09 de julho de 2026
Política

"Centrinho poderia ser sucateado"

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 3 min

Após o Conselho Universitário da USP ter aprovado a transferência da gestão do Hospital do Centrinho para o governo do Estado, a diretora da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB), Maria Aparecida de Andrade Moreira Machado, declarou ontem, ao Jornal da Cidade, que a medida é inevitável para garantir que a unidade não seja sucateada em três ou quatro anos.

Segundo ela, a constatação é do próprio reitor Marco Antonio Zago, com base na incapacidade da universidade em investir na contratação de profissionais e na aquisição de novos equipamentos.

“Essa situação, inevitavelmente, levaria ao sucateamento do hospital em médio prazo. Hoje, não conseguimos sequer repor o déficit de 113 trabalhadores, que se aposentaram ou saíram do Centrinho”, pontua.

A mudança é uma das medidas propostas pela reitoria da USP para estancar a crise financeira da instituição, que tem 106% de sua receita comprometida com folha de pagamento.

A diretora da FOB afirma ainda que, no dia 20 de agosto, a transferência do Centrinho para o Estado foi aprovada por unanimidade pelos 15 membros do Conselho Deliberativo do hospital, o qual preside e é composto, inclusive, por representantes de servidores.

“Eu queria deixar isso bem claro porque circulam nas redes sociais informações de que eu teria tomado essa decisão”, afirma.

Ontem, Maria Aparecida reuniu estudantes, docentes e funcionários para expor a situação. Ela enfatizou que a transferência da gestão ainda não é realidade e que a medida será discutida com a Secretaria do Estado de Saúde por uma comissão da qual farão parte ela e Regina Célia Bortoleto Amantini, superintendente do Centrinho.

A garantia da manutenção do vínculo trabalhista dos funcionários do hospital à USP é endossada pela diretora da FOB.

Aprovação

A proposta é de que a Secretaria de Saúde crie uma autarquia especial para o Centrinho. A estrutura seria gerenciada administrativamente pela USP e custeada pelo Estado. Segundo ela, esse modelo é idêntico ao das gestões do Hospital das Clínicas de São Paulo e de Ribeirão Preto.

Além do aval do governo, que ainda não se posicionou sobre o assunto, a criação da autarquia depende de autorização da Assembleia Legislativa.

Em função disso, Maria Aparecida pretende se reunir hoje com o deputado estadual Pedro Tobias (PSDB), que já declarou ser contrário à transferência do Centrinho para o Estado. “Precisamos dele como um aliado”, disse.

Na próxima terça-feira, o Conselho Universitário discutirá os pedidos de reajuste salarial dos servidores da USP e o plano de incentivo de demissão voluntária. A decisão sobre a transferência do Hospital Universitário, em São Paulo, foi adiada para o final de setembro.

Qualidade

Principal temor dos opositores à proposta da reitoria da USP, a possibilidade queda na qualidade dos atendimentos do hospital, referência no tratamento de anomalias craniofaciais há 47 anos, é descartada pela diretora da FOB.

“Durante todo o processo de negociação, será reiterada a necessidade de manter o que o Centrinho tem de melhor: preservar a qualidade, a humanização, a pesquisa e a extensão. Trata-se também de uma oportunidade para melhorarmos. Hoje, o hospital ainda não tem UTI, por exemplo. A proposta aprovada estabelece, inclusive, a manutenção da mesma composição do Conselho Deliberativo atual”, pondera.

Em junho do ano passado, o hospital  confirmou a queda no número de atendimentos e procedimentos, motivada, entre outros fatores, por reduções de jornadas de trabalho, mudanças no regime de contratações de profissionais e até a aposentadoria de José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão, que tinha grande poder de influência e articulação após 45 anos como superintendente e líder da unidade.

Maria Aparecida Machado, aliás, afirma que a proposta de transferência da gestão do Centrinho já recebeu o aval de Gastão.

Na edição de ontem, Regina Amantini, superintendente do Centrinho, declarou que ainda não dispõe de elementos para responder se é favorável ou contra a proposta.