08 de julho de 2026
Geral

O desafio de ser pai "menino"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 5 min

O mundo girou, virou em torno de Pedro. Aos 17 anos, a pressão do vestibular ainda do final do ano, que já lhe causara dores de cabeça, agora tinha origem na boa nova. No final do ano, ele será pai. A mãe é a namorada de 15, Joana.

Não foi difícil encontrar personagens como Pedro. Os pais meninos são frequentes, tão costumeiros quanto a mania desses jovens de ignorarem métodos contraceptivos.

O que não foi tarefa fácil na abordagem do Dia dos Pais foi contar com pais meninos capazes de falar sobre o tema. De um lado, a “ficha não caiu” para muitos. De outro, sentimentos diversos tomam conta desses jovens, como a vergonha, o susto e a insegurança em relação ao mundo real e novo, adulto, que de fato se abre precocemente sobre suas vidas.

Em apenas nove meses, o filho “rebelde” que ainda teimava em resistir às orientações dos pais passará a ter de encarar a precoce assunção ao papel de provedor, o responsável por uma nova vida. Mas, corajosamente, ainda que sob o impacto emocional da mudança em sua vida, alguns falaram sim sobre o “desafio de ser pai menino”.

Mas a maior parte da turma de pais meninos caiu fora. Alguns foram educados. Disseram estar trabalhando, ou em estudo. Ainda assim, uma desculpa para não falar. Mas outros ficaram tão bravos que o tema “ser pai” pareceu ser insulto, ao invés de dádiva, vida. Estes podem ter caminho ainda mais longo a percorrer além do prazer fugaz, aquele onde o desejo consequente não mantém relação de intimidade com a vida sexual.

“Cara, você está querendo me expor?”; “Velho, isso é careta, falar de ser pai com a minha idade?”; “To fora, você vai queimar meu filme!”... “Mano, minha ficha não caiu ainda, deixa quieto”. Essas foram algumas das afirmações ouvidas para as negativas em falar sobre “ser pai” ainda jovem.

“Estou desesperado”

Esta foi a primeira resposta de João sobre como “recebeu a notícia de que seria pai?”. Ele, assim como outros jovens que conversaram  sobre o desafio, pediu para não ser identificado.

“Estou desesperado. Estou procurando emprego, mas não sei como vou me virar. Os pais da namorada estão putos comigo e os meus também. Vou ter que me virar”, disse, em tom de desabafo misturado com desespero.

Para a psicóloga Edinéa Morilha, o desespero de João é o tipo de consequência ou reação que mais preocupa nessa etapa. “A identificação das responsabilidades como pai de certa forma violam o direito de ser adolescente, e das condições de desenvolvimento, tornando-se incompatíveis com sua idade. E o desespero fica exacerbado quando eles não encontram apoio na família. E isso só agrava a situação”, adverte.

Morilha posiciona que esse impacto é ainda mais duro sobre os meninos de classes mais pobres. “Principalmente nas classes sociais mais pobres os impactos podem ser profundos na vida desses adolescentes. Os reflexos atingem a saúde, o desempenho escolar e a vida social e profissional deles. Eles acabam tendo que precocemente optar pelo mercado de trabalho precário, abstendo-se dos estudos, formando um ciclo vicioso de pobreza e exclusão”, opina.

Observação: a reportagem falou com oito jovens na condição de “pais meninos”, por telefone e Internet. Nenhum deles quis abordar sobre o uso de métodos contraceptivos. 


“Filho mudou meu jeito”

A afirmação é de Samuel Gomes, 20 anos, que acompanha o desenvolvimento do filho há não mais que 30 dias.

“Vi no nascimento de meu filho uma motivação para antecipar as coisas que queria fazer. Será meu esforço para dar o melhor para ele. O filho mudou meu jeito de ser”, disse.

Segundo o jovem, a partir da notícia de que seria pai, passou, de imediato, a rever posturas. “Acho que estou mais focado, esforçado. Estou voltando a estudar também. Confesso que assustei muito no começo, porque é algo que muda tudo na vida da gente. Eu também fiquei nervoso porque não sabia como seriam as reações. Depois fui ficando mais calmo e analisando o que mudou”, relembra.

O pai de Samuel é falecido e, portanto, neste domingo ele vai concentrar a lembrança em seu novo papel. “Os pais da namorada apoiaram e isso pra mim foi fundamental. O nascimento do filho foi uma sensação maravilhosa. É lógico que eu não esperava isso tudo agora. Está caindo a ficha ainda, porque é muita informação em pouco tempo”, acrescenta.

A namorada está morando com a mãe e, ele, está dividindo a moradia com amigos. A medida é questão até racional, para reduzir despesas neste momento.

Sobre o dia dos pais, Samuel, não titubeou com uma mensagem: “aos pais eu digo que aproveitem o máximo a vida com seus filhos. É uma coisa única”. Sobre a relação com seus pais, como filho, sobretudo a proximidade com a mãe, ele finaliza: “Agora consigo entender melhor a preocupação de minha mãe comigo. Porque agora sinto o que é um pouco essa história de ser pai”.


Readaptação

Para a psicóloga Edinéia Morilha, entre os elementos essenciais a serem levados em conta, assim que o filho descobre que será pai, é a culpa.  

“Antes mesmo de o filho nascer, ele já é considerado culpado, por não ter usado camisinha e por ouvir coisas como estar ‘estragando sua vida’ e a vida de outra jovem. Ele passa a ser considerado incompetente e desqualificado para o papel de pai, agregando características negativas à situação”, lembra.

E, se o mundo desaba no momento da confirmação da gravidez, o desconhecido vem agregado em relação ao desempenho de ser pai em seguida. “Após o nascimento do filho, os jovens se deparam com situações em que devem tentar deixar de lado a imaturidade e começar a agir com mais responsabilidade. E isso só ocorre após o nascimento do filho, quando eles se dão conta de que têm uma nova vida para cuidar e são chamados a assumir, de fato, suas responsabilidades”.

E, nesse período, o garoto se depara com o que os psicólogos chamam de agentes estressores. “As possíveis causas desses agentes estressores para o adolescente estariam ligadas a falta de prática e imaturidade psicológica e falta de condições estruturais para lidar com a nova situação”, situa Morilha.

Assim, o trivial, mas muito dispensado nesta fase, é essencial: o apoio. “Os pais jovens precisam ser orientados e apoiados por seus familiares para que se sintam amparados diante dessa nova situação e para que tenham responsabilidades para lidar com as consequências dos seus atos”, reforça.