10 de julho de 2026
Nacional

Fiscais encontram pela 1ª vez no setor têxtil de SP haitianos em trabalho análogo à escravidão

Folhapress
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Reprodução/Internet

As máquinas de costura não tinham travas de proteção e ofereciam risco de amputação aos dedos

Pela primeira vez no setor têxtil, uma fiscalização do grupo de combate ao trabalho escravo de São Paulo encontrou um grupo de haitianos trabalhando de forma irregular. Foram encontrados 12 haitianos em uma oficina de costura que prestava serviço para um atacadista do Bom Retiro, região central da capital paulista.

Em ações anteriores, os fiscais localizaram trabalhadores bolivianos exercendo essa função em pequenas confecções e oficinas que costuravam peças para abastecer grandes redes varejistas ou lojas de grifes famosas.

Pelo código penal, o trabalho análogo à escravidão é aquele em que há submissão a condições degradantes, como jornada exaustiva (de 12 horas, acima do que prevê a lei), servidão por dívida e com riscos no ambiente de trabalho.

A oficina ficava no Brás e pertencia a comerciante Regina Mara de Fátima Kurahashi, que, segundo constataram os fiscais, não pagava salários, alojou o grupo de forma precária em um imóvel com instalações elétricas que expunham os trabalhadores a risco de incêndio e acidentes.

Um casal boliviano foi contratado para ensinar os haitianos a costurarem, mas também cumpria jornadas que chegavam a 15 horas, consideradas exaustivas, e eram submetidos às mesmas condições de trabalho do grupo que veio refugiado do Haiti.

Salários

Os haitianos tinham carteiras de trabalho, segundo os fiscais, mas com anotações que simulavam a contratação como aprendizes de costureiro, sem recolhimento de FGTS, INSS e contribuições.

"É uma fraude para rebaixar salários. A lei de aprendizagem prevê supervisão de uma entidade para dar curso, como Senai, e vale para jovens de 14 a anos 24 anos", diz Elisabete Sasse, fiscal do Trabalho que integrou a blitz.

Como aprendiz de costureiro, a promessa era pagar R$ 724 (salário mínimo nacional) e não o piso da categoria de R$ 1.100

As máquinas de costura não tinham travas de proteção e ofereciam risco de amputação aos dedos -18 foram interditadas.

Alimentos deteriorados também foram localizados no imóvel, que tinha paredes mofadas, colchões rasgados e botijões de gás armazenados de forma inadequada e com risco de explosão.

"A promessa era de me pagar R$ 1.500 quando ela foi buscar trabalhadores no centro que recebe os imigrantes, oferecendo moradia e comida. Mas depois, a realidade aqui foi outra", diz Saintil Denold, 25, que trabalhava como ajudante e tradutor do grupo.

Segundo o auditor fiscal Sérgio Aoki, que participou da ação, anotações feitas em cadernos, em uma contabilidade informal, demonstram que vários trabalhadores que passaram pela oficina também não receberam salários.

"Existe um inquérito em andamento no Ministério Público de Trabalho, além de diversas reclamações trabalhistas até fora do Estado", explica Aoki.

Os apontamentos dessa contabilidade indicavam que o pagamento por peça era de R$ 0,50.

A denúncia de irregularidades chegou ao Ministério do Trabalho por meio de um dos trabalhadores após de dois meses sem salário e quando a empregadora parou de fornecer alimentação.

'Porta trancada, sofá recheado'

Dois haitianos que preferem não ter nomes mencionados relataram que a dona da oficina trancava os alimentos em um local de acesso restrito aos trabalhadores. Sacos de arroz e feijão, café e macarrão foram encontrados escondidos no interior de um sofá.

A fiscalização constatou a situação na blitz que ocorreu no dia 5 de agosto.

"Na contratação a empregadora ofereceu salário, alimentação e moradia. Ainda que de forma verbal, estava no pacote no contrato, deveria cumprir," diz Luis Alexandre de Faria, auditor que integra o programa de erradicação do trabalho escravo urbano.

Sem salários, o grupo parou de trabalhar, mesmo após o pagamento de um vale de R$ 100, quando protestaram contra o não cumprimento do contrato.

"Ao cortar a alimentação, que já era precária, foi o mesmo que dizer: Você não trabalha, você não come", afirma a auditora.

Interdição

A fiscalização interditou a oficina e aplicou 14 autos de infração à atacadista As Marias, empresa que contratou a comerciante há dois meses para costurar peças para a marca.

"Vou sair do ramo, estou entregando o imóvel e fechando as portas", disse a dona da oficina. "Paguei um vale (de R$ 100) e não os salários (em torno de R$ 724) porque não tinha produção e o pessoal estava aprendendo a costurar."

Ela afirma estar em dificuldades financeiras, após não ter recebido de um cliente, e que a alimentação foi mantida. As contas de água, luz e impostos estão sendo pagas de forma parcela.

Mirian Prado Gonçalves, uma das sócias da atacadista As Marias, afirmou que terceiriza 90% de sua produção, que não sabia da contratação de haitianos e que assumiu todas as dívidas trabalhistas.

"Tenho 33 funcionários na empresa, que recebem todos os direitos. Forneço para diversos varejistas. Aqui só entra e sai mercadoria com nota fiscal", afirma a empresária.

"Se cometemos um erro foi, por não saber que tínhamos de ir in loco verificar as condições de trabalho."

Um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) foi assinado com o Ministério Público do Trabalho, e a empresa assumiu as o pagamento dos direitos dos 14 estrangeiros.

A rescisão total é de R$ 56.283,85, e a primeira parcela já foi paga. "Não há como confiar e correr riscos como esse. Posso até perder em competitividade, mas vou montar uma oficina, contratar diretamente", diz a empresária.

Na cadeia do atacado

Em outra ação fiscal em 17 de julho, os fiscais localizaram 17 bolivianos, sendo uma adolescente de 15 anos grávida, trabalhando em condições semelhantes.

A oficina pertencia a Guilherme Mamani, que está no Brasil há dez anos, produzia para Seiki, atacadista de grande porte que fornece para 100 pontos de vendas espalhados pelo país.

Parte não tinha registro, parte estava irregular no país, segundo documentos dos fiscais.