10 de julho de 2026
Bairros

"Ainda há quem se preocupe, ainda há quem estenda a mão"

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 3 min

Quioshi Goto

“Ajudar os vizinhos me faz bem”, conta Nilson Oliveira Silva

Apesar da correria e do individualismo que cada vez mais marcam a vida moderna, ainda é possível encontrar exemplos de gentileza e cordialidade, principalmente nos bairros, onde a “vida real” acontece.

O bairro Alto Paraíso, por exemplo, abriga um “vizinho faz tudo”, exemplar raro de vizinho das antigas, sempre pronto para ajudar os moradores do seu “pedaço”. O personagem gente boa em questão é Nilson Oliveira Silva, morador da quadra 4 da rua Moacyr Zelindo Passoni.

Um conserto aqui, um remendo ali, a troca de um chuveiro, torneira, telha, caixa d’água acolá... É a ajuda de emergência que nunca falta para os vizinhos de Nilson. “Sempre que posso eu dou uma mão. Isso me faz bem. E tem uma coisa: se quiserem me pagar, fico ofendido. Mas aceito flores”, diz, bem-humorado.

Nilson aceita flores porque seu hobby é o cultivo de plantas. Aposentado, ele lembra que o pai era assim como ele: gostava de trabalhar e de ajudar. “Para mim, o importante é cultivar a amizade. Os vizinhos batem no meu portão e eu ajudo. Também buscam temperos que eu cultivo. Simples. Isso me faz feliz”, aponta.     

 

Fotos: Isabela Ribeiro

De mãe para filha: “Minha mãe fez o jardim e eu continuo o seu trabalho; é um carinho no bairro”, diz Josefina Videlis Caetano

Gentileza com beleza

Quem passa pelo cruzamento das ruas Cuba com a Fortunato Resta, na Vila Giunta, não deixa de notar a beleza de um terreno baldio transformado em jardim. É a praça Adélia Videlis Caetano, batizada informalmente em homenagem à sua criadora.

“Minha mãe fez esta praça com as próprias mãos. Um dia, ela olhou para o terreno, arado pela prefeitura e disse: vou fazer um jardim. Isso há mais de 20 anos. Começamos a comprar mudas, pegar algumas no viveiro municipal e fomos dando forma e cores ao lugar. Ela faleceu no início do ano e eu continuo o seu trabalho, mesmo com dificuldades. Esta é uma maneira de homenagear minha mãe e fazer um carinho no bairro”, explica Josefina Videlis Caetano.

Entretanto, ela teme pela beleza da praça composta por exemplares de flores, árvores, folhagens e frutas, já que não tem quem a ajude na manutenção do espaço: “Eu queria que a prefeitura mandasse um funcionário para me ajudar ao menos uma vez por mês. Tenho artrose, sinto dores e temo pelo futuro desse trabalho. Não quero que isso tenha fim”, preocupa-se.

A praça é motivo de orgulho para Josefina, que pensa em pedir para um vereador eternizar o nome da mãe oficialmente no local. “Todos os que passam elogiam o jardim e reconhecem o bonito trabalho da minha mãe, que eu continuo regando. Isso me deixa com o coração alegre”, orgulha-se.       


Para dividir pescarias e ter com quem contar

Isabela Ribeiro

Como irmãos: há 15 anos a amizade entre José Caetano da Silva e Cícero Bernardino dos Santos é exemplo

No Núcleo Geisel, toda tarde é assim. Cícero Bernardino dos Santos, 62 anos, junta um tanto de boas histórias e muita amizade e vai até a casa de José Caetano da Silva, 75 anos, conversar e ver se o amigo precisa de alguma coisa.

E lá se vão 15 anos de amizade. “Eu vivo no bairro desde que ele foi formado, há mais de 30 anos. O Cícero veio depois, há uns 15 anos. A gente se conheceu em um boteco, bebendo e falando de pescarias e futebol, como sempre”, lembra José.

Toda tarde, essa reunião feita na calçada, sob a sombra de árvores frondosas, é sagrada, acrescenta Cícero. “Ainda pescamos juntos. E temos assunto todos os dias. É uma amizade de irmão mesmo. Sabemos que podemos confiar um no outro. Coisa que é difícil de encontrar hoje em dia”.

José perdeu a família há alguns anos e tem dificuldade de locomoção por um problema nas pernas. E afirma que o amigo o ajuda no que for preciso. Ele já chega perguntando: E aí, velho? Tudo bem? Olha isso, um velho falando do outro”, diz José, gargalhando e feliz.