09 de julho de 2026
Articulistas

Medalhas sobreviventes

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

O dom da vida, o próprio fato de existir, favorece rotineiro e contínuo acúmulo de experiências e quanto mais tempo se vive maior é o acervo de experiências acumuladas e é exatamente isto que diferencia e qualifica aqueles que recebem o dom da vida e conseguem mantê-lo porquanto lhes permite adquirir e utilizar por mais tempo as próprias experiências. Assim parece ser, como se sustenta, até mesmo no mundo das crenças sobrenaturais em que se teme Satanás como epicentro do mal quando o temor, na verdade, advém não apenas do mal em si, mas da sua experiência acumulada, tornando-o cada dia mais perigoso porque cada dia mais antigo. A experiência pessoal acumulada, ressalvados os imortais, não favorece os mortos e desaparece junto com cada vida.

A morte - ocorrência inexorável - qualquer que seja sua causa é sempre dolorosa. E mais dói quanto maior for a proximidade do falecido com os sobreviventes. E o quadro ainda se faz mais doloroso diante de mortes inesperadas e trágicas como foi a morte de Eduardo Campos, alastrada a dor num universo amplo e abrangente que além da família, de amigos e correligionários também atingiu, pela sua condição de candidato à Presidência da República, a própria comunidade nacional. A dor da morte inesperada ainda e também traz um vazio de perplexidades muito difícil de ser superado. Na velha Roma, berço da civilização, se dizia que "mors omnia solvit" para significar que o falecimento tudo resolve e tudo soluciona na seqüência das vidas. Esse enfoque, entretanto, revela-se pouco verdadeiro em relação à grande maioria dos falecidos porque a memória que deixam dificulta o esquecimento e a superação do vazio de perplexidades provocada pelo falecimento demora longo tempo para acontecer. A morte dos experientes cientistas falecidos na aeronave criminosamente abatida na Ucrânia provocaram vazio que, muito além da dor, comprometeu inúmeras e fundamentais pesquisas envolvendo o tratamento da Aids. E a morte de Eduardo Campos suprime do panorama político crescente liderança e desarruma em proporções ainda pouco mensuráreis nossa disputa eleitoral. São duas lastimáveis tragédias que, além da carga de dor que carregam, abrem delicados e quase irrecuperáveis vazios como sempre acontece diante de mortes inesperadas que nada resolvem e muito prejudicam aos que sobrevivem.

Todavia os mortos deixam heranças partilháveis entre seus herdeiros e a eles compete usufruir delas na proporção de seus respectivos quinhões. Certamente a experiência pessoal acumulada em vida não faz parte daquilo que se legou e que deve ser partilhado. Mas, com toda certeza, o exemplo de uma vida, embora imaterial, integra a herança e oferece aos herdeiros, mesmo no vazio de perplexidades, um expressivo quinhão utilizável no futuro de cada um. As cinco medalhas que ornavam o corpo de Eduardo Campos e que acompanhavam, como discretas testemunhas, cada momento de sua vida sobreviveram à sua tragédia. Piedosa e diligentemente foram procuradas, encontradas, recolhidas e entregues à sua viúva que as partilhou entre seus cinco herdeiros.


Através delas eles recebem em expressiva simbologia uma vida acumulada de experiências em favor da causa pública e nelas estão resquícios e marcas que conservam lembranças de uma vida e de seus momentos que se prestam como bom consolo, como viva esperança e como firme rumo para a vida de cada um deles. À margem de preferências eleitorais e partidárias a nação também abalada nesse vazio de perplexidades torce para que a medalha herdada por cada herdeiro seja lembrança que possa lhes servir de bom e proveitoso exemplo.

O autor é advogado e articulista do JC