09 de julho de 2026
Geral

Pesquisa comprova que consciência financeira de jovens piora

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 11 min

Educação financeira continua sendo “palavrão” no cotidiano de jovens brasileiros. A segunda edição da pesquisa do Indicador de Educação Financeira (IndEF) realizada pelo Serasa Consumidor e Ibope Inteligência, apresentado na última semana, mostra que o índice piorou entre jovens de 16 a 24 anos em 2014, em relação ao ano passado. Além disso, é menor o número de pessoas nesta faixa etária que tem o hábito de poupar.

 

Conforme a metodologia do levantamento, em uma escala de 0 a 10, quanto maior o índice, maior o nível de educação financeira. Neste ano, os jovens entre 16 e 17 anos tiveram nota 5,5, contra 5,9 em 2013. 

 

Já os brasileiros do grupo entre 18 e 24 anos caíram no comparativo de 5,9 para 5,8. O dado global mais preocupante é que metade da população do País teve nota entre 0 a 6. Somente 3% dos brasileiros apresentaram resultado superior a 8 no quesito.

 

Segundo o IndEF, quanto mais velho, mais o cidadão melhora sua consciência financeira. Outro apontamento da pesquisa é que o índice de educação financeira não escolhe sexo, embora, em 2014, os homens tenham apresentado resultado timidamente pior que o ano anterior. As mulheres, ao contrário, melhoraram a atitude frente à educação financeira.

 

Um dado isolado interessante, apontam os especialistas da verificação, é que a educação financeira melhora quando mais pessoas do círculo de convivência de consumidor participam da discussão sobre o uso de dinheiro ou crédito. 

 

“As opiniões do cônjuge ou de outro parente próximo têm interferência positiva na educação financeira. Mas deixar a decisão só nas mãos do cônjuge não parece ser boa ideia”, traz a avaliação oficial dos pesquisadores.

 

O IndEF também ratifica que a educação financeira continua relacionada com o hábito de poupar. A nota de 6,6 em 2014, contra 6,7 no ano passado, explica a queda na formação da poupança registrado em todas as faixas etárias, segundo os idealizadores. 

 

Assim, conforme os dados, apenas 57% dos consumidores que ganham acima de dez salários mínimos tem poupança. Em 2013 o índice era de 76%. Nas demais faixas de ganhos o ato de poupar também caiu, com ênfase para os 45% - contra 59% do período anterior (faixa de zero a cinco salários mínimos).

 

A pesquisa

 

O IndEF 2014 entrevistou 2.002 pessoas maiores de 16 anos de idade em 140 cidades de todos os Estados brasileiros e Distrito Federal, incluindo as capitais e também o Interior.

 

O indicador avalia os conceitos de atitude, conhecimento e comportamento diante da educação financeira da população, dando, respectivamente, a estes os pesos de 24%, 26% e 50%. 

 

Em atitude, a pesquisa avalia como o entrevistado enxerga sua relação com o dinheiro; em conhecimento analisa o entendimento do consumidor frente aos conceitos financeiros; por fim, em comportamento a entrevista mede as ações de cada um no dia a dia, como se gasta por impulso ou planeja a compra.

 

O teste pode ser feito no link https://serasaconsumidor.com/br/indef. Dos realizadores do indicador, o Ibope Inteligência é empresa do Grupo Ibope dedicada ao conhecimento do comportamento das pessoas e de suas relações e o Instituto Paulo Montenegro, também participante do projeto, é organização sem fins lucrativos que desenvolve propostas educacionais para a melhoria da qualidade da educação.

 

Serasa Consumidor é conceito que abrange as ações da empresa para ajudar o consumidor a gerir sua vida financeira.    

 

O Indicador de Educação Financeira foi desenvolvido em 2012 e divulgado pela primeira vez em 2013 a partir de pesquisa acadêmica premiada no Programa de Incentivo à Pesquisa Aplicada Serasa Experian. 

 

Análise aponta risco de escala da inadimplência

 

Na avaliação dos idealizadores do IndEF, o comportamento do brasileiro na hora de comprar tem reflexos ligados à posição do poder público diante do enfrentamento da crise financeira internacional, a partir de 2008, com a expansão do crédito, em uma ponta, e da ausência de ações que privilegiem o cadastro positivo e educação financeira, na outra esfera da regulação socioeconômica. 

 

O problema na economia, advertem os organismos que assinam a pesquisa, é que as medidas realizadas para enfrentar o processo recessivo ou de desaceleração da atividade no País se esgotaram. “Com intuito de mitigar os efeitos recessivos globais sobre a economia brasileira, o governo federal colocou em prática uma série de medidas anticrise focadas em estimular a manutenção do gasto tanto público quanto privado. Reduziu-se a meta de atingimento do superávit primário (política fiscal anticíclica), afrouxou-se o ciclo de aperto monetário que estava em curso desde o fim de 2007, reforçou-se a atuação dos bancos públicos (BNDES, Banco do Brasil, CEF) no mercado de crédito doméstico e adotou-se uma política de incentivos fiscais (reduções/isenções tributárias) em setores específicos da atividade econômica como, por exemplo, veículos, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, materiais de construção etc”, traz a avaliação setorial do IndEF. 

