09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Eulália Serpa

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

A quase septuagenária Eulália Serpa está curtindo os elogios recebidos desde que há poucos dias (foi no último dia 23 de setembro) venceu o concurso Miss São Paulo Melhor Idade. Isso equivale dizer que ela é a idosa mais bonita do Estado. Nada mau para quem a vida toda se achou o patinho feio da família.

Ela garante que nunca se destacou pela beleza. “Eu me achava muito feia mesmo”.  É a terceira filha (de uma família de seis filhos)nascida após duas irmãs. O pai queria ter um filho homem e acabou tendo dois após ela e mais uma irmã. “Meus irmãos sim eram todos muito bonitos, eu não, nunca tive nada de especial”.  Aqui Eulália conta como a beleza aflorou depois dos 60 anos,  exibe formas de jovenzinha e, uma cabeça excelente com opiniões fortes e bons exemplos para dar. O que sempre fez nos mais de 30 anos como professora. Fala sobre beleza original, “nunca fiz uma plástica” e garante que o que vale é “o sorriso no rosto que estampa o interior”.

Jornal da Cidade -  Quem foi a Eulália criança?

Eulália - Minha infância em Bauru começou aos cinco anos, quando meu pai que era caixeiro viajante veio para cá. Criada de forma rigorosa. Estudei no Guedes de Azevedo, no São José e no Liceu Noroeste. Vim e fiquei. Adoro Bauru. Casei-me aqui em 71. Como nasci em 1945 ano do final da Segunda Guerra Mundial eu brinco que eu vim trazendo a paz, sou uma mulher de paz.

JC - Você e suas irmãs brincavam de ser miss?

Eulália - Nunca, nunca mesmo. Nem era o caso, eu era o patinho feio.  E magra demais, casei com 49 quilos. Brincávamos de outras coisas e meu  sonho era fazer faculdade. Infelizmente não deu, mas  dei para meus filhos. Tem o Serpa (Fabiano) que é militar, o Leandro consultor  e analista,  e a Heloiza, instrumentadora cirúrgica, auditora. Eles são testemunhas de que nunca quis ser miss. Minha vida era eles,  meu marido e as outras crianças, das escolas onde fui professora. 

JC - Você dá muita importância à educação.

Eulália - Tem a ver com a minha profissão, mais de 30 anos no magistério. Educação é tudo. A minha foi rígida. Na época sofríamos bastante, queríamos liberdade e hoje valorizamos o que tivemos. Sou do tempo das tias. As professoras mais novas  não valorizam o termo tia. Sou tia com muito orgulho. Além disso, sou  do olho nos olho.  Sempre resolvíamos os problemas dentro de sala de aula, não expunha ninguém ao ridículo. O que falava como professora  os alunos acatavam. E eu entrava na roda de capoeira, jogava futebol com eles.

JC – Você viveu uma história de amor?

Eulália - Casei aos 26 anos e meu marido tinha 28. Foi após dois anos e meio de namoro. Vivi sim uma história de amor. Trabalhávamos na mesma empresa (a Sanbra, algodoeira famosa na época). E ele, Evandro Serpa, era meu chefe, era o chefe da cobrança e eu trabalhava no cadastro. Na hora do cafezinho batia o famoso olhar. Foram 37 anos de muito amor.  Estou viúva há nove.

JC - E como se interessou pelos desfiles?

Eulália - Aprendi a desfilar,  na verdade, acompanhando a filha e neta (com quem mora atualmente).  Eu as levava a cursos. Sempre fui observadora. Depois da viuvez eu comecei a ir sair da casca, e, ano passado, passei a frequentar a Associação dos Aposentados.  Comecei a fazer dança com o professor Marcelo Ribamar - ele é fantástico! Foi quem me obrigou a desfilar para cobrir a lacuna de uma representante que desistiu. Tive só uma semana de preparação.

JC- E a família como recebeu esse lado?

Eulália - Os meus filhos e netos deram todo o apoio possível. Não foram junto comigo em tudo, porque os concursos em geral são realizados de dia, e todos trabalham. Mas todos vibram muito comigo. Quando souberam que eu iria concorrer ao estadual ficaram muito felizes.

JC - E em São Paulo? Teve torcida?

