09 de julho de 2026
Articulistas

Uma crítica esquecida

Fernando Strongren
| Tempo de leitura: 2 min

Chegando ao fim de mais um ciclo de campanha eleitoral, tradicionalmente também encerramos mais uma fase de críticas ao sistema político-eleitoral brasileiro. Assuntos como reforma política, horário eleitoral gratuito, voto distrital, financiamento público de campanha, fragilidade das urnas eletrônicas e tantos outros pontos devem acabar guardados pelos políticos (eleitos ou não) naquele cofre que só é aberto de quatro em quatro anos, afinal não é interesse deles e de seus partidos mexerem em um jogo onde eles estão ganhando. Por isso, antes de encerrar esse período gostaria de relembrar uma crítica que, mesmo centenária, praticamente foi apagada do debate político em todo mundo.

Em 1885, no artigo "Por que anarquistas não votam?", o geógrafo e anarquista francês Élisée Reclus escreveu sobre a eleição: "É tão tolo quanto acreditar que os homens comuns como nós, sejam capazes, de uma hora para outra, num piscar de olhos, de adquirir todo o conhecimento e a compreensão a respeito de tudo. E é exatamente isso que acontece. As pessoas que elegemos são obrigadas a legislar a respeito de tudo o que se passa na face da terra: como uma caixa de fósforos deve ou não ser feita, ou mesmo se o país deve ou não guerrear; como melhorar a agricultura, ou qual deve ser a melhor maneira para matar alguns árabes ou negros".

Passados quase 130 anos, a estrutura política (em especial no Brasil) não sofreu nenhuma alteração significativa para tornar inválido o argumento do francês. Ao contrário, na forma como a política é praticada hoje, a aprovação ou não de novas leis não segue o objetivo primário do bem comum, mas obedece a troca de favores ("você aprova o meu projeto, que eu voto no seu"), corrupção e outros interesses escusos que passam longe da confiança e dos interesses que os cidadãos depositaram nas urnas junto dos nomes de seus candidatos.

O único modo de acabarmos com isso é não deixarmos que os políticos guardem essas pautas e reivindicações tão necessárias para a evolução da estrutura política brasileira. Para tanto, é preciso que na manhã da próxima segunda-feira não levantemos com o pensamento focado somente em mais um dia de trabalho, mas que alimentemos também os debates sobre todos os problemas que perpassam e dominam nossa estrutura política, desde o âmbito municipal até o federal, participando de conversas, nos abastecendo com leituras e participando de mobilizações em prol de causas que acreditemos justas. Política não se faz nas urnas, mas fora delas!

O autor é jornalista e filósofo