09 de julho de 2026
Articulistas

O jogo da amarelinha

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

No livro "O jogo da amarelinha", o argentino Júlio Cortázar propõe um roteiro de leitura aos saltos - em que se pula para trás e para frente, alternando capítulos. O escritor induz o leitor a um jogo, como aquele praticado pelas crianças, que o inspirou. A campanha eleitoral é parecida com a estratégia de Cortázar, embora despida da mesma genialidade. Em ambos os casos é preciso cuidado para não ser engolido pela diabólica formulação. Assim como no romance, tudo se ergue sobre um grande vazio - aquele deixado pelo capítulo que o escritor preferiu suprimir. Na propaganda eleitoral as verdades são sempre ditas pela metade, com supressões e acréscimos.

Lula chama o presidenciável Aécio Neves de "amigo" e "companheiro", como se já estivesse remetendo o eleitor a outro capítulo, com o tucano já seu aliado no segundo turno. Aécio defende a candidata Marina Silva das críticas do PT que a comparou a Jânio Quadros e a Fernando Collor. Depois, lembra que Marina é a inimiga a ser abatida por tê-lo jogado para o terceiro lugar e volta para o capítulo anterior ao acusá-la de dizer e desdizer-se. A candidata do PSB ataca os dois rivais dizendo que o PT e o PSDB "se uniram para espalhar boatos". Dilma trata o candidato tucano como favas contadas e concentra fogo em Marina. A adversária acabará com o Bolsa Família, o Minha Casa, Minha Vida e a exploração do pré-sal. A candidata à reeleição sabe que não é bem assim. Quando ataca a proposta de Marina de garantir autonomia ao Banco Central ("vai gerar desemprego"), esquece-se que já defendeu a mesma proposta na campanha pelo primeiro mandato.

Como no livro de Cortázar, as campanhas políticas andam na contramão do tempo: os candidatos começam agindo como adultos responsáveis, dispostos a debater propostas de grande relevância e seriedade, e terminam como moleques birrentos jogando sujeira um em cima do outro. Basta assistir a um debate para perceber o jogo da amarelinha verbal. A diferença é que as crianças pulam ordenadamente e os políticos corcoveiam entre pescotapas retóricos e cascudos orais. Quando um candidato resolve falar sério, as palavras dele soam como o sermão de um vovô chato, que apareceu na área para estragar a brincadeira.

O fenômeno não é novo. A jornalista e historiadora norte-americana Jill Lepore identificou a gênese do arranca-rabo. Começou na década de 30, na Califórnia, berço dos primeiros especialistas em consultoria política. Quase 80 anos depois as estratégias continuam atuais. "Recuse a sutileza" é uma delas. "Alimente a controvérsia" é outra, seguida de "não espere que o eleitor reflita sobre as coisas" e "na dúvida, parta para o ataque". Tudo nos parece muito familiar. Os profissionais dessa guerra recebem fortunas. Houve um que confessou ter recebido do PT em dólares, depositados no exterior. Recolheu o Imposto de Renda devido e ficou tudo por isso mesmo, suprida a irregularidade fiscal. O filósofo Spinoza ensinava a alternar medo com esperança em sua retórica do convencimento. Na primeira campanha vitoriosa de Lula, o tucanato utilizou-se da atriz Regina Duarte para falar do medo que sentia com a eleição de um "despreparado". Os mentores do candidato petista responderam com a "esperança". Outro elemento, este não previsto na retórica spinoziana, é o da raiva. Marina começa a usar a rejeição de Dilma como arma. O mercado quer se vingar da presidenta pela estagnação. O setor privado reclama estar sendo "satanizado" quando Dilma critica Marina.

Vamos pular para a internet, outro capítulo. A garotada que domina a tecnologia está recebendo dinheiro de fontes anônimas para produzir peças publicitárias de alto poder corrosivo. Você já deve ter recebido mensagens desse tipo, principalmente contra o PT. É a terceirização da pancadaria. Algo como contratar estivadores parrudos para dar uma surra no desafeto.

Estava nos Estados Unidos por ocasião da última campanha presidencial e ambos os candidatos - Romney e Obama - se comprometiam com uma eleição diferente - seria uma campanha técnica, mais voltada à economia e aos problemas domésticos. My God! Num dos anúncios uma mulher dizia ser uma abortada viva. Sugeria que num possível governo Obama, não teria conseguido sobreviver. Em outro anúncio um ex-funcionário demitido responsabilizava Romney pela morte de sua mulher, por câncer. Se as estratégias não mudam é também porque o eleitor é sempre o mesmo. Quer sangue, bordoada. Prefiro o jogo da amarelinha. Mas o de Cortázar.


O autor é jornalista e articulista do JC