10 de julho de 2026
Geral

Rumos da educação: anos finais ainda "desafiam" o setor

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 5 min

A evolução de índices nos anos finais do Ensino Fundamental é mais difícil porque o comprometimento dos estudantes e dos pais com a escola acaba reduzido por causa de outros interesses fora do universo escolar.

A afirmação reflete a opinião da diretora regional de Ensino, Gina Sanchez, e da secretária interina da Educação Municipal, Elisabete Pereira quanto à dificuldade observada no desempenho das unidades de 6º ao 9º ano (5ª a 8ª série) no Índice de Desenvolvimento Básico da Educação de 2013.

Das 35 escolas avaliadas (30 estaduais e cinco municipais), apenas nove conseguiram atingir suas metas no Ideb deste ano. Vale lembrar que Bauru possui 51 escolas estaduais de Ensino Fundamental e o município, 16.

Dentre elas, três escolas estaduais se destacaram. Duas por conseguirem alcançar a meta de 2015 (a E.E. José Viranda, na região da Vila Falcão, com nota 5.2, e a E.E. Ernesto Monte, com índice 5.1), e uma por conseguir alcançar sua meta de 2017, a E.E. Ayrton Busch, no Jaraguá, que obteve nota 4.0. Para fins comparativos, a média total do Estado das escolas neste ciclo foi de 4.7. Em Bauru, as escolas estaduais tiveram nota 4.4. e as unidades municipais 4.8.

Queda

Por outro lado, 13 registraram queda no Ideb deste ano chegando a médias inferiores até mesmo ao obtido na primeira avaliação, ainda em 2005.

“A adaptação dos alunos aos anos finais é mais demorada. Eles não têm mais aquele vínculo do que quando criança, trabalham com mais professores e o tempo é mais fragmentado, além de terem interesses diversos, que não só a escola. E é exatamente aí que está o nosso desafio, ou seja, uma escola e uma aula que chamem mais a atenção desse estudante”, avalia Gina.

De acordo com ela, alguns projetos têm sido aplicados pelo Estado nesse sentido. “O ensino integral é uma das saídas e tem dado certo. A escola Guedes de Azevedo é o nosso projeto piloto. Também há a aposta no ensino técnico aliado com o ensino regular, que une esses interesses”, completa.

Tema recente de reportagem do JC, a violência e a droga no entorno das escolas também é um dos fatores que contribuem com a estagnação ou queda de índices em algumas unidades estaduais.

“O contexto social, de uma forma ou de outra, acaba refletindo dentro da escola. Por isso, temos trabalhado intensamente com a conscientização dos alunos da necessidade em manter-se longe do mundo das drogas”, acrescenta a representante da Diretoria Regional de Ensino (DRE). 

Município

Sobre o desempenho das escolas municipais no segundo ciclo do Fundamental, Elisabete lembra ainda que o município é responsável principalmente pela formação nos anos iniciais, ou seja do 1º ao 5º ano, mas ressalta o fato de que as escolas nos anos finais, mesmo com índice do Ideb considerado baixo, estariam acima da média nacional e que, nesta edição da avaliação, o Município superou a média total do Estado. “Estamos caminhando”, resume.


Especialistas fazem críticas ao índice

O Ideb não expressa a realidade das escolas. É uma prova que testa o desempenho do aluno, mas não revela o contexto em que a escola está inserida, muitas vezes de violência. A afirmação em questão expressa a opinião da pedagoga Eveline Ignácio da Silva Marques e reflete de forma crítica até que ponto um índice nacional pode ser usado como parâmetro de qualidade.

“Num país grande como o Brasil, esse índice é necessário, mas existe uma crítica política forte. Esse índice, na verdade acaba refletindo e pesando sobre o professor, que, inclusive, não recebe nenhuma formação para tentar mudar a realidade da escola. Serve apenas como um parâmetro e para que o Brasil consiga, através do banco mundial, investimento de fora. Afinal, o que de fato foi feito em todo esse tempo em que as análises ocorreram, porque algumas escolas não avançam?”, questiona Eveline.

Segundo ela, um dos grandes problemas quando se fala em índice nacional é que escolas com resultado negativo acabam sendo ainda mais penalizadas.

“Existem coisas boas e evoluções que os índices não mostram. Isso tudo acaba aumentando a desigualdade entre as próprias escolas da cidade”, avalia. Para ela, o Ideb é ineficiente e deveria ser feita de forma regional, avaliando outras questões, que não só o desempenho dos estudantes, mas sim aspectos sociais e econômicos do local que a cerca.

Professor da Unesp em São Paulo e pedagogo, João Cardoso Palma Filho vai além, para ele o índice é limitado e mede o desempenho dos estudantes apenas em português e matemática.

“Não dá para avaliar a educação com isso apenas. E ainda tem outro problema, se metade da sala faltar, a Prova Brasil é aplicada mesmo assim. Essas avaliações são construídas a partir de um currículo que o Estado imagina que a escola esteja trabalhando, ou seja, tudo feito em cima de expectativas. Mas os problemas reais mesmo, como a falta de professores e a lotação em sala, mesmo, nada disso é levado em consideração”, critica.

“Não dá para fazer rankeamento com um índice deste. É uma ferramenta que não corrige a desigualdade na rede e, também, não tem mostrado servir ao avanço”, fecha questão.


Como o Ideb é calculado?

Ideb foi criado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), formulado para medir a qualidade do aprendizado nacional e estabelecer metas para a melhoria do ensino.

Objetivo do índice é funcionar como um indicador que possibilita o monitoramento da qualidade da Educação pela população. É calculado a partir de dois componentes: a taxa de rendimento escolar (aprovação) e as médias de desempenho nos exames aplicados pelo Inep.

Os índices de aprovação são obtidos a partir do Censo Escolar, realizado anualmente.

As médias de desempenho utilizadas são as da Prova Brasil – que avalia língua portuguesa e matemática –, para escolas e municípios, e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), para os Estados e o País, realizados a cada dois anos.