10 de julho de 2026
Articulistas

?Ensine seu filho a usar uma arma?

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 4 min

Como espécie surgimos recentemente, há cerca de duzentos mil anos atrás. Logo deixamos de ser caçadores, conseguimos domesticar animais e há dez mil anos já havia um milhão de seres humanos. Entre os séculos XV e XIX o aumento da produtividade, com a crescente mecanização da agricultura, permitiu que, em 1800, a população mundial alcançasse um bilhão. Cento e trinta anos depois, em 1930, com o impacto da revolução industrial, que transformou o mundo pela manufatura, a população chegou a dois bilhões. Apesar das inovações tecnológicas, dos novos processos industriais, a humanidade começou a vivenciar o vício letal do carvão, petróleo e gás como principais fontes de energia.

Trinta anos depois, em 1960, chegávamos a três bilhões, como consequência, precisávamos de muito mais comida do que o sistema agrícola tradicional podia fornecer. Veio, então, mais uma revolução: com o uso intensivo de pesticidas, herbicidas e fertilizantes químicos houve uma expansão sem precedentes do uso da terra, os conservantes permitiram a industrialização de alimentos e a criação de animais em larga escala. Em 1980, vinte anos depois, já existiam quatro bilhões de pessoas no planeta. O avanço tecnológico barateou produtos e passamos a consumir televisores, videocassetes, secadores e roupas, além das viagens de férias. Nestes vinte anos o número de carros em circulação saltou de cem para trezentos milhões.

Apenas dez anos depois, em 1990, havia cinco bilhões de nós e começavam a aparecer os primeiros sinais das consequências de nosso crescimento: a escassez de água. Nossa demanda de água ? não apenas a que bebíamos, mas a água necessária para a produção de alimentos e de todas as outras coisas que consumíamos ? disparou. Em 2000 éramos seis bilhões e a essa altura ficava claro para a comunidade científica mundial que o acúmulo de dióxido de carbono e metano na atmosfera ? resultante do crescimento da agricultura, da produção, processamento e transporte de tudo que consumíamos ? estava mudando o clima. As emissões desses gases estavam modificando a atmosfera; o uso crescente da água modificava a hidrosfera; o aumento da temperatura média global começava a alterar a criosfera, com o desaparecimento de camadas de gelo do Ártico e da Groenlândia.
Hoje existem mais de sete bilhões de nós na Terra e conforme os números aumentam continua a crescer a necessidade de muito mais água, comida, terra, transporte e energia. A análise dos números mostra que a demanda por alimentos se acelera a um ritmo muito mais rápido do que o crescimento da população. Isto acontece porque com o crescimento econômico as pessoas estão comendo mais e melhor, principalmente mais proteína animal. O alarmante nesta história é que a produção de alimentos depende inteiramente de um clima estável. Temos aí um ciclo vicioso, pois a produção de alimentos, que corresponde por cerca de 30% de todos os gases de efeito estufa gerados pela atividade humana, acelera a mudança climática e torna o clima cada vez mais instável.

Dois outros números divulgados pela FAO (2012) impressionam: 70% de toda água doce disponível no planeta são utilizados na agricultura e sua demanda cresce a um ritmo duas vezes maior que o crescimento populacional. Basta não esquecer da água oculta: são necessários 27 mil litros de água para produzir um quilo de chocolate ou 2.700 litros por barra; são necessários 3.000 litros de água para produzir um hambúrguer e 100 litros para uma xícara de café. A água oculta está presente em quase tudo: no frango, na carne bovina, no televisor, no carro, nos celulares... são necessários quase 4.000 litros de água para produzir uma garrafa plástica com um litro de água!

Ninguém pode negar que existe um limite para o número de pessoas que o planeta pode suportar. Penso que já o ultrapassamos e nos encontramos numa situação de emergência sem precedentes. O eminente cientista Stephen Emmott, professor em Oxford e diretor do departamento de pesquisas em ciências da Microsoft, em um de seus artigos relata que um aluno lhe perguntou se haveria alguma coisa que se pudesse fazer para reverter a situação que enfrentamos e qual seria? A resposta dele: ?Ensine seu filho a usar uma arma?.

O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru