08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Munir Sayed

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 7 min

João Rosan

Chefe do cartório da 23ª Zona Eleitoral, Munir Sayed veio de São Paulo para trabalhar em Bauru há nove anos

Poucas pessoas são tão requisitadas em Bauru no período eleitoral quanto ele. Chefe do cartório da 23ª Zona Eleitoral, Munir Sayed veio de São Paulo para trabalhar em Bauru há nove anos, e acabou escolhendo a cidade para morar e fazer carreira dentro do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Estado de São Paulo.

Com especialização em Direito Eleitoral, Sayed responde desde o final de 2008 pelo cartório que tem a maior demanda na cidade, por se tratar da zona eleitoral com mais eleitores e também a mais antiga de Bauru. É lá, por exemplo, que são feitos os registros de candidaturas em eleições municipais. Em pleitos como o do próximo domingo, os registros e boa parte da fiscalização ficam a cargo do TRE, porém, o volume de trabalho aumenta também por aqui.

 

Jornal da Cidade - Como você entrou para a área eleitoral e chegou até Bauru?

Munir Sayed - Eu prestei o concurso para o Tribunal Regional Eleitoral em 2001, como forma de entrar para o serviço público. Era uma oportunidade boa. Eu só fui chamado no meio de 2005, foi quando abriram as vagas aqui para o Interior, pois antes estavam abrindo somente vagas para a Grande São Paulo. Eu entrei como técnico judiciário na época, e em 2005 chegou uma carta em casa convocando para assumir a vaga, pois o concurso ainda estava em vigência. Como não havia mais vagas em São Paulo, escolhi Bauru por ser uma cidade com estrutura já consolidada, por ser uma cidade de maior porte.

 

JC - Então, a sua primeira eleição no cartório na verdade foi o referendo das armas, em outubro de 2005?

Sayed - É até curioso, porque o meu primeiro dia de trabalho na 23.ª Zona Eleitoral foi justamente o domingo do referendo. Fui chamado na sexta-feira e no domingo já trabalhei. Acho que o mais inusitado até hoje trabalhando em eleições foi justamente isso, ser chamado para começar logo no dia da votação. O pessoal do Tribunal ligou para o cartório para saber se havia a necessidade de já começar naquele dia, e na época o chefe era o José Carlos (Colhado, que ocupou o cargo até 2008). Cheguei e já estava a correria de montagem de urna, preparação de escolas e o José Carlos falou que já poderia vir. Eu não tinha muita noção de algumas coisas, mas ele falou para o Tribunal que quanto mais gente melhor. Isso era na sexta-feira, a dois dias da votação, e eu estava em São Paulo. Vim para cá e comecei no domingo do referendo mesmo. Eu brinco até hoje que, já que o chefe mandou, tem que ir (risos). Na época eu tinha a intenção de voltar pra São Paulo, mas acabei me estabelecendo em Bauru e hoje gosto de morar aqui.

 

JC - Aliás, esse é sempre um ponto complicado para quem vem de São Paulo para o Interior, a adaptação. Para você foi tranquilo?

Sayed - No começo, até se acostumar ao ritmo mais tranquilo do Interior, era difícil. Eu, que sempre tinha morado em São Paulo, estava acostumado com um ritmo de vida agitado. Para fazer qualquer coisa na Capital você precisa reservar duas horas para o trajeto, para sair de casa e chegar ao local. Aqui é tudo muito rápido, o deslocamento é mais fácil. Quando cheguei em Bauru eu não tinha carro e morava no Centro. Quando ia ao shopping, por exemplo (referindo-se ao Bauru Shopping, que era o único na época), eu pegava um ônibus no Centro e em 15 minutos já estava lá. Achava até estranho, porque em São Paulo demorava muito mais para ir a qualquer lugar. Agora eu já vivo a situação contrária, eu não gosto da correria e do trânsito em São Paulo, a demora pra ir de um lugar ao outro. Bauru tem essa vantagem.

 

JC - São nove anos em Bauru, e nesse período você trabalhou em duas eleições municipais (2008 e 2012) e duas presidenciais e para governador (2006 e 2010), indo para mais uma neste ano. O volume de serviço é muito diferente para o cartório nesses dois tipos de pleito?

