08 de julho de 2026
Política

"Aposento quando Deus me levar"

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

A candidatura a deputado federal do ex-governador Paulo Maluf (PP) corre o risco de ser impugnada pela Justiça Eleitoral em função da Lei da Ficha Limpa. Análise da Procuradoria Regional Eleitoral, vinculada ao Ministério Público Federal (MPF), aponta condenação à suspensão dos direitos políticos por improbidade administrativa e lesão ao patrimônio público.

 

O cenário não é vantajoso, mas Maluf garante: “tenho certeza de que vou conseguir ser candidato por sete votos a zero”. O líder do PP disse ainda que só se aposentará quando Deus o levar e que o malufismo nunca terá fim.

 

Muito bem humorado, em passagem por Bauru na manhã da última quarta-feira, horas antes de saber da morte de Eduardo Campos, o candidato não poupou bordões como “Foi Maluf que fez” e voltou a defender a “Rota na rua”.

 

Antes da entrevista ao Jornal da Cidade, porém, revelou algumas curiosidades. Uma delas é de que é um homem conectado à novas tecnologias. 

 

Outra é sua faceta “ambientalista”. Ao desembarcar no Moussa Tobias, sugeriu que o aeroporto da zona sul de Bauru, onde funciona o Aeroclube, seja transformado em um grande parque, com “árvores exóticas e frutíferas, para atrair passarinhos e fazer bem aos pulmões da população”.

 

Jornal da Cidade: O senhor sempre enalteceu as grandes obras de infraestrutura. A temática ambiental é uma forma de se reinventar politicamente?

Paulo Maluf:  As obras são necessárias para a mobilidade urbana. O metrô de São Paulo começou comigo e com o prefeito Faria Lima. Tanto o metrô quanto os trens suburbanos transportam entre 6 e 7 milhões de passageiros por dia. Já pensou se não existissem? As pessoas não sairiam de casa. Ainda assim, as pessoas se queixam que demora muito, que os vagões vão lotados. O gestor público tem que perseguir a solução para os problemas que implicam em má qualidade de vida. Uma das preocupações é com as áreas verdes. Em São Paulo, ninguém criou mais do que o prefeito Paulo Maluf. Tudo de grande que existe, depois do Parque Ibirapuera, teve dedo meu.

 

JC: Essa é sua terceira candidatura seguida ao Congresso Nacional. Não disputará mais eleições para cargos majoritários?

Maluf: Para ser sincero, não. Não porque eu não gostaria. Tenho orgulho de tudo o que fiz no Executivo. Aqui em Bauru, se somar o que três governadores fizeram, não dá o que eu fiz. Mas a idade chega. Vou completar 83 anos em setembro. A saúde está perfeita. Na minha idade, aguento sorrindo o que muito jovem não aguenta chorando. Mas entendo que governador tem que ter entre 50 e 60 anos e presidente da República, entre 60 e 70. Minha idade já passou. Mas eu trabalho muito como deputado federal e poderei sempre ser um bom conselheiro. Poucas pessoas conhecem os problemas do Brasil como eu.

 

JC: Alguns políticos tradicionais estão deixando a política. José Sarney não será mais candidato. O senhor cogita se aposentar?

Maluf: Não. Primeiro porque a Sylvia (sua esposa há 59 anos) não vai gostar de me ver em casa o dia inteiro. Depois que, quando aposenta, o estilo de vida muda, daí o colesterol sobe e a gente fica mais suscetível a um infarto ou AVC. O segredo da vida longa é ter agenda. Depois de Bauru, vou para Araraquara e Barra Bonita. No dia seguinte, a Jaú. Eu fico focado e acredito que isso me ajuda a viver mais. Aposento quando Deus me levar.

 

JC: Desde 1967, o senhor ocupa cargos públicos. Já venceu algumas eleições, mas, nas últimas para cargos majoritários, não conseguiu avançar para o segundo turno. O que está convencionado em se chamar de “malufismo” está acabando?

Maluf: Nunca. O malufismo é um estado de espírito de trabalho. Tem gente que eu nunca vi na vida e chega para me dizer que é malufista. Fui à Expo Bauru (na noite de terça-feira) com o pastor Roberval Sakai (PP) e ele pode dizer quantas pessoas tiraram fotografia comigo. Antigamente, me pediam autógrafo. Hoje, pedem selfie. Não sei se tirei 50, 80 ou 100 em meia hora que fiquei lá. Uma enfermeira, que é evangélica, pediu alguns panfletos meus para distribuir na igreja dela. Dei para ela um bloco com 100 cédulas e, segundo ela, todo mundo quis pegar porque diziam que, quando o Maluf era governador, podiam andar na rua sem problemas porque a Rota estava na rua.

 

JC: Explica melhor essa história de o “malufismo” ser uma estado de espírito...

Maluf: É o estado de espírito da produtividade, da eficiência, do trabalho. Sempre digo que meus túneis não inundaram, meus piscinões funcionaram, minhas estradas não esburacaram e minhas estações de metrô não ruíram. O malufismo é acordar cedo e dormir tarde para trabalhar. Isso nunca vai acabar porque o Estado de São Paulo progrediu graças a esse espírito. Até os imigrantes que vieram para cá, vieram com o intuito de trabalhar. Então, o malufismo, para mim, é o estado de espírito de progresso. Isso vai existir sempre, comigo e sem mim.

 

JC: O senhor é a favor da Lei da Ficha Limpa? Não tem receio de ter sua candidatura barrada?

Maluf: Sou muito a favor. Ela foi aprovada com voto favorável do deputado Paulo Maluf na Comissão de Justiça e no plenário. A impugnação da candidatura vai ser decidida pelo Tribunal Regional Eleitoral, cabendo recurso ao Tribunal Superior Eleitoral. Quem decide impugnação não é o procurador. Ele acusa porque esse é o papel dele. A lei é clara. Para ser enquadrado, precisa haver dolo ou enriquecimento ilícito. E não houve. Além do mais, a condenação é do tempo que fui prefeito, há 17 anos e meio. Depois desses anos todos, acho que há um pouco de exagero nessa história. O julgamento tem a ver com as empreiteiras que construíram um túnel e com a Emurb (Empresa Municipal de Urbanismo, da cidade de São Paulo). Por acaso, eu era prefeito na época. Com todo o respeito ao Ministério Público Federal, esse órgão não tem base legal ou jurídica para essa impugnação. Confio que, por sete a zero, a Justiça vai rejeitar isso.