09 de julho de 2026
Articulistas

Para pensar no impensado

Fernando Strongren
| Tempo de leitura: 2 min

Há alguns anos fui assistir a um jogo do Bauru Basquete ainda na Luso, onde as arquibancadas paralelas e bem próximas da quadra permitiam ver quem estava sentado do outro lado do ginásio quase tão bem quanto quem estava na cadeira ao lado. Na verdade, nunca fui muito fã de ir aos jogos de basquete, não entendo o que leva parte da torcida - do esporte que for - ficar gritando ofensas para os árbitros, adversários e até para os jogadores do próprio time. Para mim, quem vai ao ginásio ou estádio quer ver um espetáculo, que sem árbitros ou adversários não tem como acontecer.

Mas o que me marcou naquela partida em especial aconteceu fora da quadra. Do outro lado do ginásio, um pai levantava de seu lugar repetidamente para ofender atletas e árbitros, tendo seus ataques de fúria repetidos automaticamente pela filha de mais ou menos sete anos que o acompanhava no programa do fim de semana. Cada vez que ele levantava e gritava, eu me perguntava qual era o exemplo que aquele pai estava dando para sua filha.

Antes do apito final, eu já tinha a minha resposta: a menina colocando-se sobre seus pés com um semblante de raiva no rosto, gritando e gesticulando em direção à quadra sem a companhia do pai, que sorria para a cena.
Provavelmente, aquela garotinha não sabia no que estava fazendo, assim como poderia não saber que estava sendo racista a gremista Patrícia Moreira e muitos outros que com ela entoaram o grito de "macaco" ao goleiro do Santos. Também foi sem pensar na homofobia que os flamenguistas chamaram os gremistas de "racistas viados" quando os times se enfrentaram no Rio de Janeiro e deixamos de notar o machismo ao pretendermos desqualificar alguém chamando suas mães de prostitutas.

É justamente esse o grande problema: nós não pensamos no que estamos fazendo. Não importa se é "no futebol", se é "jeito de falar" ou se é a "cultura do brasileiro". É o mesmo racismo que faz do jovem negro a maior vítima de homicídios no país, é a mesma homofobia/transfobia que faz do Brasil o país que mais mata homossexuais e trans no mundo e é o mesmo machismo que colocou o Brasil em sétimo na lista dos países com maior percentual de morte de mulheres. Se não cometemos tais crimes com nossas próprias mãos, são com palavras e ações que damos aval para que outras pessoas excluam, ataquem e matem negros, homossexuais, transgêneros, mulheres e índios.
Se a capacidade de raciocinar é um dos fatores que diferenciam a humanidade dos demais animais, está mais do que na hora de a colocarmos em prática e refletirmos sobre os significados e sentidos que acompanham cada uma de nossas ações e hábitos culturais e por fim a essa sociedade preconceituosa, segregacionista e violenta que construímos e perpetuamos há tanto tempo.

O autor é jornalista e filósofo