Frei Walter Hugo de Almeida, 78 anos, é um poeta que atualmente está no Seminário Santo Antônio de Agudos (13 quilômetros de Bauru). Escrever poesia para ele é um hábito que nasceu quando ele ainda era muito criança.
“Escrever poesia vem de berço. Com carvão eu escrevia poesias nas paredes da casa de meus pais e avós, em Diamantina, Vale do Jequitinhonha-MG, ainda na infância. Eram versinhos simples. O primeiro deles ainda está gravado na memória do religioso. “Felicidade onde mora? de buscar envelheci...ah tu me buscava por fora e eu moro dentro de ti.”
O irmão do frei franciscano era jornalista e o pai orador. “Não tive influência do meu irmão, mas do meu pai, sim. Lá em casa a biblioteca era muito grande com literatura internacional, Meu avô era um homem de leitura. Eu vivi nesse ambiente. Sempre gostei de ler romances. Nasci em 36 na época do romantismo.”
O autor preferido até hoje do religioso é Graciliano Ramos, que não é romântico. “O Jorge de Lima e Cecília Meirelles de quem tive muita influência. A coisa que mais gosto é ler, sempre tive três livros na cabeceira da cama. Tenho as obras completas do Jorge de Lima, atualmente estou relendo. O meu hobby é história universal. Sou formado em literatura e letras, fiz PUC do Paraná.”
Almeida diz que costuma dizer que quando as musas baixam a poesia fala na gente. “Se você me pede uma poesia não sai nada. A poesia vem e pede a gente. Eu tenho um poema chamado venho dos mortos que foi gerado a partir de uma frase dita por um amigo que encontrei quando ia encomendar um corpo. Ele me disse: De onde vens? E me abraçou... Eu respondi; venho dos mortos...daí nasceu o poema.”
O frei conta que “o venho dos mortos” o perseguiu. “Eu subia e descia a escada, ia almoçar e não me saia da cabeça. É poema pascal. A poesia é gerada como uma criança. Quando a gente pega para escrever não consegue largar.”
Ele não tem uma hora específica para escrever. “Não dedico hora...aquilo vem, a poesia você não vai atrás dela, ela que vem atrás de você. Ando sempre com a caneta e papel no bolso. Escrevo até no banheiro. A poesia influenciou os meus sermões. O pessoal diz que falo bastante simples e simbolicamente nos sermões, nunca deixa de ter um sabor de poesia. Eu não percebo isso. Está no sangue. Eu gosto muito de imagens símbolos, para mim caminho, estrada nunca pode faltar, estrela, astro, céu dourado , por natureza sou um romântico.”
Livros
O primeiro livro escrito pelo frei franciscano recebeu o nome de Jolie, um cavalinho de madeira. Embora pareça literatura infantil, a obra da Editora Vozes é focada no adulto. A edição está esgotada.
“Tenho três livros que ainda não editei, porque eu gosto de escrever, não gosto de publicar. Publico em jornais, revistas, boletins da província, das paróquia todo mês saem poemas meus. Tenho um livro que eu quero publicar antes de morrer que se chama ‘Retalhos da Vida’. São poemas de toda espécie, dividido em poesias de amor, poesias franciscanas, de ideal e também recordações. Está prontinho.”
Outra obra já está pronta e intitulada de Benê, um menino travesso. “Essa vai ser publicada em breve. É literatura infantil, está aguardando ilustração. A Editora Ática vai publicar. É uma história. Eu mato a personagem quando criança e toda a turma dele fica viva. Ele vai para a eternidade, continua travesso do mesmo jeito. Ele era muito querido. Quando ele está na eternidade, recebe colegas de cabelos brancos e ele não ficou velho. São Pedro dá licença a ele para recebê-los e a eterna juventude voltou a reinar.”
Ele nega que seja uma autobiografia não. Este livro se baseia em Santo Agostinho que diz assim: como se vive, se morre e continua a mesma coisa. Como ele era querido, travesso no mundo ele continuou na eternidade. Até canelada ele dá em Jesus. Eu ouvi essa palavra no catecismo e pensei; isso dá livro e escrevi.” O frei tem ainda 600 prova e trovinhas. “Quando eu morrer vai ser entregue à província e se quiser publiquem ou entregarem a minha família que é dessa área, eles publicam. Sou aposentado pelo INSS, padre nunca aposenta só quando fica esclerosado”, brinca.