 

Assim, os mercados de consumo e crédito responderam ao conjunto de medidas. “O sucesso do pacote anticrise em retirar rapidamente a economia brasileira da recessão foi inquestionável. Entretanto, a grande maioria do conjunto de medidas adotadas foi mantida produzindo superaquecimento da economia”, acrescenta a avaliação IndEF.

 

Porém, o mecanismo gerou crescimento acelerado e acentuado do endividamento do consumidor. O dado era de 32,2% da renda disponível em dezembro de 2008, passando para 41,7% em agosto de 2012, segundo dados do Banco Central do Brasil. “Acompanhando esse aumento expressivo do grau de endividamento, a inadimplência do consumidor elevou-se de forma intensa”, avaliam. Em dois anos, a inadimplência, conforme o Indicador Serasa Experian, avançou 40%. Ou seja, saiu de 15% para 21,5% na quantidade de compromissos  vencidos e não pagos por pessoa física. 

 

O alarmante, ainda aponta a avaliação, é que é a primeira vez nos últimos 14 anos que a inadimplência do consumidor entrou em crescimento sem que a taxa de desemprego tenha se elevado. Ao contrário, ela saiu, segundo o IBGE, de 6,7% em 2010 para 5,5% na média em 2012.      

 

A pesquisa conclui que a escalada da inadimplência por excesso de endividamento e sem a presença de adversidades - como o aumento do desemprego até então – confirma duas deficiências estruturais do mercado de crédito brasileiro: a ausência de cadastro positivo funcionando e nível inadequado de educação financeira. 

 

“A falta de um cadastro positivo operando de forma plena no Brasil, diferentemente do que ocorre na ampla maioria das economias desenvolvidas, impede a redução da chamada assimetria de informação que é típica do mercado de crédito. Sem o cadastro positivo, as instituições financeiras não conseguem distinguir de maneira eficiente o bom do mau pagador”, traz a avaliação do IndEF.

 

Terapia para ensinar como comprar

 

“Dinheiro na mão é vendaval... na vida de um sonhador”, trecho da canção clássica de autoria do sambista Paulinho da Viola dá o tom de poucos ouvidos que, em geral, os brasileiros dão para a educação financeira. Autor do best-seller “Terapia Financeira”, o educador e terapeuta financeiro Reinaldo Domingos defende a prática de “alfabetização financeira” desde cedo como único remédio para reverter a falta de “jeito” do brasileiro no trato com o dinheiro e a impulsividade na hora de consumidor.     

 

Presidente da DSOP Educação Financeira, Abefin e Editora DSOP, ele elenca como elementos primordiais dessa realidade a “inexperiência no trato com o dinheiro, os impulsos consumistas e a facilidade em obter crédito, que fazem com que cresça o número de jovens brasileiros endividados”. 

 

Para Domingos, ainda que o discurso possa ser recebido como de mercado, “a terapia financeira é a bola da vez pra tratar dos traumas humanos recorrentes. A educação financeira não é ciência exatas, mas humanas, de comportamento e de hábito. E ela reflete não em ensinar ou identificar como controlar o dinheiro, mas como entender o processo que vem desde a infância, no papel dos pais ao ensinar que as coisas valem e como obtê-las, até às condutas de apelo fácil ao consumo praticadas por impulso ou como válvula de processos emocionais”.

 

A questão, sustenta o terapeuta, é que “os pais não aprenderam e não sabem ensinar a usar o dinheiro”. E as dificuldades no trato com o dinheiro estão em mais de uma frente. Nas classes mais pobres, os filhos que conseguem vagas no mercado de menor aprendiz estão sendo bancarizados. Ou seja, junto ao emprego de aprendiz, logo a partir dos 14 anos, vem uma conta bancária e, claro, o oferecimento de um cartão. 

 

Já os jovens de até 20 anos estão efetivamente com acesso a ferramentas de crédito, assumindo o “controle” de suas finanças. “Entretanto, em sua maioria, eles não tiveram acesso à educação financeira. O que faz com que, ao terem dinheiro nas mãos, acreditem que possam adquirir tudo o que antes era impossível, utilizando parcelamento ou outras linhas de crédito que são, na verdade, dívidas”, aborda.

 

E, regra geral, a escola e a família não ensinam quanto custam os desejos de consumo, quanto tempo levará para que o jovem possa realizá-los, e, principalmente, quanto dinheiro mensal tem de ser reservado para isso. “Por isso em minhas publicações elaborei um ciclo da vida sem dívidas com alguns passos para a educação financeira desde cedo”, conta.

