08 de julho de 2026
Articulistas

Num domingo de primavera

J.F. da Silva Lopes
| Tempo de leitura: 3 min

Domingo de eleição é dia de festa. Mas festa fora de padrão e diferente, com hora certa para começar e para ter fim. Os cidadãos eleitores antes de convidados são convocados, não há barulheira nem excesso de euforia, o álcool festivo facilitador de descontração é proibido e as filas são assumidas com respeitosa tolerância. Os trajes são discretos, sem pompa e circunstância, toleradas bermudas, chinelas e camisetas, desde que não tenham referência a candidatos ou partidos. As animadas boca de urna para propaganda de última hora estão implacavelmente proibidas, recomendando-se que não se esparramem nos pontos de votação santinhos derrapantes que podem gerar tombos indesejáveis, até mortais, como já ocorreu. Domingo diferente e meio chato, sem futebol, sem churrasquinho, sem cervejinha e sem som animado de festança. Num domingo tão silencioso, ordeiro e desanimado os cidadãos eleitores se encontram nos pontos de votação, matam recíprocas saudades e trocam notícias pessoais e, ainda e por fim, através de opções por nomes, manifestam no sigilo de cada voto secreto a vontade republicana de mudança ou de preservação de situação política regional e nacional.

Nesse domingo até meio chato os cidadãos eleitores desfrutam de raro e importante momento de liberdade e responsabilidade, totais. Escolhem os candidatos que desejam escolher e levam pronta "colinha" com os cinco números dos cargos que estão em disputa: deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente. Poucos percebem que, além deles, estarão automaticamente escolhendo vice-presidente, que permaneceu mudo na campanha e, ainda, dois desconhecidos suplentes de senador, cujos nomes nem sabem e que ganham investidura sem um único voto, numa espúria e lastimável aberração que se agrega ao voto senatorial. O sigilo do voto garante o eleitor, impede coação, frustra venda ou compra e qualquer outra fraude e bloqueia futura benesse, retaliação ou perseguição.

Terminada a votação, o cidadão eleitor exerceu compromisso cívico e, de alma lavada e dever cumprido, volta à rua rotina de vida. E pode aproveitar para alguma atividade mais descontraída o restinho do domingo, já entregue para representantes eleitos as missões de governo para os próximos quatro anos. Não há com que se preocupar porque escolheu os melhores. Ou, então, porque não escolheu os vitoriosos, são aqueles que os escolheram que devem se lascar pelos acertos, erros e conseqüências de suas próprias escolhas. Almas lavadas não têm muito a temer.

Nesse mesmo domingo meio chato os cidadãos candidatos, todos eles merecedores de agradecimento por submeterem seus nomes à escolha da nação, passam por momentos de ansiedade e tensão ainda mais agudos e delicados do que a própria campanha, porque nada mais têm por fazer a não ser aguardar os também tensos momentos de apuração. Ainda bem que a segurança e velocidade das urnas eletrônicas abreviam o sofrimento e antecipam as decepções das derrotas ou a euforia das vitórias. Enquanto a vida nacional reengata sua marcha remanescem milhares de questões pendentes e milhares de expectativas futuras que terão que ser enfrentadas e superadas pelo esforço dos vitoriosos.

Estes devem enxergar em cada voto recebido a carga de pesado compromisso celebrado com cada eleitor que, num domingo meio chato de primavera, protegido pela segurança do sigilo do voto, entregou honrosa representação política que não pode e nem deve ser conspurcada durante os mandatos. Faz parte do pacto político que o eleitor que foi às urnas não merece ser traído pelos seus representantes. A safadeza de quebrar esse pacto sagrado que brota das urnas é tão seria e grave que os transgressores deveriam merecer sanções satânicas e muito próximas das penas do inferno, onde Mateus evangelista anunciou haver choro e ranger de dentes. No mínimo.

O autor é advogado e articulista do JC.