Com três cooperativas de reciclagem funcionando a todo vapor, Bauru deu um passo importante no que diz respeito à adequação à Política Nacional de Resíduos Sólidos, neste ano. Um impasse entre as cooperativas, Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) e Secretaria Municipal do Meio Ambiente, porém, parece ameaçar a atividade. Há cerca de dois meses, a Emdurb interrompeu a coleta dos materiais orgânicos (rejeitos) oriundos da triagem do processamento dos resíduos nas unidades, alegando que o serviço é de responsabilidade das próprias cooperativas (leia mais abaixo). Os catadores, por sua vez, reclamam da situação e já anunciam que, se tiverem que arcar com a despesa em questão, poderão fechar as portas.
Em uma corrida contra o tempo, já que o acúmulo de lixo orgânico em uma das cooperativas chega a 10 toneladas, a Semma tem designado seu pessoal, aos finais de semana – em regime de hora extra -, para recolher o material e levar ao aterro sanitário. Titular da pasta, Valcirlei Silva, no entanto, antecipa: “não temos condições de assumir nada, nem caminhões e nem pessoal. Vamos tentar intermediar uma conversa das cooperativas com a Emdurb para encontrar uma solução.”
‘Não dá’
Ativa há mais de 20 anos em Bauru, a Cooperativa dos Trabalhadores em Materiais Recicláveis (Cootramat), localizada no Jardim Redentor, alega que o serviço “extra”, de destinação dos orgânicos ao aterro, acarretaria ampliação de gastos na ordem de R$ 800,00 por mês.
“Como recebemos por sistema de rateio, teríamos que abater no salário do pessoal. O problema é que já é difícil e eles mal recebem um salário mínimo. Quando alguma máquina quebra, nós dividimos os gastos entre todos. Então, não dá. A insatisfação será grande. Se isso acontecer mesmo, nós teremos que fechar as portas”, reclama o diretor administrativo da cooperativa, Valmir Moura.
A mesma realidade é compartilhada pela Cooperativa Ecologicamente Correta de Materiais Recicláveis de Bauru (Coopeco), no Ferradura Mirim.
“O lixo orgânico está empilhado na frente da cooperativa. A Semma até tem quebrado nosso galho, mas está complicado. O cheiro é forte e a vizinhança reclama”, afirma a Gisele Moretti, uma das administradoras do local. “A prefeitura já pagou pela destinação desse rejeito, não tem sentido pagarmos novamente. A responsabilidade é da Emdurb. Além de um trabalho social com pessoas de baixa renda, estamos falando de um serviço que ajuda o meio ambiente. Precisamos é de reconhecimento”, complementa Gisele.
Administrador da Cooperativa de Bauru (Cooperbau), localizada na Vila Dura, Norberto Souza, assim como os representantes das outras duas entidades, afirma que para arcar com o serviço teria que reduzir o salário dos catadores.
“Estão tornando a reciclagem inviável em Bauru com essas atitudes. Estou praticamente bancando a cooperativa, à espera de que a arrecadação de resíduos aumente. E agora, ao invés de ajudar, inventaram mais um gasto. Nenhum caminhão de empresa particular vai sair da garagem por menos de R$ 200,00 e ainda tem o pagamento para a destinação no aterro. Multiplicando isso tudo pelas várias viagens ao mês... a conta não fecha”, completa Souza.
Insuficiência
Não bastasse o problema com a destinação dos rejeitos provenientes da coleta seletiva - resultado da falta de conscientização da própria população que acaba misturando os materiais orgânicos e recicláveis -, as cooperativas dizem sofrer ainda com a falta de matéria prima para trabalhar. O fato, inclusive, foi alvo de reportagem do JC em abril deste ano.
Por mês, a coleta seletiva da Emdurb recolhe 200 toneladas de resíduos, o que dá uma média de 65 toneladas para cada uma das três cooperativas da cidade. Elas, por sua vez, separam o material e afirmam que, quase sempre, descartam uma média de 6 toneladas de rejeitos.
Antes da interrupção, os caminhões da Emdurb, realizavam visitas semanais ou a cada 15 dias nas cooperativas para buscar os rejeitos e destiná-los ao aterro.
A Prefeitura Municipal, segundo a Semma, já desembolsa, mensalmente, à Emdurb, R$ 410,00 por tonelada pela recolha e destinação do lixo seletivo. O total representa um montante de R$ 82 mil gastos, por mês, só com a destinação da coleta seletiva às cooperativas.
“Eles interromperam porque alegam que há um novo serviço e, provavelmente, querem um retorno financeiro disso. O problema é que interromperam de repente e não avisaram a Semma e nem o gabinete. Estou tentando dar um jeito com os caminhões da secretaria, mas temos os ecopontos para cuidar e não temos efetivo suficiente para rodar as cooperativas”, afirma o secretário Valcirlei Silva.
Reunião
Por outro lado, Valcirlei lembra dos benefícios ambientais que as cooperativas têm trazido ao município e promete: “não dá para deixar as cooperativas fecharem. É um retrocesso. Vou marcar uma reunião com a Emdurb e com os cooperados para tentar uma solução. Também vou consultar o prefeito se teremos como ajudá-los. Do contrário, não sei o que será”, diz Valcirlei Silva.
A reunião em questão deve ocorrer nesta semana.
‘Está no contrato que responsabilidade é das cooperativas’, alega a Emdurb
Sobre o assunto, a Emdurb alega que o contrato assinado junto às cooperativas de recicláveis no chamamento público, no início deste ano, previa em uma das cláusulas (no item 11.2, letra “q”, página 8) que compete às entidades “a responsabilidade sobre o serviço de destinação ecologicamente correta dos rejeitos oriundos da triagem do processamento dos resíduos”.
Além disso, o presidente da Emdurb, Nico Mondelli, disse que fora o dever legal, as cooperativas da cidade já são privilegiadas por receberem os resíduos gratuitamente. “O quilo da coleta seletiva está saindo a R$ 0,80, hoje, e eles estão livres deste custo. Agora, quanto aos rejeitos é de responsabilidade deles. Até ajudamos no início, mas não temos mais como tirar os caminhões da coleta orgânica na cidade para realizar esse serviço, que inclusive poderia ser feito pela Semma. Estamos tentando melhorar o atendimento à população de Bauru”, defende Nico.
“O foco neste momento é o aumento na arrecadação de recicláveis, de 200 toneladas para 800 toneladas. Essa é a nossa meta e vai beneficiar a eles diretamente”, frisa o presidente da Emdurb.
Questionado sobre o valor que a Emdurb cobraria das cooperativas ou da prefeitura pelo serviço “extra” de recolhimento dos rejeitos nas cooperativas, Nico disse que despenderia um caminhão para tal atividade por um valor aproximado de R$ 150,00, cobrado por cada tonelada de lixo orgânico recolhido nas cooperativas.
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Quioshi Goto |
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O diretor de cooperativa no Jardim Redentor, Valmir Moura: “Recebemos por sistema de rateio” |