08 de julho de 2026
Articulistas

Ditos e malditos

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

"Nem que a vaca tussa" o brasileiro pode esperar algum tipo de mudança - para melhor - com os resultados das eleições de hoje. Sejam eles quais forem. Valho-me da expressão utilizada pela candidata à reeleição Dilma Rousseff quando ela quis dizer que não mudaria de jeito nenhum a legislação trabalhista. A declaração da presidente transformou-se em objeto de análise de dezenas de especialistas. Muito mais pela exegese do dito popular. Ficou de fora da discussão a necessidade inconteste da diminuição do chamado "custo Brasil", da desoneração das folhas salariais para ajudar o País a voltar a crescer. "A vaca baba porque não sabe tossir" - explicou um hermeneuta. Outro acrescentou que a frase completa é "nem que a vaca tussa e o boi espirre".


Liguei para o meu amigo José de Oliveira Pinto, professor de veterinária na Universidade Federal de Viçosa, para ter certeza plena das convicções da candidata petista. O Zé Pinto é autor de alguns verbetes do Guia dos Curiosos. Finalmente, a luz! O provérbio não é verdadeiro. "Como os humanos, os bovinos tossem toda vez que a traqueia passa por um processo irritativo". Ah, bom. Bem, na semana passada Dilma anunciou em ato público que era chegada "a hora da onça beber água". Essa tem consistência. Já vi onça bebendo água no rio, sem dar a mínima para os barcos de pescadores ou demonstrar receio de algum predador. A explicação recorrente é a que se traduz como o momento de mostrar de quem é a força. E o PT, tem.

A oposição também tem, os seus momentos hiperbólicos. A candidata Marina morena garante que "A cobra vai fumar". Quem nasceu na selva amazônica deve saber do que está falando. Sou produto do pós-guerra e cresci ouvindo essa frase. Na minha inocência de criança acreditei que cobra era viciada em Fulgor, a marca de cigarros preferida do meu tio. Só uns vinte anos mais tarde fui saber de onde surgiu a advertência: numa declaração publicada no Times de Harry Truman. O presidente norte-americano alfinetava ser mais fácil uma cobra fumar do que um país desenvolvido participar da guerra na Europa. O Brasil mandou sua Força Expedicionária (FEB) para a Itália e botou os boches para correr. A cobra fumou. Passou a ser divisa, distintivo na farda verde-oliva e nos aviões de caça.

Eleição é cultura (de almanaque). Velhos clichês apenas demonstram o grau de infantilização de uma disputa política que é da maior importância para a vida nacional. Envolve 142 milhões de eleitores, 25 mil candidatos e mais de 1.500 cargos em disputa. Deveria ser, ou melhor, é, uma festa democrática sem precedentes em termos mundiais. Fiquei até a madrugada assistindo ao debate dos candidatos. A presidente falou de capacidade. Alécio, de honestidade. Marina, de mudança. Cada um procurou um rótulo à sua personagem, um atributo à sua estratégia. O debate é engessado por tantas regras que ninguém tem tempo para contextualizar coisa nenhuma. Na propaganda eleitoral, a estratégia do medo associada a um futuro esperançoso é a prova da americanização da campanha. Começou com Fernando Henrique Cardoso, quando trouxe um conselheiro eleitoral de Bill Clinton para ajudar na sua eleição. Agora virou moda. Os candidatos falam pela cabeça dos marketeiros. Os João Santana fazem fortuna porque os postulantes a cargos de alta significação, como a Presidência da República, não têm programas e precisam de alguém que os invente. Ruim para a democracia.

O debate envereda pela caricatura quando se discute sobre a utilidade do "aparelho excretor". Segundo o candidato Levi Fidelix, não serve à concepção. Esquece-se que não é este o eixo da discussão nacional, no momento, e sim do uso recreativo do tal aparelho excretor. Se não gera seres vivos, faz nascerem laços de amor e ternura, também importantes. Sou obrigado, mais uma vez, a apelar para Nietszche: "Tudo tem a ver com o sexo. Menos o sexo. Sexo tem a ver com o poder". Esse tal Fidelix, pelo jeito não é nada fiel. Desde 1986 já transitou pelo PL, PTR, concorreu à Prefeitura de São Paulo, a governador, a deputado federal (duas vezes), a presidente (2010) e agora fundou o PRTB (Partido da Renovação Trabalhista Brasileiro). Esse nanico tem uma pauta diferenciada. Promete trem suspenso em todas as capitais - o aerotrem. Modestamente, admite que não ganha a eleição porque os três que estão pontuando foram escolhidos pela grande mídia e o capital. Mas promete voltar. O partido, que é só dele, recebe R$ 1 milhão do Fundo e Participação Partidária, todo ano. Sai do nosso bolso. Como tudo o mais. Com certeza, ele volta.

O autor é jornalista e articulista do JC