10 de julho de 2026
Cultura

A consagração do "novo Proust"


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Reprodução Internet

Modiano tornou-se o 15º autor francês a conquistar o prêmio

O francês Patrick Modiano, 69, definido pela Academia Sueca como “uma espécie de Marcel Proust do nosso tempo”, foi anunciado ontem como vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. O romancista, que como o autor de “Em Busca do Tempo Perdido” se destaca pelo trabalho de memória, é o 15º francês a receber o prêmio, apenas seis anos após Jean-Marie Gustave Le Clézio. Modiano receberá da Academia Sueca 8 milhões de coroas suecas (R$ 2,67 milhões).

Peter Englund, secretário permanente da Academia, disse que o autor foi escolhido “pela arte da memória com a qual evoca os destinos humanos mais incompreensíveis e descortina a ocupação [nazista na França]”. A imprensa francesa não demonstrou surpresa com a notícia. O jornal “Libération” lembrou que o nome de Modiano figurava havia anos na lista de favoritos à premiação - na véspera, ele aparecia em sexto lugar na bolsa de apostas da britânica Ladbrokes.

Conhecido pela dificuldade em se expressar em público, sempre com frases incompletas, Modiano deu entrevista coletiva, na sede de sua editora, a Gallimard, em Paris. Ao lado do editor Antoine Gallimard, contou que só ficou sabendo da premiação após o anúncio, durante o almoço (em geral, os agraciados são informados meia hora antes), e comentou que escrever lhe é muito custoso.

“É como um pato cuja cabeça se cortou e que continua a andar até o fim do livro. Isso é estranho, porque faz perder a excitação do sonho, mas é preciso ir adiante”, disse. O autor citou a influência de Raymond Queneau (1903-1976), autor de “Zazie no Metrô”, em sua obra - do amigo, que lhe abriu as portas literárias, herdou o estilo elíptico pelo qual é conhecido.

Roteirista

Além de escritor, Modiano é roteirista. Coassinou, com Louis Malle, o roteiro de “Lacombe Lucien” (1974), filme de razoável sucesso sobre um adolescente com veleidades heroicas que se torna colaboracionista em 1944. Por esse filme, foi indicado ao Bafta. Modiano recebeu os mais importantes prêmios franceses, como o Grande Prêmio da Academia Francesa, em 1972, o Goncourt, em 1978, e o Nacional de Literatura, em 1996.

Traumas da Guerra

Modiano nasceu no final da Segunda Guerra, em 30 de julho de 1945, em Paris, filho de um judeu de origem grega ligado ao crime organizado e à Gestapo. A história familiar criou o ambiente para a obsessão temática que acompanha toda a obra de Modiano.

Seu primeiro romance foi publicado quando o autor tinha 22 anos, com o título “La Place de l’Etoile” (o lugar da estrela), referência à marca de ódio infligida aos judeus e que o pai não teve de usar por colaborar com os nazistas.

Sobre a temática de sua obra, disse que “não se pode escapar da sua época”. “Somos prisioneiros do nosso tempo, é como operar um sismógrafo da sua época.”

Seu 28º romance, “Pour que Tu Ne te Perdes Pas dans le Quartier” (para que você não se perca no bairro), foi publicado na França há uma semana e já era sucesso de vendas antes da premiação.

Modiano é traduzido em 36 idiomas. No Brasil, seis de seus livros, como “Ronda da Noite” e “Dora Bruder”, foram publicados pela Rocco entre 1985 e 2003 - estão hoje fora de catálogo. A única obra disponível no país é o infanto-juvenil “Filomena Firmeza” (Cosac Naify).

“É um texto que, mesmo delicado, leve e bem humorado, retrata os personagens com profundidade rara. Transporta o leitor para o ambiente parisiense sem precisar de frases descritivas”, diz a tradutora Flávia Varella.

‘Estou muito tocado’

Após ser notificado sobre o Prêmio Nobel de Literatura, Patrick Modiano deu entrevista por telefone à jornalista do “Nobel Media”. Ele contou que estava na rua, ao lado do Jardim de Luxemburgo, quando recebeu a notificação feita por sua filha.

Quando questionado sobre o significado de receber o prêmio, ele disse que em primeiro lugar foi algo inesperado, e emocionado completou: “É algo que nunca pensei que iria receber, realmente me tocou. Me deixou emocionado”.

Ele disse sempre ter a impressão de que está escrevendo seu último livro. Ao responder se há algum livro que significa mais que os outros, ele afirmou que isso é difícil, pois acha que sempre escreve o mesmo livro, “o que significa que eu já tenho escrito o mesmo livro por 45 anos de maneira descontínua”.