoalmente pela sua aprovação.
Prometeu também acabar com a influência política das agências reguladoras, redirecionar o foco da política comercial externa para acordos com Estados Unidos e Europa, estabelecer em lei a independência do Banco Central, estimular a produtividade na indústria, ampliar as concessões à iniciativa privada e até discutir regras do mercado de trabalho, desde que isso não signifique subtração de direitos dos trabalhadores.
Sobre meio ambiente, a breve menção tem potencial, inclusive, para desagradar os "marineiros". Campos prometeu estabelecer prazos claros para a concessão de licenças para obras, embora tenha sinalizado de forma genérica que não pretende fragilizar a proteção ambiental. "O Estado tem de ser colocado a serviço da sociedade, não pode ser um entrave, um complicador", disse.
Destinatária de 19,6 milhões de votos em 2010 (ficou em terceiro na disputa), Marina esteve ao lado de Campos no evento da CNI, inclusive na entrevista coletiva aos jornalistas. Mas não se pronunciou.
Sonho
Quatro anos antes, quando disputava a cadeira de presidente com Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), Marina usou sua participação no evento da CNI para, em linhas gerais, conclamar os empresários a apoiar uma agenda de desenvolvimento integrada ao meio ambiente, que permitisse, por exemplo, aumentar a produção agrícola "sem derrubar mais nenhuma árvore".
Marina discorreu ainda sobre a necessidade do empresariado agir de forma concreta para reduzir a emissão de gases do efeito estufa, além de trabalhar por um crescimento que deixasse de se pautar na dependência dos gigantescos recursos naturais brasileiros.
Um dos poucos temas citados tanto por Marina em 2010 quanto por Campos agora foi o da necessidade de reforma tributária. Mas enquanto Campos adotou um tom mais otimista, dizendo que irá trabalhar por ela desde o primeiro dia, Marina alertava quatro anos atrás para "falsas expectativas". "Podemos fazer uma reforma tributária, mas não com falsas expectativas. Não é fácil, porque se fosse fácil já teriam feito."