08 de julho de 2026
Geral

UPAs: sem médicos e... sem vigias

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

A Saúde em Bauru sofre de todos os lados. Com vigilantes em greve, três das quatro Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) funcionaram com apenas um médico durante a tarde de ontem. A situação foi mais crítica na maior delas, no Bela Vista, onde a distribuição de senhas foi interrompida e dezenas de pacientes desistiram de esperar por uma consulta.

Muitos deles, cujos casos clínicos são classificados como não graves, foram orientados a procurar outro local para atendimento médico ou voltar mais tarde à UPA Bela Vista.

“Eram aqueles usuários com gripe, dor de garganta, que, em tese, poderiam aguardar até quatro horas. A demanda de lá é muito grande e a unidade estava lotada”, justifica o diretor do Departamento de Urgência e Emergência, Luiz Antônio Bertozo Sabbag.

As UPAs Ipiranga e Geisel/Redentor também funcionaram com apenas um médico. Segundo Sabbag, as baixas foram motivadas pela falta de três profissionais escalados, que, alegando doença, apresentaram atestado médico.

“Às vezes, acontece. Trata-se de um imprevisto e, como sofremos com o déficit de profissionais, não temos a quem recorrer. Decidimos manter as unidades com um médico para não ter que fechá-las e garantir o socorro aos pacientes mais complicados”, diz o diretor do setor.

Descaso

Foi com o argumento de priorizar os casos mais sérios que a UPA do Bela Vista interrompeu o preenchimento de fichas de novos pacientes.

Por volta das 16h30, no entanto, com dores no peito e dormência no braço (sintomas que podem sinalizar complicações cardíacas), Nair Pires de Moraes Franco, 64 anos, esperava por mais de meia hora no saguão da unidade.

Só depois de a reportagem do Jornal da Cidade tentar, sem sucesso, conversar com o médico que estava de plantão, ela foi chamada para atendimento. Apenas nesse instante, o profissional decidiu também solicitar a funcionários as fichas dos demais pacientes que esperavam ser consultados há horas para, enfim, avaliar a gravidade de seus estados clínicos.

Helena Micena, 60 anos, por exemplo, aguardava ser atendida há mais de quatro horas. “O médico não chama. Eles até desligaram o painel das senhas. Eu mal consigo andar de dor nas costas”, relatou.

Desistência

Benedito Pereira, 62 anos, se recupera de duas delicadas cirurgias à qual foi submetido há cerca de um mês e meio. Visivelmente debilitado, passou a madrugada de segunda para terça em claro, vomitando.

Às 10h15, ele chegou à UPA Bela Vista, foi atendido pelo plantonista do período da manhã e, posteriormente, medicado. Para ser liberado para casa, contudo, dependia de nova avaliação médica.

Mais de quatro horas depois, sua companheira, Rosalina Aparecida Pereira, 58 anos, desistiu de esperar. “Eu não sei o que fazer. Ele está muito fraco. A gente está esperando uma resposta, mas são muitas horas. Eles não oferecem nenhuma condição para um paciente como ele, que ficou sentado na recepção, em vez de ser acomodado em uma cama. Não dá mais para esperar. E não sou só eu. Isso aqui estava lotado, mas o povo foi todo embora”, lamentou a auxiliar de laboratório, momentos antes de deixar a unidade, acompanhada do marido doente.


Sem a remuneração e com os braços cruzados

Com o atraso de salários e benefícios referentes ao mês de julho, entraram em greve, na manhã de ontem, 52 vigilantes terceirizados que atuam no Pronto-Socorro Central, UPAs, Centro de Referência de Moléstias Infecciosas e Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest).

Os trabalhadores são da Proseg Segurança e Serviço, contratada pela Secretaria Municipal de Saúde. Seus salários são de R$ 1.125,59, com adicional de periculosidade de 30%. Além disso, têm direito a vale alimentação, cesta e vale-transporte.

Diretor do Sindicato dos Vigilantes de Bauru e Região, Benedito Pires afirma que os profissionais só retornarão a seus postos de trabalho quando seus salários forem pagos.

Para mediar o conflito, a entidade solicitou audiência junto ao Ministério Público do Trabalho (MPT), agendada para a próxima sexta-feira. Em maio, os vigias já haviam enfrentado problema semelhante.

Divergência

Em nota, a Proseg alega que, há 60 dias, não recebe da prefeitura os valores de contrato. Em julho, a empresa realizou o pagamento da folha referente ao mês anterior e dos tributos, mesmo sem ter recebido do município. “Mas, em agosto, a Proseg não tem como arcar mais um mês com o pagamento da folha”, informa.

A prefeitura, porém, afirma que os pagamentos não foram feitos porque a empresa não apresentou a Certidão Conjunta de Débitos Relativos a Tributos Federais e Dívida Ativa da União, exigida, mensalmente, com base na Lei de Licitações e no processo de concorrência pública. “A empresa já foi notificada e o pagamento em questão será liberado assim que o documento for apresentado”, diz a assessoria de imprensa do Palácio das Cerejeiras.