A leishmaniose visceral (LV), forma mais grave da doença, teve seu primeiro caso registrado em Bauru há 11 anos. Sua infestação tão logo tornou-se uma ameaça pelo alto índice de mortalidade. Em 2008, Bauru contabilizava 79 casos da doença e oito mortes. Nessa mesma época, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) chegava a eutanasiar até 11 cães doentes por dia.
Nos últimos dois anos, porém, o número de pessoas infectadas com leishmaniose registrou queda, de 35 casos, em 2012, para 32 casos, em 2013, ambos com um óbito cada.
O número seguiu uma tendência observada desde 2009, quando os registros começaram a cair, com exceção de 2011, ano em que cinco pessoas acabaram morrendo.
Já em 2014, foram 11 infectados e uma pessoa morreu e, há certa expectativa, por parte do poder púbico, de que a queda continue. A redução dos casos também refletiu no número de eutanásias, que, neste ano, reduziu para 4 por dia no CCZ (veja mais no quadro).
Sem descuidar
Embora os números representem certa estabilidade, a leishmaniose ainda é classificada pela Secretaria Municipal de Saúde como endêmica.
Em uma lista do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado, Bauru aparece como a cidade que mais registrou casos e óbitos da doença, entre 2010 e 2013, em comparação com 76 municípios do Interior. Votuporanga e Birigui são os próximos da lista.
A pasta, inclusive, se posiciona sobre o assunto demostrando preocupação com o avanço da doença e até com a possibilidade de mutação do protozoário, já que o tratamento de cães, embora irregular e polêmico, é realidade no município. “Todo agente infeccioso, quanto mais for experimentado com tratamentos, maior a chance de adquirir resistência. Apesar disso, o perfil clínico da leishmaniose não mudou”, diz secretário de Saúde, Fernando Monti.
Recuou
Uma das explicações para a redução dos casos da doença em humanos no município, segundo avalia Monti, foi a intensificação das ações da pasta para combater o vetor e das varreduras realizadas nos períodos em que a havia grande infestação da doença, além de certa consciência adquirida pela população.
“Esses trabalhos ajudaram na diminuição de possíveis criadouros e refletiu na quantidade de casos em humanos”, afirma o secretário. “Há também o fato de que toda vez que ocorre um fenômeno que traga morte, a população acaba se sensibilizando mais”, avalia.
O problema, no entanto, é quando a população se descuida. “Estamos com uma estabilidade na ocorrência de casos, que ficam entre 30 e 40. Mas não temos muito que comemorar, é uma doença que persiste. Possivelmente não vamos conseguir erradicá-la completamente. Há fatores na natureza que fazem a doença persistir”, acrescenta Monti.
Há ainda outra preocupação em relação aos casos subnotificados. “Há pessoas que entram em contato com a leishmania, mas não desenvolvem. Sabemos que isso existe. Mas, se, no futuro, essa pessoa sofrer certa depressão no seu sistema imunológico, poderá manifestar a doença”, comenta o secretário.
Eutanásias
Alvo de polêmicas e até de brigas na Justiça, a eutanásia de cães diagnosticados com leishmaniose obteve redução drástica nos últimos cinco anos, de 11 para 4 por dia.
A explicação para tal fenômeno, conforme o secretário, estaria relacionada com a redução dos casos em humanos e com a própria mortalidade dos cães doentes. “A medida que o número de pessoas doentes caiu, as buscativas nos bairros também registraram queda. Essas ações contemplam um raio de até 500 metros do endereço de toda pessoa que é diagnosticada com leishmaniose”, pontua Monti, sobre a busca e diagnóstico de cães doentes. “Com o programa de castração que iremos implantar, esses números devem diminuir ainda mais”, acrescenta.
Outra questão que pode ter auxiliado na redução do número de eutanásias, mas que não é confirmada pelo município, é em relação ao crescimento do tratamento de cães com a doença.
Apesar da recomendação do Ministério da Saúde, que preconiza a eutanásia, a reportagem apurou que há profissionais que agem no sentido de cuidar desses animais no município.
Teste rápido
Sobre a preocupação do município com novas ferramentas focadas no controle da doença e evoluções no tratamento, o secretário de Saúde, Fernando Monti, ressalta ao JC que está em constante estudo e que soube, há alguns dias, de uma novidade na medicina sobre o assunto. Trata-se da possibilidade de um teste rápido para detecção de leishmanionse, que é feito utilizando o sangue do paciente. Mas a tecnologia ainda estaria em análise.
Pega mosquito!
Em Rio Claro (a 180 quilômetros de Bauru), o CCZ da cidade apostou em armadilhas luminosas como forma de evitar a proliferação de mosquitos flebotomíneos. Ao menos dez armadilhas foram espalhadas na periferia da cidade, que ainda não teve registros da doença. A armadilha, segundo explica o coordenador do CCZ, Josiel Hebling, é preconizada pela Superintendência de Controles de Endemias (Sucen), e é composta por uma tela, lanterna e uma hélice, que puxa os mosquitos para a armadilha. Todos os dias, os agentes verificam se o mosquito está entre as espécies caputuradas.
O que é a doença?
Trata-se de uma enfermidade infectocontagiosa transmitida pela picada do mosquito flebótomo (também conhecido como “birigui” ou “mosquito de palha”) infectado. Introduz o protozoário Leishmania chagasi. Pode ser desenvolvida em cães ou homens. Nos cães, os sintomas são: atrofia muscular, diarreia, lesões oculares, sangramentos, descamação, úlceras e nódulos na pele. A transmissão do parasita ocorre apenas por meio da picada do mosquito fêmea infectado.