10 de julho de 2026
Articulistas

Governo anuncia liberação de recursos: mas isso resolve?

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

Desde o lançamento do Plano Real, em 1994, portanto, há mais de 20 anos, a política monetária tem sido utilizada fortemente como instrumento de controle da economia. A política monetária contempla o controle do crédito, a emissão de títulos públicos, a política de juros, os depósitos compulsórios, entre outros. São instrumentos que garantem, em sua maioria, reação imediata da economia. Contudo, dependendo da forma de aplicação, os efeitos também são de curto prazo.

Quando tivemos momentos agudos na economia, como choque especulativo da moeda nacional, os juros foram elevados, segurando a pressão sobre o câmbio. Em outros momentos, com inflação em alta, os juros nas alturas estimulam a poupança e desestimulam o consumo de bens financiáveis, portanto, adiam o consumo, segurando os preços.

Quando é preciso reverter o quadro, quando há baixo crescimento econômico, por exemplo, a liquidez da economia é elevada, estimulando o consumo. Os juros caíram no início do atual governo. Mas sem outras estratégias, a inflação voltou, e a taxa básica voltou ao patamar anterior, ou seja, em praticamente quatro anos o país foi obrigado a retomar a política de juros altos. Controle mais forte da inflação, inibindo o consumo interno, tem levado a queda no crescimento. Há na prática uma crise de confiança, que afeta, além do consumo, os investimentos, gerando um ciclo vicioso, quando deveríamos conviver com um ciclo virtuoso.

O Banco Central anunciou a liberação de recursos do depósito compulsório. Optou por não reduzir a taxa básica de juros, mas liberou recursos até então represados para que as instituições financeiras possam elevar o nível de ajuda no mercado, via empréstimos. A ideia é que o crédito seja expandido e com isso a economia respire.

A questão a ser respondida é: isso revolve? A resposta é: não! Uma instituição financeira pode até acessar mais recursos, mas não quer dizer que irá emprestar estes recursos. Em momentos agudos da economia, como agora, as incertezas são enormes e correr risco de calote passa longe daqueles que operam o mercado. Não há instrumentos legais para obrigar o mercado a ampliar o crédito. Uma alternativa, já praticada pelo atual governo, é utilizar os bancos oficiais para movimentar o mercado, concedendo mais empréstimos, mas avalio que mesmo que isso ocorra não haverá contágio dos bancos privados e o efeito prático será limitado.

Em resumo: o mercado quer na prática ações duradouras, estruturantes, que efetivamente resgatem a confiança dos agentes econômicos e não ações paliativas, que funcionam como os remédios que atacam os efeitos da doença e não suas causas. Atitudes "heróicas", pontuais, só oferecem mais munição aos que estão céticos com a economia brasileira. Portanto, não é este o caminho.

O autor é economista e articulista do JC