Eulália - Foi demais. Foram 35 pessoas da Associação para torcer por mim. O ônibus lotou. Havia parentes, amigos, e gente da secretaria da Cultura, Planejamento e da Sebes.   A sebes foi em peso, que lindas. Claro que a torcida de Bauru não era das maiores: a das cidades próximas de São Paulo eram muito maiores.

JC - E a emoção da escolha?

Eulália - Chegar lá já estava ótimo, vencer, então...Foi demais. Pela satisfação de estar representando Bauru, toda uma comunidade. Hoje vejo que muitos  procuram se espelhar em mim, tive um incentivo muito forte, aumentou a responsabilidade em muito, aonde vou recebo abraços, sorrisos e retribuo com muito incentivo e alegria de viver.

JC - O que mudou na vida?

Eulália -Vencer foi bom, me sinto bem, sou vaidosa e me vejo na obrigação de acordar assim como estou, arrumadinha (risos). Além disso, meus laços sociais estão lindos, aumentou o número de amigos de todas as idades, crianças inclusive, isso está sendo muito bom. Aumentou a autoestima, nunca gostei de ser desleixada, minha mãe mandava todo mundo para o banheiro a educação foi rígida e hoje a gente agradece. Ah sem contar que a final em São Paulo me proporcionou um encontro histórico, estavam lá minhas outras irmãs, a Célia, a Elvira mais velhas e a Maria Angela, a caçulinha de todos.

JC - E o segredo dessa beleza?

Eulália - Engordar um pouco ajudou (risos). Mas usando o lugar-comum, é a beleza interior, tenho um bom sorriso que é o complemento da alegria de viver, de servir. Faço exercícios físicos, gosto da zumba, gosto de caminhar, mas não gosto de academia, já tentei mil vezes, não dá. Então me exercito na dança. E faço todo o serviço da casa. Isso também ajuda, né?

Jornal da Cidade - Um desafio a vencer?

Eulália - Parar de fumar, é a única coisa que me denigre,  tenho vergonha, não gosto do cheiro, mas é complicado é minha bengala, tento controlar bem(Nota da redação:  em três horas de conversa não parou para fumar)

JC - Cuidados com a beleza?

Eulália - Uso creme desde menina, os mais simples de antes do Nívea, o Diadermina, o Rugol que acabou sendo patrocinador do concurso e eu  fiquei feliz da vida (risos). Mamãe (Maria biazoto de Almeida), falava “não fica sem creme, cuida da pele, quem não se enfeita, por si se rejeita.

JC – Uma dica para quem quer ser bela

Eulália - Se cuidar, higiene em primeiro lugar, da cabeça aos pés, língua, tudo e exercícios físicos. Eu como de tudo, mas queimo bastante, pode comer o que quiser, precisa queimar.

JC- Conselhos para a vida

Eulália - Eu amo as pessoas, faço tudo o que eu posso para vê-las felizes, isso me traz paz, felicidade muito grande. Acho que ser bonita é isso.  Outra frase da minha mãe,  a sábia, ‘...quem não vive para servir, não serve para viver’.

JC - Hoje é dia de votar como vê a política

Eulália - Meu pai, Ângelo Nunes de Almeida, o Almeidinha da Engenhoca (marca de uma caninha) era muito chegado à política. Eu não. Mas é muito importante, o problema são os políticos... existem bons políticos, homens de quem precisamos, mas não entendo porque chega lá (eleito)  sofre tanta pressão e muda tudo. Parece que há uma coação, algo a que eles não resistem, há uma força puxando para o outro lado...

Perfil

Nome: Eulália Nunes de Almeida Serpa

Idade: 69 anos

Local de Nascimento: Vera Cruz, SP

Marido: Evandro Serpa (falecido)

Família: 3 filhos:  Fabiano (42 anos), Leandro (39) e Heloiza (34). E  4 netos:  Gabriela (18 anos), Ariel(16),  Luna (8) e João Vítor (4)

Hobbies: ler, arte em mosaico com espelhos, dançar, internet

Livros de cabeceira: preces espíritas, O Evangelho segundo o Espiritismo, obras de Chico Xavier

Estilo musical:  um pouco de tudo, clássico, orquestradas e rock

Time: seleção brasileira

Para quem dá nota 10:  para todos os policiais que arriscam as próprias vidas em defesa da integridade física e moral das pessoas

Para quem dá nota 0: para a Constituição brasileira que não acompanhou a evolução, privilegiando a marginalidade