09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Olinda Tarzia

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Éder Azevedo

Olinda publicou o primeiro livro do mundo sobre halitose

Ela é  uma “fera” da ciência. Doutora em odontologia, a bauruense Olinda Tarzia é mundialmente conhecida por suas pesquisas e fórmulas de tratamento da halitose. No início da década de 1990, ela publicou o primeiro livro sobre o assunto, que virou referência e deu notoriedade à pesquisadora dentro e fora do Brasil.

Aposentada pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), onde também estudou e deu início ao seu trabalho precursor, ela não para. Atualmente, divide seus dias entre palestras, cursos e congressos nacionais e internacionais. Também é responsável por fórmulas exclusivas da Odomed, empresa brasileira focada em pesquisa e desenvolvimento de produtos e metodologias para as áreas odontológica, médica e hospitalar.

É responsável pela criação do Centro de Excelência no Tratamento da Halitose (CETH), professora do Centro de Estudos Treinamento e Aperfeiçoamento em Odontologia (Cetao) e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos da Halitose (Sobrehali), entre outros feitos de destaque que você lê, a seguir.

Jornal da Cidade - Você é referência mundial quando o assunto é halitose. Como o seu pioneirismo começou?

Olinda Tarzia - Eu estudei na Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP). Sou da terceira turma. Formada, eu fiquei no departamento de prótese e, de lá, passei para bioquímica, onde fiquei até a minha aposentadoria. Lá, a gente via a bioquímica básica, que servia para médicos, dentistas, veterinários... Um negócio que não satisfazia muito bem. E resolvi criar na faculdade uma divisão da bioquímica: básica e bucal, por minha conta. Dei as aulas da básica, apertei o cinto e dei a bucal. Pedi a opinião dos alunos, por escrito, mandei para a reitoria e eles criaram a disciplina bucal, que passou a ser obrigatória. A turma ficou entusiasmada e queria ir para congressos, mas, no primeiro ano, ainda não se tem condições de apresentar nada. Nem a boca dos pacientes eles conhecem direito (risos). Já havíamos falado tudo sobre o flúor e comecei a pensar em alternativas. O mau hálito incomoda muita gente e eu nunca havia visto ou aprendido nada sobre isso. E como o assunto está muito relacionado à bioquímica, pensei na possibilidade de montar alguma coisa para os alunos estudarem e levarem até os congressos.

JC - Foi assim que nasceu o primeiro livro do mundo sobre halitose?

Olinda - Sim. Isso em 1991/1992. Ninguém falava nada a respeito. Fui procurar na literatura e encontrei alguns artigos, apenas. O halimeter, aparelho usado para medir o hálito, ainda estava sendo montado. Quando descobri isso, juntei tudo para dar aulas para os alunos e para que eles pudessem apresentar algo sobre o assunto em encontros. A coisa foi crescendo até que um cara do Rio, que eu já conhecia, pediu para eu escrever um livro sobre cárie. Eu disse que não, porque já sabíamos praticamente tudo sobre cárie. E mostrei para ele o meu trabalho inédito.

JC - O sucesso foi imediato?

Olinda - Bom, quando ele viu o material, ficou “meio assim”, mas levou para ler e investigar. E viu que eu estava falando a verdade e que não havia nada sobre o assunto. Ele se interessou em publicar e essa história fez um “boom”, nunca mais pude fazer outra coisa na vida (risos). O livro já teve várias edições. Inclusive lancei um outro, em 2003/2004, com novas informações. Mas fiquei um pouco chateada, porque as pessoas começaram a copiar meu trabalho e a publicar com seus nomes, sem citar a fonte, inclusive. Isso desanima.    

JC - E virou notícia!

Olinda - Eu não sei como, mas todo mundo começou a me procurar. Recebi um convite para participar do programa do Jô Soares, na época ainda no SBT. Fui ao programa e, no dia seguinte, a Globo, Cultura e outras emissoras me procuraram. Isso foi crescente. Todo dia eu tinha pacientes. Gente dos mais diversos lugares. Em um único dia, eu tive mais de 80 ligações de gente querendo atendimento. Quase enlouqueci, porque todo mundo queria uma solução. E eu não tinha. Só tinha a teoria. Porém, era uma teoria muito boa e isso permitiu que eu fosse criando essas soluções.