Sayed - Aqui no Interior, há uma diferença muito grande entre as eleições municipais e nas eleições para presidente. Nos cartórios da Capital, já não muda muito entre um pleito e outro. No nosso caso, por exemplo, ficamos responsáveis pelos registros de todas as candidaturas nas eleições municipais, tanto para prefeito quanto para vereador, tudo de Bauru é concentrado na 23.ª Zona Eleitoral. As outras duas zonas eleitorais da cidade (300.ª e 387.ª) ajudam na fiscalização das propagandas, e a 300.ª ainda responde pelos municípios de Avaí e Arealva. Nas capitais há um apoio maior do Tribunal, até mesmo com mão de obra, ao contrário do Interior, onde o serviço fica restrito ao pessoal dos cartórios. A partir dos registros de candidatura, o volume aumenta bastante no nosso cartório, e após o período eleitoral há a prestação de contas dos candidatos, com prazo bem definido, até dezembro, antes do recesso forense, e a diplomação dos eleitos. Isso tudo nos casos de eleições municipais.

 

JC - Quantas pessoas trabalham diretamente no cartório da 23.ª Zona Eleitoral?

Sayed - Do Tribunal são três pessoas. Eu, o José Carlos (técnico) e o Luciano Olavo da Silva (analista judiciário). E temos nove pessoas requisitadas, que são cedidas pela prefeitura, para dar apoio ao trabalho, independente de ser época eleitoral ou não.

 

JC - Pelo histórico dos últimos anos, podemos esperar eleições tranquilas?

Sayed - Em comparação a outras cidades, Bauru costuma ter poucos problemas nas eleições. A gente tenta sempre manter contato com os partidos, ministramos palestras, tudo com o intuito de ter uma eleição sem sobressaltos. Estamos sempre à disposição para tirar as dúvidas, até para que a legislação possa ser cumprida.

 

JC - Inegavelmente, o dia do primeiro turno é o que gera mais tensão, correto?

Sayed - Na verdade são muitas variáveis, até para que possamos chegar ao dia da eleição com uma situação mais tranquila. Mas temos que nos preparar para qualquer adversidade para o dia das eleições, e contamos sempre com o apoio do Tribunal Regional e também procuramos observar as situações peculiares de cada local. Só na nossa zona eleitoral serão 1.700 mesários trabalhando no dia 5 de outubro, para um eleitorado de mais de 100 mil pessoas. O treinamento dos mesários já foi concluído, envolvendo todas as funções, incluindo as mesas de justificativa. Já as urnas estão passando pelo processo de carga e lacração.

 

JC - No Brasil sempre fala-se em reforma eleitoral, com o objetivo de unificar os pleitos e evitar eleições a cada dois anos. Isso realmente reduziria custos ou não há um peso tão grande?

Sayed - As eleições não são baratas, até por envolver uma grande demanda de tecnologia e um número alto de pessoas. A mudança do tipo de escolha, para o sistema hoje adotado, não teria muitas alterações no que diz respeito ao gasto. Continuaria sendo adotada a urna eletrônica, que foi um avanço, pois evita a contagem manual, no papel. A urna eletrônica continuaria sendo usada, até porque isso trouxe uma evolução muito grande na apuração.

 

JC - Para você, o Brasil realmente está entre os melhores países do mundo no que diz respeito às tecnologias na eleição?

Sayed - Quanto a essa parte de apuração, sem dúvida. O Brasil está entre os melhores, pois se considerarmos que a eleição termina no domingo às 17h e no final da noite ou no máximo na segunda-feira já temos todos os resultados, quem foi eleito para cada cargo, isso é algo em que estamos avançados. Claro que em uma eleição nacional temos algumas dificuldades de transporte, por exemplo, como na Amazônia, há ainda o fuso horário, e mesmo assim a apuração é bastante rápida. Aqui em Bauru costumamos concluir a transferência de dados em cerca de duas horas, e a expectativa é a mesma neste ano. Se não houver nenhum imprevisto, os dados de Bauru devem estar concluídos por volta das 20h. Mas claro que o resultado final depende das totalizações do TRE, e no caso da votação para presidente, da totalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

 

JC - O trabalho de vocês se torna estressante nesta época. O que você tem como hobby?

Sayed - Na verdade essa é uma época em que a gente não tem tempo para quase nada, minha família já sabe que vou chegar tarde em casa, porque o volume de serviço aumenta mesmo. Passando as eleições melhora. Eu gosto de nadar, acho importante fazer um exercício físico, até por conta do ritmo de vida que a gente leva. É importante não descuidar da saúde.