08 de julho de 2026
Geral

Hábito ajuda a construir identidade

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

O que leva jovens a emprestar, entre si, roupas além da variação do visual? Emprestar e, especialmente, compartilhar roupas, acessórios e maquiagem tende a aumentar a sensação de pertencimento e de identificação com o grupo. Esses compõem o ritual de socialização e auxiliam na construção da identidade, avalia a terapeuta cognitiva-comportamental, Mauricéia Quinhoneiro.

Para a psicóloga, o comportamento é tipicamente de jovens e, sobretudo, realizado entre mulheres porque entre os meninos a “interação social costuma reunir outras representações. Normalmente mais competitivos, os meninos se reúnem mais para atividades esportivas  e jogos eletrônicos. Determinadas habilidades e, ou, características tendem a proporcionar a aceitação e a popularidade entre os amigos. A questão colaborativa nem sempre é tão evidente entre os meninos”.

Mas existem outras questões que afastam os meninos do hábito. “Os homens, de forma geral, dão menos importância a roupas e acessórios. São mais objetivos e práticos e precisam de  menos variedade para se sentir satisfeitos. Neste sentido não se constitui a necessidade, muito menos o hábito de compartilhar roupa entre amigos. No mais, para muitos garotos, compartilhar roupas pressupõe uma intimidade muitas vezes desnecessária assim como compartilhar seus medos, inseguranças e sentimentos de forma geral”, opina a terapeuta.

Mas o hábito, em si, de compartilhar coisas acontece especialmente nos períodos da adolescência, marcados pela formação de grupos sociais. “Neste período, normalmente, são construídos fortes vínculos de amizade, os quais, em muitos casos tendem a perdurar por toda a vida adulta”, cita.

Assim, a terapeuta acrescenta que, enquanto  na infância, os pais, familiares mais próximos e professores representam as principais referências de apoio, afeto e segurança para as crianças, “na adolescência o grupo de amigos passa a assumir este papel”.  Ou seja, os jovens, de maneira geral, almejam a aceitação e a popularidade entre seus iguais. E a possibilidade de ser excluído tende a representar um grande temor.

“A maneira de se vestir e de se portar, assim como os lugares frequentados, representam os principais símbolo de unificação que permite o reconhecimento de determinado grupo, também, identificados como tribo. Neste sentido, compartilhar figurino faz parte do ensaio para a vida adulta e esta relação de apoio mútuo promove a autoconfiança”, menciona Quinhoneiro.

Mas ela acrescenta que a ideia de compartilhar tem também uma função pragmática. “Diante de tantos eventos sociais, poder ampliar a variedade de possibilidades de vestimenta passa a ser um ótimo negócio para todas. Uma ação colaborativa  que remete aos piqueniques comunitários bastante comuns na infância. A barreira entre o meu, o seu e o nosso é muito mais tênue. Um desprendimento bonito de se ver”, avalia.

A mãe de Beatriz, Jussara Barbaresco Candosin concorda. “Depois dos 15 anos a cada festa era um novo pedido de roupa e isso não tem fim. Se fosse bancar tudo por causa do tradicional protesto ‘eu não tenho roupa’ ficaria complicado e o empréstimo responsável, além de saudável, ajuda muito na redução da despesa com roupas”, confirma.

Mas Jussara orienta para as regras. “O que eu digo para a Beatriz é que tenha limite, critério. Não dá para emprestar tudo para um grupo grande de amigas. É preciso escolher as com quem ela tem maior identificação e confia. É um hábito para ser realizado sim, mas entre poucos amigos, senão fica complicado”, ressalva a mãe. 

Desapego

Ser querido e valorizado pelo grupo pressupõe um certo desapego em favor do bem-comum, enfatiza a psicóloga Mauricéia Quinhoneiro. “Não seria esse um ótimo modelo de organização social? Creio que sim, mas tais hábitos enfraquecem ao longo do tempo e tendem a ser menos comum na vida adulta”.

Porém, Quinhoneiro adverte para o cuidado com uma situação nesse período de identificação em grupos sociais. “O grande perigo, nesta fase, é que a necessidade de pertencimento e aceitação torne o jovem mais vulneráveis a ações não saudáveis, tais como o abuso a álcool e drogas”, posiciona.