JC - E os produtos foram surgindo...

Olinda - Isso. Quando eu vi, estava desenvolvendo saliva artificial, enxaguantes... Tudo começou por acaso e foi crescendo da mesma forma. Eu nunca planejei trabalhar como halitose e, muito menos, ser conhecida por causa desse trabalho. As coisas foram acontecendo.

JC - Você deu aulas da FOB/USP até a aposentadoria. Hoje, como são divididos os dias profissionais?

Olinda - Estou enrolada de trabalho em São Paulo até o pescoço (risos). Em Bauru, eu atendo pacientes em meu consultório, quando possível, e faço alguns trabalhos pela Internet, como o 1º Congresso Nacional de Halitose Online (1º Conahaol). Em São Paulo, meu trabalho sempre foi intenso na Odomed, desenvolvendo formulações, produtos e formas de medir o hálito. Para tanto, fiz viagens internacionais. Algumas dessas formulações provavelmente serão usadas na odontologia hospitalar, em breve. Isso será demonstrado no final do Conahaol como o ápice do congresso. Meu trabalho é intenso na Odomed. Lá, criamos o Centro de Excelência no Tratamento da Halitose (CETH).

JC- Sua atuação também se estende para o Cetao, certo?

Olinda -  Sim. No Centro de Estudos Treinamento e Aperfeiçoamento em Odontologia (Cetao), eu ministro palestras e cursos curtos para a pós-graduação. Eu não paro. Estou trabalhando em quatro ou cinco coisas diferentes e acredito que, se você viver arrastando chinelos, é porque acabou a graça de viver (risos).

JC - Sobre o 1º Conahaol.

Olinda - O congresso não será presencial e ocorrerá entre os dias 22 e 28 de setembro. Por isso mesmo eu pude abrir para médicos, dentistas e leigos que queiram conhecer o assunto. As palestras serão gravadas e poderão ser acessadas das 8h às 22h. Para participar, o interessado deve fazer a inscrição no site www.conahaol.com.br.  Dúvidas e discussões poderão ser trabalhadas na página oficial do congresso no facebook.

JC - Quem é a doutora Olinda longe do trabalho?

Olinda - Eu gosto muito de dançar. Tanto que fiz curso com a professora Sally. Um dia, um monitor de dança me olhou e perguntou: Por que você gosta de dançar se dança tão mal? (risos). Então, fui aprender com a Sally. Eu dançava de três a quatro vezes por semana até que, em 2011, fraturei a tíbia em uma queda. Agora danço bem menos, infelizmente.

JC - Além da dança e das viagens, a leitura também é hobby?

Olinda - Eu estou sempre lendo. Leio muito para minhas pesquisas, mas também gosto muito de autoajuda, porque tem muito de psicologia, e para tratar um paciente com halitose é preciso entender um pouco a questão. Tem paciente que está curado, mas acredita que não está. Muitos se isolam, não saem de casa. Um paciente chegou a pular do carro por achar que o taxista não estava aguentando o cheiro do seu hálito. Ele achava que o vizinho sentia o seu hálito da casa dele. E ele não tinha essa halitose, não. Bom, hoje ele está curado desse fantasma, casou-se, é pai... E muitas vezes marca para me ver. Inclusive conheço a família dele. É muito gratificante trabalhar nessa área. 

Perfil

Nome: Olinda Tarzia

Idade: 69 anos

Local de Nascimento: Bauru

Signo: Leão

Filho: Fábio Thorn Tarzia Gasparini

Hobby: Dança, literatura e viagens

Livro de cabeceira: Não tenho um, mas estou em constante leitura

Estilo musical predileto: Gosto de música para dançar, música orquestrada e um bom forró

Filme preferido: Gosto de comédias e filmes baseados em fatos reais

Time: Torço apenas para a Seleção Brasileira

Para quem dá nota 10: Acho que o brasileiro merece tal nota por sua luta diária

Para quem dá nota 0: Para a presidente Dilma Rousseff

E-mail: contato@conahaol.com.br