08 de julho de 2026
Articulistas

Viaduto, presente de grego

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Não sou engenheiro, mas nem por isso deixo de ter o senso prático e a preocupação com o futuro de nossa cidade. Achei oportuna, mas tímida, a manifestação do presidente da Assenag sobre o viaduto, em terra armada, oferecido pelo governo federal, na Av. Comendador José da Silva Martha. Com a autoridade da associação que representa, poderia ser mais incisivo e liderar um movimento que orientasse o prefeito e os vereadores para evitar que aquilo que parece ser um presente seja um enorme problema. Um exame superficial do projeto, pelo que saiu no jornal, diz que são dois aterros, mantendo o canteiro central no mesmo nível, formando uma longa e profunda caixa, sob a qual está a principal adutora de abastecimento da cidade e que deverá acumular água no período das chuvas. Ao mesmo tempo, será uma barreira cortando o vale que atravessa Bauru, de Aimorés até o condomínio Lago Sul, formado pelo Rio Bauru e seu primeiro afluente, o Córrego da Ressaca

O debate na Câmara Municipal parece que se limitou a criticar o prefeito, a dizer que a obra é necessária e não deve ser perdida a oportunidade, as dificuldades foram subestimadas e não prosseguiu para um estudo mais aprofundado, de modo a embasar uma decisão que seja melhor para a cidade. Se os inconvenientes para a cidade, com vistas para o futuro, forem maiores que as vantagens, a cidade não deverá aceitar o ?presente?. Se as vantagens aconselharem a aceitação, que seja festejado.

A cidade tem um Plano Diretor, longamente debatido. Até que ponto essa obra se encaixa ou interfere nele? O vale do Córrego da Ressaca é a continuidade do vale do Rio Bauru e a Av. José Vicente Aiello, até certo ponto poderia ser a extensão sul da Av. Nuno de Assis, unindo a cidade do Mary Dota aos Világios e outros condomínios que estão surgindo na região. O maior obstáculo era a passagem sobre o pátio ferroviário, que depois de muitos anos está prestes a ser inaugurada. Se o viaduto proposto for aceito, a sua transposição depois, para o prosseguimento da avenida, será o novo grande obstáculo.

O presidente da Assenag colocou a sua entidade à disposição para o estudo de alternativas. Parece-me que a passagem por baixo da linha, se um estudo técnico indicar possível, seria a melhor solução. Nós já temos um exemplo na Av. Nações Unidas e neste caso não haveria o problema de inundação. Além disso, pelo projeto proposto haverá interrupção no tráfego de trens e veículos. Para a passagem sob a linha férrea seria necessário apenas um pequeno deslocamento dos trilhos e um desvio para os veículos, porque o viaduto é feito no chão e a terra retirada depois. O canteiro central seria mantido com possível escoramento da adutora no trecho em que ficasse descoberta. Na Rod. Marechal Rondon, no bairro de Igualdade, em São Manuel, a passagem foi feita por baixo da ferrovia, não interrompendo nenhuma das vias. Hoje, quem passa por lá nem imagina que havia uma passagem de nível naquele local.

A cidade precisa ser mais pensada e respeitada, sem interesses imediatistas, próprios de períodos eleitorais.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.