09 de julho de 2026
Articulistas

Dilma e seu vestido vermelho

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Auma semana da eleição, Dilma ampliou para 13 pontos a vantagem sobre Marina Silva, sua principal adversária. Nem é preciso ser analista político para perceber que os efeitos da propaganda do medo produziram os resultados esperados pelos marqueteiros do PT. Foi a mesma estratégia usada pelo PSDB há 12 anos, contra Lula. As campanhas eleitorais não trabalham com realidades, mas com símbolos, emoções e o imaginário coletivo. "Se as versões não correspondem aos fatos, danem-se os fatos", disse uma vez João Santana, criador da propaganda petista. É por aí...

Política não tem entranhas. É pauleira o tempo todo, quando os adversários ameaçam. Caso contrário, "lulinha paz e amor". Marina, sob o fogo cruzado de Dilma e de Aécio não poderia mesmo ter resistido muito tempo. Conseguiram mostrar a inconsistência do programa de governo e da capacidade de governabilidade da candidata do PSB. Como se assim não fossem todos os programas - meras visagens para persuadir o eleitor. Marina foi beneficiada pela comoção com a morte de Eduardo Campos mas, sofreu uma queda brusca logo que começou a ser questionada por seus adversários. Dilma tem 12 minutos de exposição na televisão; Aécio a metade desse tempo e, Marina, dois minutos. Tempo apenas para dizer que sabe o que é passar fome. Lá no Acre - conta a candidata - sua mãe dava aos filhos a farofa feita com um ovo, um pouco de farinha e alguns pedaços de cebola. "Quem vive essa experiência nunca vai acabar com o Bolsa Família. Não é discurso. É uma vida". De nada adiantou. No Nordeste, onde se situa o principal contingente do Bolsa Família, Marina perdeu seis por cento dos votos em uma semana. E ainda foi acusada pela candidata do PT de explorar o "coitadismo". "Coitadinha não pode governar o país". No Nordeste está o eleitorado que mais se sensibiliza com o discurso do medo. É uma campanha discutível do ponto de vista ético, mas conseguiu atingir seu objetivo. Já há quem defenda que deveriam ser proibidos de votar os que recebem Bolsa Família, para não se tornarem eleitores cativos do PT. Quem sabe, transformar voto em comida seja um ato de necessidade. Se só assim os miseráveis deste país podem sobreviver, que se futriquem os políticos.

Dilma vencer no primeiro turno já não seria grande surpresa, segundo alguns entendidos. Historicamente, quem vence o primeiro turno, normalmente ganha a eleição no segundo. Nessa rodada haverá igualdade de tempo de TV no horário eleitoral. O PT tem mais o que mostrar e não falta dinheiro para grandes produções. Seria difícil mudar o cenário de desvantagem de Marina. Mesmo porque, o poder oferece privilégios incontáveis para uma candidata à reeleição. Dilma deu-se ao luxo de fazer uso eleitoreiro até da tribuna da Assembleia Geral da ONU. De vestido vermelho, por orientação dos marqueteiros, manguinha três quartos, a presidente fez prestação de contas do governo e dos oito demais anos do PT no Planalto. Sem interesse para os diplomatas dos países representados. Ainda bem que não deram bola para a sua desastrada crítica à ação militar da coalizão liderada pelos americanos, contra o Estado Islâmico, grupo radical, sectário e violento que sequer a Al-Qaeda quis acobertar. O grupo dos jihadistas ficou conhecido por degolar jornalistas ocidentais diante das câmeras. Agora também um turista francês foi decapitado. As imagens na internet servem como peças de propaganda do fanático bando armado.

Aqui no Estado, o governador Geraldo Alckmin nada num mar de rosas. Deve vencer no primeiro turno. É o carismático sem carisma. Conseguiu dar sabor ao chuchu. Alckmin vem do árabe alkmya, nome dado aos que procuravam não só transformar metais não nobres em ouro, mas também achar a pedra filosofal, a essência do bem-viver. Para o profeta Isaias, que viveu em 765 a.C., a esperança dos povos está num poder maior, o de Javeh: "Todo o vale será exaltado, e todo monte e todo outeiro será abatido; e o que é torcido se endireitará, e o que é áspero se aplainará" (40:4). Quem sabe seja melhor ajudar Isaias nessa missão, escolhendo bem em quem votar.

O autor é jornalista e articulista do JC