09 de julho de 2026
Esportes

Beisebol: o jogo virou

Neto del Hoyo
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Divulgação

Rebatedor atento à bola

O Tampa Bay Rays parece ter conseguido a jogada perfeita. Na linguagem do próprio beisebol, a franquia norte-americana saiu de um ‘strikeout’ (quando um rebatedor é eliminado por não ter rebatido as bolas válidas arremessadas dentro da zona de jogo) para garantir o que, por enquanto, soa como um ‘grand slam’ (quando o mesmo rebatedor consegue a maior pontuação numa só rebatida, ou seja, quando todas as bases estão completas).

Na tradução livre para esse esporte pouco conhecido no país do futebol, assim pode ser definida a chegada da equipe norte-americana em Garça, cidade de 43 mil habitantes (segundo Censo IBGE/2010), a 70 quilômetros de Bauru.

Sem tradição no Brasil e com regras desconhecidas da maioria, o beisebol tem no interior paulista a chance de buscar seu espaço.

Campeão da liga americana e finalista da World Series em 2008, o Tampa Bay Rays anunciou nesta semana que Garça será a primeira cidade brasileira a receber uma academia de um franqueado da MLB (Major League Baseball).

O acerto vem cinco anos após a primeira incursão dos Rays no Brasil. Em 2009, a franquia chegou a assinar protocolo de intenções com Marília, mas não obteve sucesso – a renúncia do então prefeito Mário Bulgareli e a disputa política na Câmara Municipal atrapalharam as negociações. (leia mais abaixo)

Agora, a equipe já trabalha em Garça. Um campo oficial já foi desenhado no Parque Ecológico Jayme Nogueira Miranda, e deve receber nos próximos meses as primeiras turmas para aulas gratuitas. “Queremos começar a trabalhar com essa equipe uma ação que envolva as nossas escolas, levando nossas crianças a praticar o beisebol. Acreditamos que essa parceria irá render muitos frutos”, explica o prefeito municipal, José Alcides ‘Faneco’ (PSDB), que assinou protocolo de intenções.

No Brasil, a equipe é representada por Adriano de Souza, que foi jogador profissional com atuação em Cuba, República Dominicana, Venezuela, Holanda, Espanha, Estados Unidos e México, e só deixou o beisebol quando se tornou Diretor de Operações dos Rays no Brasil.

 

Em Garça, campo oficial já está pronto

Choque político e ‘stikeout’ no projeto

Apreciado e dominado pela colônia japonesa, o beisebol norte-americano (o esporte, aliás, foi criado por lá) corre em busca de novos talentos para sua milionária liga nacional. Por aqui, a história começou a mudar em 2009, quando o Tampa anunciou Marília como cidade sede do projeto para aquela que seria a primeira academia de uma franquia da MLB no País.

As tratativas tiveram início no final do primeiro mandato do ex-prefeito Mário Bulgareli. Antes de pedir renúncia do cargo, em março de 2012 (foi aberta investigação de sua participação no esquema de mensalão encabeçado pelo ex-chefe de gabinete e ex-secretário da Fazenda, Nelson Grancieri), Bulgareli chegou a viajar, junto com sua esposa, para os Estados Unidos, onde apresentou a planta do CT à imprensa local e até assinou contrato de intenção com o Tampa Bay Rays.

Mas o projeto acabou levando “strikeout” da Câmara de Marília que, por unanimidade, vetou a construção do complexo que tinha planta aprovada e terreno cedido. Os representantes dos Rays contam que R$ 500 mil foram liberados do Ministério dos Esportes e mais R$ 1 milhão em emenda para Marília dar início ao projeto, mas o dinheiro não foi aplicado.

“Dois pontos impossibilitaram o projeto mesmo com tudo acertado. Primeiro a corrupção no governo Mário Bulgarelli, que se recusou a utilizar da verba aprovada pelo deputado federal Sergio Nechar, mais a verba do Ministério dos Esportes, para tentar fazer com recursos próprios. A outra questão que pesou bastante foi a influência política da colônia japonesa que entendeu que a instalação do Tampa iria acabar com o esporte que eles sempre controlaram”, explica Edno de Souza, diretor de operações internacionais da AES Sports Agency, que presta serviços ao Tampa.


Em Garça, ‘grand slam’

Sem espaço em Marília, os representantes dos Rays buscaram um novo porto.

“Desde que as coisas começaram a se tornar mais difíceis para a concretização do projeto, iniciamos contatos com várias localidades que se ofereceram para nos receber. Conseguimos o acerto com a prefeitura de Garça e o projeto, enfim, teve início”, destaca Adriano de Souza.

“Queremos mudar esse rótulo (de esporte para colônia japonesa) e dar oportunidade das crianças terem acesso a esse esporte. Mesmo que não se tornarem atletas profissionais, que estas crianças sejam melhores cidadãos”, cita.

O modelo implantado em Garça é o mesmo que o Tampa já apresentou em Marília, ainda em 2009, e segue os moldes das outras academias de franquias da MLB espalhadas por República Dominicana, Venezuela e Cuba.

“Programamos ter um complexo com dois campos oficiais, um batting cage (gaiola de rebatidas, em tradução livre), um alojamento para 60 atletas com academia própria, sala fisioterapia, vestiários, e outras estruturas para atender aos alunos da rede de ensino, atletas selecionados pelos olheiros que completarão a equipe de formação do Tampa”, explica Edno de Souza.

Investimento

Pelo acordo firmado, Garça se compromete a oferecer a área para a construção do campo de beisebol, com as adequações necessárias para a prática desse esporte – no caso, o terreno cedido no Parque Ecológico Jayme Nogueira Miranda.

Já os Rays ficam encarregados dos gastos de manutenção do campo e instalações, além de todo o equipamento (luvas, tacos, bolas, etc.).