10 de julho de 2026
Polícia

Pistas sobre paradeiro de Roger Abdelmassih partiram de Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Secretaria Nacional De Antidrogas do Paraguai

A prisão ocorreu no Paraguai, mas as pistas sobre o paradeiro do ex-médico foram obtidas em Bauru

A prisão ocorreu no Paraguai, mas a obtenção das principais pistas sobre o paradeiro do ex-médico Roger Abdelmassih começou em Bauru, com o trabalho de uma dupla de promotores que atua no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) local, que foi designada pela procuradoria-geral para agir no caso, em parceria com a Polícia Civil da Capital.

O fato aconteceu após denúncia anônima recebida pelo Ministério Público Estadual (MPE), em São Paulo, de que o ex-médico estaria vivendo em uma fazenda luxuosa em Avaré, a 120 quilômetros de Bauru (leia mais abaixo).

Abdelmassih foi preso  na tarde da última terça-feira, em Assunção, Paraguai, e ontem foi transferido para o presídio de Tremembé. As investigações apontam que ele estaria vivendo no país vizinho há três meses, com o nome de Ricardo Galeano.

O ex-médico foi condenado a 278 anos de prisão por 48 estupros cometido contra 37 mulheres, em novembro de 2010. A Secretaria de Segurança Pública do Estado oferecia recompensa de R$ 10 mil para quem passasse informações que levassem a sua prisão.

A operação

A operação, com participação do grupo de Bauru, ocorreu no dia 29 de maio deste ano. Um dia antes, mandados de buscas e apreensões com foco na ação  haviam sido expedidos.

A fazenda, segundo o Gaeco de Bauru,  fica próxima da entrada de Avaré, nas imediações da rodovia João Mellão (SP-255). A propriedade estaria em nome do atual cunhado de Abdelmassih, proprietário da empresa Cutrale, uma das maiores fabricantes de suco de laranja no País. Essa inclusive, era a atividade de fachada alegada por Abdelmassih na vida que levava como como “Ricardo”, no Paraguai.

Vestido de Noiva

Em diligências na propriedade rural de Avaré, a polícia não encontrou o médico, mas na mansão haviam roupas, fotografias e outros documentos que comprovavam a ligação de Abdelmassih com o local.

Uma das principais pistas obtidas pela polícia foi a existência de um vestido de noiva, o mesmo que Larissa Sacco, ex-procuradora da República e atual esposa de Abdelmassih teria usado no casamento deles, em 2010, meses após a condenação.  Algumas fotografias do casal no local reforçaram essa tese.

Curiosamente, na “suíte máster” da casa também estavam guardadas inúmeras peças de roupas masculinas e femininas importadas ainda com etiquetas. Segundo o JC apurou, sapatos, bolsas e casacos com valor unitário superior a R$ 20 mil também estavam na casa.

Ligação!

A principal pista do paradeiro do médico, contudo, veio ao final da investigação no local, após a polícia encontrar uma agenda telefônica com alguns números de celular. Por meio de uma interceptação telefônica obtida na Justiça, dias depois, os números foram monitorados e as conversas com Abdelmassih, reconhecidas. Um dos números interceptados trocava ligações quase diárias com o ex-médico.

O homem, que ainda não teve a identidade revelada, seria um funcionário do ex-médico, que receberia quantias para levar documentações e dinheiro a Abdelmassih até a divisa de Foz do Iguaçu com o Paraguai, para auxiliá-lo a viver com a família no Exterior.

A suposta ligação deste homem com o ex-médico foi reforçada por meio de imagens câmeras de segurança existentes próximas à Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai.


‘Ricardo’

No país vizinho, o ex-médico Roger Abdelmassih, Larissa e seus dois filhos gêmeos, de 3 anos, viviam em uma casa luxuosa em Assunção, capital do Paraguai, a cerca de 100 metros da casa do presidente da República.

Informações dão conta de que o ex-médico, que lá dizia chamar-se Ricardo Galeano e ser proprietário de uma plantação de laranja no Brasil, levava uma vida confortável. Andava pela cidade com um carro de luxo avaliado em quase R$ 400 mil e pagava cerca de R$ 10 mil de aluguel na residência, além de manter os filhos em uma escola bilíngue. No dia em que foi preso, ele chagava à escola para buscar as crianças.


Investigação

Apesar da prisão de Roger Abdelmassih, o Ministério Público Estadual e a polícia se esforçam agora para que os responsáveis por ajudar o ex-médico também sejam punidos.

As identidades dos cinco envolvidos e suspeitos de ajudar Abdelmassih não foram divulgadas neste momento das investigações, mas eles poderão responder por crimes como favorecimento pessoal, facilitação de fuga e até lavagem de dinheiro. Já Abdelmassih e a esposa, segundo a reportagem apurou, poderão responder por falsificação de documento e falsidade ideológica.


Ex-médico é hostilizado em chegada a São Paulo

O ex-médico Roger Abdelmassih chegou ao aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, por volta das 15h40 de ontem. Ele desembarcou sob gritos de “maníaco” e “safado”. Uma mulher chegou a tentar agredi-lo, mas foi contida por policiais.

Cinco vítimas do ex-médico acompanharam a chegada de Abdelmassih e o usaram palavras como “maníaco”, “manipulador”, “safado” e “criminoso” contra ele. Depois, choraram e disseram que não dormiram nem comeram só para estar no aeroporto e ver a cara dele depois de preso.

“Agora começa o processo de cura. Mas vamos arás de quem estava acobertando ele”, disse Helena Leardini, uma das cinco vítimas que foi até o aeroporto.

Acordo

Segundo a Polícia Federal, no Paraguai, o ex-médico programava viajar para o Líbano. Após a prisão, ele foi levado para Foz do Iguaçu e, depois a São Paulo.

Segundo o delegado da Polícia Federal Marcos Paulo Pimentel, as polícias de Brasil e Paraguai entraram em um acordo para prender o ex-médico por irregularidades na migração. Abdelmassih estava no Paraguai sem permissão de entrada ou visto.