09 de julho de 2026
Articulistas

Ponto de vista

Ismar Pereira
| Tempo de leitura: 3 min

"Pode parar! Está errado. Isso é um exagero. O povo argentino não é nosso irmão, é nosso amigo. Pode começar de novo"! A bronca era do diretor, interrompendo o discurso do aluno. Foi o seguinte: o cônsul argentino havia doado um laboratório para a escola. Coisa fina, de primeiro mundo, que devia ter custado uma pequena fortuna. Numa demonstração de gratidão, foi organizado um evento em homenagem ao benfeitor. Era uma daquelas festas tradicionais com cantos, danças (não, apesar de tudo, o tango não foi incluído) e o indefectível discurso.

A expectativa era geral. Havia um clima de suspense. E aconteceu novamente: de novo o aluno ? melhor da escola ? empregou a palavra "irmão". À beira de um ataque de nervos, já que aquele era o último ensaio, o diretor interrompeu novamente o discurso e interpelou asperamente o aluno: - Afinal, por que você não quer dizer que o povo argentino é nosso amigo? E o menino, demonstrando muita personalidade: - Porque amigo a gente escolhe!

Durante a Copa do Mundo a mídia mostrava, à exaustão, a boa acolhida que os brasileiros dispensaram aos hermanos. Tão boa que os próprios argentinos ficaram surpresos. Aí surge a pergunta crucial: se a situação fosse inversa, de que forma os brasileiros seriam tratados na Argentina?

Eu e minha mulher estivemos duas vezes em Buenos Aires. Seguindo conselho de hóspedes do navio, resolvemos usar um taxi para conhecer a cidade. O preço fechado e a duração do passeio foram previamente combinados. O roteiro seria decidido pelo motorista: Quando percebi que ele estava andando em círculos, repetindo o trajeto, concluí que seria melhor abreviar o passeio. Entreguei-lhe o valor contratado, acrescido da gorjeta. Já estávamos nas imediações do navio quando fomos alcançados pelo taxista, que chegou correndo, esbaforido. Ele dizia que o valor combinado era por pessoa e não pela corrida. Apesar de ser a palavra de dois brasileiros contra a palavra de um argentino, embora contrariado acabei pagando-o. Afinal, estávamos na Argentina.

Na segunda estada em Buenos Aires não quisemos incorrer no mesmo erro e contratamos um tour por intermédio do setor de excursões do próprio navio. (Aliás, aí surge uma dúvida cruel: se estávamos fazendo um "cruzeiro", por que tudo é cobrado em "dólar"?). Ao perguntarmos qual o roteiro, a resposta era sempre a mais óbvia possível: os principais pontos turísticos. Quando o ônibus fez a primeira parada, tivemos uma surpresa tão grande quanto desagradável. Você, prezado leitor, conseguiria adivinhar qual era o ponto turístico? Inacreditável: um cemitério! E eu não estava nem um pouco interessado em visitar o túmulo de Juan Domingo Peron.

Analisando os fatos, cheguei a uma conclusão curiosa: um povo que considera cemitério atração turística, têm o tango ? com todas as suas tristezas, tragédias e traições ? como sua maior expressão musical e tem um francês (Carlos Gardel) como o seu maior intérprete e ídolo, fatalmente terá uma "diferença" com o povo brasileiro, alegre por natureza e que tem no samba a sua maior expressão musical, além de possuir artistas conhecidos e admirados no mundo inteiro, como Tom Jobim.

Nota 1 ? Carlos Gardel nasceu em Toulouse, na França, em 1.890. (É verdade que Carmen Miranda nasceu em Portugal, mas essa é outra história). Nota 2 ? Estes comentários não têm intenção de criar polêmica ou melindrar quem quer que seja.

O autor é colaborador de Opinião