Tão logo encerrado o atual processo eleitoral e proclamados seus resultados, teremos investiduras reeleitas e investiduras novas em todo o cenário político nacional. Os cargos de presidente e vice-presidente da República, 1/3 dos cargos do Senado Federal, os cargos para deputado federal e os cargos para governador e vice-governador dos Estados e para deputados estaduais poderão ter investiduras de reeleição ou investiduras novas pela eleição de nomes novos. De uma ou outra forma as trocas, como sempre ocorre, serão expressivas e os eleitos e reeleitos merecem cumprimentos consolidando mais uma vez a sabia e prudente rotatividade republicana de poder. E isso é, sempre, muito bom ainda que se mantenha intocável pouco abaixo da linha visível de superfície o velho e detestável ranço de ancestrais distorções que marcam negativamente nossa história político-eleitoral.
Com efeito, continuarão sobrevivendo no cenário político número irracional e estratosférico de minúsculos partidos políticos, sem expressão e representatividade, frutos deformados da liberdade da criação partidária e em cada um deles persistirão os mesmos e eternos dirigentes sempre disponíveis para encaixá-los nos jogos e jogadas políticas de ocasião em balcão de negócios que amesquinha a boa prática democrática. Do mesmo modo, a representação política nacional continuará severamente distorcida pela manutenção do teto máximo de setenta deputados federais para cada unidade federativa desprezadas e sufocadas as representatividades de suas respectivas populações e estarão eleitos por eleições quase secretas em cada uma delas dois nomes praticamente desconhecidos dos eleitores como primeiro e segundo suplentes de senador eleito. Muitas - muitas mesmo - populações não terão representação originária dos territórios onde residem e trabalham, escancaradamente desviados seus votos e respectivas representações para candidaturas gulosas e oportunistas vindas de outros cantos e sem vinculações locais. E mais uma vez triunfam doações empresariais milionárias que diferenciam candidatos, distorcem resultados e tendem a comprometer o exercício dos mandatos.
Esse cenário dolorido para sonhos democráticos mais uma vez lembra mariposas desesperadas que nas noites quentes esvoaçam atraídas pela luz de candelabros de jardim e quase de modo imperceptível são substituídas sem alteração do cenário definitivamente imutável, noite a noite. Respeitosamente nossas eleições mesmo livres e limpas, conduzidas com exemplar lisura pela Justiça Eleitoral limitam-se à substituição de nomes que gravitam em torno de nosso candelabro político, integralmente preservadas centenárias e conhecidas distorções democráticas, ao gosto e feição de eternos dominadores de plantão.
Infelizmente, reforma substancial que introduzisse condições e cláusulas de barreira para sobrevivência de partidos políticos, que estabelecesse neles gestão plural e democrática, que eliminasse o artificial teto limitador da representação política, que implantasse voto e representatividade eleitoral por distritos e tornasse exclusivamente público o financiamento de campanhas eleitorais e que acabasse com eleições semi-secretas para suplentes de Senador não foi tema de campanha e de propostas eleitorais de descompromissados marqueteiros. Remota, assim e por isso, a esperança de qualquer mudança fundamental, mantida uma vez mais a esperteza de Don Fabrizio Corbera, príncipe da Casa Salina, Sicília (G.T. Lampedusa, "ll Gattopardo"), quando insistiu que as coisas precisam mudar para que continuem as mesmas. Até quando, afinal?
O autor é advogado e articulista do JC