08 de julho de 2026
Geral

Greve vira desafio para os clientes

Marcus Liborio e Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Adriana Aparecida Pinto de Moura Fragnan é pensionista e entrou em desespero quando ficou sabendo da greve que já fechou 47 agências bancárias das 72 existentes em Bauru. Com um extrato salarial nas mãos, ela tentava entender um desconto no pagamento, pois, dos R$ 892,98 que recebe, havia sobrado só R$ 108,90. “Tem seis descontos de R$ 131,05 e não faço ideia do que se trata. Como vou fazer para alimentar meus cinco netos?”, questionou.


Ela estava em uma agência na quadra 3 da rua Ezequiel Ramos. “Não sei o que faço”, lamentou. Um funcionário que orientava os clientes no setor de caixas eletrônicos disse que a pensionista não seria atendida. Alguns minutos depois, contudo, ela recebeu atendimento e foi constatado que não houve descontos. “Foi erro de digitação”, disse outra funcionária do banco.


Trata-se de um desafio que Adriana e muitos outros clientes terão que enfrentar nos próximos dias. Em um estabelecimento localizado na quadra 18 da avenida Rodrigues Alves alguns clientes foram surpreendidos com a paralisação. O motorista Aguinaldo Paixão não sabia da greve e precisava de um serviço de cartão bancário. “Não sei o que faço e nem para onde ir agora”, desabafa.


O auxiliar administrativo Rodrigo Cabello da Silva passou pela mesma situação quando chegou em uma agência na quadra 7 da rua Gustavo Maciel.


Ele trabalha em um escritório de advocacia e precisa recolher as taxas que são cobradas nos processos dentro das agências. “Muitos boletos não têm código de barras, fato que impede o pagamento nos terminais de autoatendimento”, destaca Silva. O auxiliar administrativo acrescenta ainda que vai procurar maneiras alternativas para não ser prejudicado, como efetuar o serviço pela Internet ou em casas lotéricas.


Greve


Os bancários reivindicam reajuste de 35%, percentual que contemplaria a inflação do período, perdas salariais históricas e mais 10,5% relativos à média da produtividade dos maiores bancos do País nos últimos 12 meses. Já os sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores (CUT) querem um valor diferente: reajuste de 12,5%.


No último sábado, as instituições financeiras propuseram aumento de 7,35%, o que foi rejeitado e a greve, deflagrada pelo Brasil (leia mais na página 23).


Os grevistas reivindicam ainda Participação nos Lucros ou Resultados (PLR) linear, ou seja, que 25% do lucro líquido de cada banco seja rateado entre os funcionários. A entidade luta, ainda, para que todos os benefícios, como vales-alimentação, refeição e auxílio-creche, sejam corrigidos em 35%. 


A categoria também pede isonomia nos bancos públicos, contratação de mais bancários, fim do assédio moral para o cumprimento de metas de produção e estabilidade no emprego para funcionários de bancos privados. Vale lembrar que, no ano passado, a paralisação dos bancários levou 23 dias para ser encerrada.

Mais duas

Ontem, mais duas agências aderiram à greve em Bauru, sendo 47 estabelecimentos fechados até o momento, o que corresponde a 67%. Das outras cidades de médio porte que integram a base do sindicato, os destaques são Avaré e Piraju, onde, respectivamente, 100% e 85% das agências ficaram fechadas. “A gente acredita que possa haver alguma negociação ainda nesta semana, antes das eleições”, argumenta Paulo Tonon, diretor do Sindicato dos Bancários.

E agora?

Em uma agência na quadra 5 da rua Rubens Pagani, próximo à praça Portugal, um empresário lamentava os prejuízos. “Tenho 35 funcionários para pagar e eles não possuem contas bancárias, ou seja, tem que ser no dinheiro. E só posso sacar até R$ 750,00 por dia”, critica. “Eles vão acabar atrasando as contas”, acrescenta.

O empresário, que preferiu não se identificar por temer riscos de assalto , disse que não é contra a greve, mas, sim, contra a paralisação total.

Procon: prejudicados podem entrar na Justiça

Os consumidores que se sentirem prejudicados de alguma forma com a ausência de alguns serviços prestados pelas agências bancárias que aderiram à greve têm o direito de exigir reparação na Justiça. É o que orienta a coordenadora do Núcleo Regional da Fundação Procon em Bauru, Valéria Cunha.


Questionada sobre a possibilidade de aumento do prazo de vencimento para o pagamento de algumas contas diante da greve, a coordenadora informa que os consumidores têm de honrar com as despesas na data. “Uma vez que as pessoas estão inadimplentes, elas estão sujeitas a perder os seus direitos”, justifica Valéria.


Ela pontua que, como nem todas as agências estão fechadas, o prejuízo é minimizado. “Um pensionista que não conseguiu receber o dinheiro e deixou de pagar as contas em dia, por exemplo, pode entrar com uma ação contra o banco”, diz.


Os bancos têm responsabilidade de ressarcir os consumidores sempre que houver danos comprovados. Contudo, a coordenadora revela que recorrer à Justiça é atípico, já que existem soluções alternativas para o problema. “Os clientes têm terminais de autoatendimento, correspondentes bancários, Internet e casas lotéricas”, destaca Valéria Cunha.


Ela aconselha ainda que os idosos tenham a atenção redobrada, já que muitos não conseguem manusear os terminais de autoatendimento e acabam pedindo ajuda para desconhecidos. “O recomendado é pedir que algum parente ou conhecido os acompanhe”, finaliza.

Se ainda restou alguma dúvida sobre direitos diante da greve nos bancos, basta acessar o site https://www.procon.sp.gov.br ou entrar em contato com o Procon de Bauru por meio do telefone (14) 3366-6050. O órgão fica no Poupatempo, localizado na avenida Nações Unidas, 4-44, e funciona de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h, além dos sábados, entre 8h e 13h.