 

PRIORIDADES

 

Em síntese, o ciclo do educador aponta para fazer o “diagnóstico financeiro anual e, com ele, distinguir o que é essencial e supérfluo; sonhar três sonhos, de curto, médio e longo prazos para o que deseja ou pretende ter e saber a diferença entre desejo imediato e prazos para os demais sonhos; guardar quantias separadas para os sonhos de acordo com os prazos; gastar menos do que ganha; manter o hábito de ter reserva para uma situação de emergência e, por fim, poupar todo mês, ainda que em pequena quantia.

 

Domingos argumenta também que a discussão sobre orçamento doméstico no Brasil prioriza despesas. “É preciso romper com esse ciclo de discutir só despesa em casa. Isso em relação à família. Em relação ao jovem, ele precisa ser ensinado desde cedo de que os sonhos têm de vir junto com o quanto é necessário guardar para ter o que se quer e em quanto tempo”, enfatiza.

 

O educador acredita que a única saída para reverter a tendência de endividamento em todas as classes sociais é “a reeducação financeira”. Sobre os resultados da pesquisa Serasa Consumidor, Domingos opina que “a verificação não trouxe nenhuma surpresa. Ela mostra que a pessoa aprende mais pela dor em relação a endividamento e também que construir o hábito da educação financeira desde a infância é que faz a diferença”.   

 

O medo de parcelar

 

Larissa Silvestre admite dificuldade em controlar seu dinheiro, mas diz que não esbanja no cartão de crédito.

Ela está no último ano do ensino médio e pretende prestar vestibular para engenharia. Larissa ajuda o tio desde já em desenhos de projetos, sua habilidade. “Eu não sou boa em controle de contas como sou em desenho. Tenho um pouco de dificuldades no controle do que ganho e acabo gerando algumas continhas”, diz.

 

Mas, de outro lado, o medo do endividamento fora do controle acaba funcionando como um freio. “Eu fico com receio de comprar algo mais caro, de parcelar, e prefiro esperar, juntar, ou deixar para outra oportunidade do que virar uma bola de neve”, comenta.

 

Sobre o uso do recente cartão de crédito em conta parcelada, a jovem conta que parcelou o ingresso para um show em São Paulo em quatro vezes. “O ingresso custou R$ 150,00, então eu parcelei para não apertar. Acho que controlando vai dar para levar legal o uso do cartão”, fala.

 

Para Larissa, o uso do cartão de crédito exige cuidado. “A ideia de comprar parcelado ainda me assusta. Tenho medo de me descontrolar”, finaliza.           

 

Jovem ‘jura’ controle sobre o cartão

 

Davi Gilioti, 13 anos, 1,80 metro de altura, pediu para a mãe Jaline Gilioti um par novo de tênis especial para jogar basquete. Ele calça número 47. “Um tênis bom para o basquete, legal, que dura mais, custa até uns R$ 600,00. Eu pedi para minha mãe e ela conseguiu comprar um por R$ 300,00 em promoção. Achei legal”, conta.

 

A mãe relata que não tem encontrado, ainda, dificuldade em discutir com Davi o que pode ser comprado agora e o que pode esperar. “Ele tem uma mesada minha e a avô também dá dinheiro a ele. E ele tem demonstrado consciência em guardar”.

 

Davi dispara que tem um colega na escola que já esbanjou valor suficiente para comprar três pares do tênis de sua preferência e jogos pela Internet. “Ele usa a senha do cartão do pai e os dados, que aprendeu e vai comprando. Acho que é muita coisa. Quando vou comprar, falo com minha mãe, mas gosto de comprar”, diz o adolescente.

 

Na visão da mãe, a discussão sobre dinheiro e seu valor é facilitada com Davi pelo fato de ele gostar de contas. “Ele gosta de matemática e mostra organização para separar e ver quanto precisa para ter o que deseja”, menciona Jaline.

 

“Não gosto de gastar à toa. E do dinheiro que eu ganho sempre guardo um pouco. Mas tenho colega que gasta do jeito que dá. Ele comprou um show caro outro dia e ele nem gosta do cantor, mas disse que comprou só pra gastar”, lança Davi.

 

Jaline complementa: “Por enquanto, eu estou conversando com ele sobre como e em que gastar e para ele saber que deve guardar dinheiro para conseguir juntar o que precisa por algum tempo. Aos poucos, o hábito de usar o cartão de débito, com controle de limite, vai favorecer para que ele tenha depois o cartão de crédito. Por enquanto,w ainda é muito cedo”.   

 

Educar

 

Como os pais devem agir? Para a psicóloga Carmem Barros, o primeiro desafio é explicar, desde sempre, sobre responsabilidade.  

 

Na adolescência, a tarefa prossegue. Para tanto, o papel desafiador é o conteúdo. “Explicar que emprestamos do banco o dinheiro e que, com isso, fazemos uma dívida”.

 

Segundo a psicóloga, é quase uma aula familiar sobre financas. “Tem de explicar sim que se ultrapassar a data de vencimento terá de pagar os juros e que isso significa gastar mais do que a parcela inicial prevista. Os adolescentes agem por impulsos e isso deve ser alertado”, adverte a profissional.