No ano em que o golpe militar que instituiu uma ditadura de 21 anos no Brasil completa meio século, o Grupo Fusa apresenta nesta terça-feira (23), a partir das 20h, no auditório do Centro Cultural, um show gratuito que remete ao período conturbado e triste da história do País. A proposta é de uma apreciação musical em formato de programa de rádio, lembrando canções clássicas que desafiaram regime e denunciaram a censura, a tortura e os abusos contra a legalidade e direitos humanos. O show tem realização da Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes.
O Fusa é formado por Norba Motta no violão, Denise Amaral nos vocais e Cláudia Paixão e Wellington Leite como os radialistas. De acordo com o grupo, o intuito da apresentação é atualizar o público sobre as consequências que o golpe causou ao Brasil. “As músicas vão cantando os males e desmentindo a ideia de país do futuro, sempre embasadas historicamente. O show quer divertir e informar”, declaram os pesquisadores e produtores Cláudia Paixão e Wellington Leite, idealizadores e responsáveis pela concepção do espetáculo.
“Rediscutir esse tempo de intolerância em face a tantos exemplos de racismo, homofobia, bullying, etc., nos dias de hoje é fundamental. Especialmente para que continuemos a aprimorar nossa democracia sem que um novo período ditatorial volte a nos assombrar”, ressalta Leite.
Em uma viagem cronológica pelo período, o show tem a música como fio condutor. “Da busca pela beleza pura da Bossa Nova, passando pelo envolvimento social dos artistas da MPB e Tropicália, até os hinos de esperança cantados por nomes surgidos na década de 1970, que clamavam por um novo tempo e pela democracia no Brasil”, define o grupo.
Leite revela que a noite tem repertório de 18 músicas, muitas delas apenas referências instrumentais para que o locutor leia um pequeno texto sobre o período histórico a que a composição está relacionada. “Iremos de ‘A Garota de Ipanema’, de Tom Jobim, à ‘Verde’, de Eduardo Gudin e Costa Neto. Ou seja, da Bossa Nova até a redemocratização”, destaca o produtor.
O show terá os sucessos “Pra não Dizer que não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, “Apesar de Você”, de Chico Buarque, e “Coração de Estudante”, de Milton Nascimento e Wagner Tiso. “Mas também músicas pouco conhecidas, como ‘Tamandaré’, de Chico Buarque, a primeira canção censurada do compositor, que apenas brincava com a figura do Almirante Tamandaré estampada em uma cédula de Cruzeiro, que, por infelicidade, foi encarada como desrespeito ao patrono da Marinha”, observa Leite.
‘Equívoco criativo’
Wellington Leite destaca que existe equívoco frequente de analisar que, entre tantos males causados pela ditadura, a censura aos artistas paradoxalmente apresenta um lado positivo no sentido de ter forçado a criatividade para burlá-la e proporcionar o surgimento de obras-primas da MPB. “Muitos creem que a ditadura fez vicejar a criatividade.
Porém, especialmente após o AI-5, a ditadura tem o ‘mérito’ de destruir a educação e a cultura brasileira. Muitos dos grandes artistas, de todas as áreas, que são referência no mundo todo, perderam espaço. Basta ver que as maiores influências dos que fazem música hoje e têm espaço na mídia não têm ligação com a nossa identidade cultural”, considera o pesquisador e produtor.
Serviço
O Centro Cultural de Bauru fica na Avenida Nações Unidas, 8-9. Classificação: livre. 100 lugares. Gratuito. Informações: (14) 3235-1088