Neste caso, a solidez do conceito de família, ancorados em amor, cuidado, segurança e  valores saudáveis, tende a deixar o jovem menos vulnerável à dominação nociva de determinados grupos e com maior autonomia para escolha de amizades mais construtivas e saudáveis, avalia a terapeuta.


E os adultos?

O Por que as mulheres mais maduras, sobretudo a partir de 30 anos, não costumam emprestar roupas?

Para Mauricéia Quinhoneiro, na vida adulta  muitos valores e necessidades são transformados. A constituição de uma família e de uma carreira de sucesso passam a liderar a escala de prioridades, por exemplo.

Assim, baladas e programas entre amigos não combinam tanto com os novos status de relacionamento. “Os hábitos mudam e a força da cooperação social perde para a necessidade de fortalecimento do casal ou núcleo familiar. Mesmo as solteiras, devido a aquisição de um estilo próprio e que melhor lhes representa e também por terem maior autonomia financeira, não necessitam mais dos rituais de compartilhamento, pois com o tempo conquistaram maior segurança para se produzirem sozinhas”, enfatiza.

De qualquer forma, os hábitos de colaboração e desprendimento  não precisam sucumbir com a maturidade. “É saudável, ao invés de emprestar, simplesmente doar àquilo que não for mais tão útil. Dependendo da fase, brinquedos e roupas infantis passam a liderar o montante de trocas e doações. A maturidade saudável nos ensina que a bagagem leve facilita a mobilidade e que precisamos de pouco para termos qualidade de vida”, completa.

Ela finaliza que em algum momento da sua trajetória e menos deslumbrados com as ilusões de posses e de consumo, muitos adultos voltam a priorizar um estilo de vida mais colaborativo  e apoiado na comunidade. “Atividades grupais, por exemplo, voltam a fazer parte da rotina, especialmente após a aposentadoria. Hábitos e valores são reinventados e o apoio mútuo volta a manter  legítimas as relações de amizade”, encerra.


Quase um guarda-roupa em comum

Beatriz Barbaresco Candosin e Ana Claudia Spinelli poderiam ser gêmeas, do ponto de vista da simbologia dos “iguais”. Mesmo os gêmeos, segundo a literatura, não são parecidos em matéria de gosto.

Elas usam o mesmo manequim, são caçulas em suas famílias, ambas têm 18 anos, as duas são alegres, adoram festas, detestam repetir o visual e usam e abusam da amizade em relação ao guarda-roupa. A diferença fica inscrita, também simbolicamente, em um pormenor: Beatriz é dois centímetros mais alta que Ana.

“Nós conversamos muito, saímos muito juntas e gostamos de muitas coisas em comum. E a amizade gera também costumes, como o hábito de dormir uma na casa da outra com frequência”, conta Beatriz, que se diz apenas mais “tímida” que Ana. Mas Spinelli contesta: “É só no início, depois ela se solta também”.

Os gostos são parecidos em roupas, sapatos, joias e até perfume. “Usamos o mesmo perfume”, conta Ana. “E se eu vou comprar roupa eu penso na Ana na hora. O ponto de nossa intimidade é tamanha que a troca de roupa é super de boa, não escondemos nada uma da outra”, revela Beatriz.

Ana Claudia diz que Beatriz é mais desprendida e que “empresta roupa para um monte de gente”. Elas mesmas julgam o hábito: “É legal emprestar, porque renova sempre o visual. Mas pensa bem, os pais não sofrem tanto com despesa com vestuário, não têm de comprar tudo o que a gente pede”, citam, às gargalhadas.

E onde elas colocam o pé no freio: “A gente dá uma segurada na quantidade de vezes em que usamos uma mesma peça”, conta Ana. E na hora da devolução? “Basta um recadinho ou um telefonema, passa e pega se for urgente ou pede e pega em seguida”, menciona Beatriz.

Convidadas a filosofar sobre os pontos positivos dessa maneira de se comportar, elas elencam: “a ideia é não se apegar mesmo, porque roupa, sapato é coisa material e tem vida útil, acaba. Além disso, isso dá praticidade, economia e desprendimento em relação às coisas materiais o que é bem legal”, concordam.

Outro detalhe, uma dá muito palpite na escolha da roupa da outra na hora de sair. Imagina o tempo que as jovens gastam entre escolher o visual de cada uma, discutir, experimentar e se arrumar?...