08 de julho de 2026
Cultura

Possuídos pelo rock

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 4 min

Julia Rangel

A partir da esq., Edinho Oliveira, Alan Breslau, Rubinho Oliveira e Erick Sartorelli, integrantes da Cavalo Morto

A maioridade é sempre motivo de festa. Ainda mais para uma banda de rock. Longevidade que poucas alcançam, a Cavalo Morto celebra 21 anos de estrada hoje, a partir das 23h, no Jack Music Pub. Nas mais de duas décadas que separam o surgimento da banda, em 1993, ao show desta noite, duas coisas não mudaram: a devoção pelo rock e a pegada nos palcos. “A paixão é esta e o que a gente quer passar é o amor ao rock e, principalmente, à música pesada. Somos possuídos pelo rock and roll”, resume Alan Breslau, vocalista e um dos fundadores do grupo.

A Cavalo Morto surgiu em um momento de xeque para o rock, analisa Breslau. “A década de 90 foi de incertezas para o rock. Pintou o grunge, o metal estava meio defasado, foi quando pintou o Pantera, um som novo, e também foi meio o declínio do trash metal. Aquela época foi meio osso. E rolava muito pop”, analisa o vocalista.

E foi justamente para resistir com o bom e velho rock and roll que surgiu a Cavalo Morto, fundada por Breslau, Marcos Pópolo, Rubinho Oliveira e Tio Chico. “A gente comeu meio que o pão que o diabo amassou, porque quisermos ter banda de anos 70. Começou com raiz Black Sabbath e Deep Purple, o lado clássico, para manter acesa a chama do rock anos 70”, explica.

Com o tempo, o som da Cavalo Morto ganhou mais peso e entraram no repertório bandas como Metallica, Motörhead e Pantera. O resultado é que a banda atravessou gerações. “O público foi mudando. Hoje, tem a galera das antigas que vai ao shows e uma molecada nova”, constata Breslau. Atualmente, além do vocalista, a Cavalo Morto é integrada por Rubinho Oliveira na guitarra, Edinho Oliveira no baixo e Eric Sartorelli na bateria. “Estamos com a melhor formação”, analisa Breslau.

E a satisfação se justifica também pelo grande momento da banda, que conta com reconhecimento não só em Bauru e tem agenda concorrida. “Os últimos quatro anos foram os melhores. Estamos tocando muito também fora de Bauru. Hoje rola muito cover específico de bandas e nós nunca fomos um cover específico. É mais difícil de ‘vender’ fora quando a moçada não conhece. Agora, depois que a gente entra e mostra nossa trabalho, consegue ficar”, diz Breslau.

O vocalista relata que a Cavalo Morto se apresenta regularmente em várias cidades do interior paulista e já tocou também em outros estados. “A gente toca várias vezes em cidades menores que são carentes por rock, de boas bandas. E as bandas de Bauru, se for comparar, são muito boas. Para você se firmar aqui, tem que ter uma banda boa”, diagnostica Breslau, citando a Hell, Awaska, Inlakesh e High Voltage como exemplos de bandas bauruenses competentes e de qualidade. “E nenhuma é igual a outra”, ressalta.

De acordo com Breslau, no show festivo, a Cavalo Morto vai seguir a linha das apresentações da banda, com muito Metallica, Pantera, Motörhead e Ozzy Osbourne. “Mas sempre com novidades, músicas diferentes destas bandas, coisas que ninguém toca. Porque tem coisa que ninguém aguenta ouvir mais”, brinca.

E a promessa é da pegada de sempre no palco com muita interação com público em mais de duas horas de rock and roll. “A gente faz um show muito visceral, emendamos uma quatro músicas uma na outra e não tem intervalo. E é sempre um crescendo, vamos começando na linha anos 70, com Sabbath, Purple, (Jimi) Hendrix e acaba sempre no Motörhead e Pantera”, comenta.

Novos projetos

Enquanto celebra sua maioridade, a Cavalo Morto trabalha em seu primeiro projeto de músicas autorais e se prepara para participar da próxima edição do Motorcycle Rock Cruise, o cruzeiro do rock.


Inspiração póstuma

Ao contrário do que imaginou este repórter, o batismo da Cavalo Morto não se inspirou na música do Guns N’ Roses “Dead Horse”, do álbum Use Your Illusion I. A ideia veio da forma mais literal possível. De acordo com o vocalista Alan Breslau, o curioso nome da banda surgiu em uma “incursão” pela zona rural onde encontrou um cavalo morto. “Pensamos: vamos colocar Cavalo Morto, porque tem a ver com uma coisa meio de tribo indígena americana. É um nome que marcou. Tem a ver com a pegada da banda.”


Segredo da longevidade

A ideia era manter acesa a “chama setenteira” e tocar clássicos do Black Sabbath e Deep Purple. Deu certo. Não que tenha sido fácil. Mas deu tão certo que a banda agora já “pode ser presa” nas palavras do vocalista Alan Breslau. Afinal, 21 anos de rock no interior de São Paulo não é para qualquer um. O segredo da longevidade é o mais simples. “Acho que é o amor pelo negócio. A gente nunca tocou por grana, a gente sempre tocou o que quis. Nunca entramos nessa de está na moda tocar isso ou aquilo. Quantas vezes tocamos para bar vazio, para cinco, seis pessoas. E sempre tocando lado B. Era nosso prazer, a gente não trabalhava com aquilo”, lembra Breslau. A identificação do público, opina, vem desta entrega. “Isso reflete e o público sente. Se o cara não está tocando com amor, não convence.”