08 de julho de 2026
Geral

Grêmio juvenil: aprender a "cobrar"

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Ancorado na ingenuidade espontânea de seus 9 anos, Erikson Gabriel só esconde momentaneamente o sorriso aberto, maroto, quando é perguntado sobre o que aprendeu sobre democracia na oficina do I Fórum Juvenil realizado durante a Semana Municipal de Educação, na última semana, em um dos pavilhões da Instituição Toledo de Ensino (ITE): “Democracia é todo mundo poder falar, participar e ouvir o que as outras pessoas têm para falar”.

 

A frase simples, mas recheada de significados, sintetiza a amplitude do inédito trabalho desenvolvido pelo curso de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru) junto a alunos da rede municipal de ensino na formação de Grêmios Juvenis Estudantis. 

 

Coordenado pela professora e doutora em psicologia escolar, Flávia Asbahr, o trabalho pretende ir além de despertar os conceitos de participação e formação de liderança dentro da escola. “É um trabalho que cria um movimento de construção de cidadania e de protagonismo juvenil. Quanto mais  cedo realizado, melhor será o resultado em forma de participação social e na comunidade nas gerações a partir da escola”, comenta.

 

O aprendizado de conceitos como direitos humanos, racismo, democracia e cidadania é oferecido às crianças com abordagens próprias para a idade. O projeto está sendo realizado com 250 alunos-líderes do ensino fundamental em Bauru, atingindo indiretamente 8.900 matriculados, conforme a Secretaria Municipal de Educação. 

 

“Como são crianças pequenas, o aprendizado é concreto, com a utilização de jogos, histórias, para que a linguagem seja assimilada. Cada escola tem um tutor responsável pelo Grêmio Juvenil que está sendo formado”, explica Asbahr. 

 

A atuação nas escolas teve início em março. “Os temas que foram trazidos para as oficinas do Fórum Juvenil começaram a ser trabalhados pelos estagiários e alunos de psicologia. Lá, com a participação da direção da escola e dos professores, as crianças foram estimuladas a discutir os conceitos e a aprender a se organizar. O processo eleitoral foi estimulado tendo como parâmetro o aprendizado sobre gestão e participação democrática na escola e foram eleitos os representantes entre os alunos”, conta a doutora em psicologia escolar da Unesp. 

 

Um líder juvenil em formação, Erickson Gabriel contou com seu carisma natural, que salta aos olhos na primeira conversa, para ser um representante da Escola Zé do Skinão. Já Ana Carolina Vilela de Oliveira, 10 anos, da Emef Dirce Boemer Guedes de Azevedo, da região do Núcleo Ferradura Mirim, recebeu indicação dos colegas em razão do hábito de falar. 

 

Tagarela para alguns, ela demonstrou desenvoltura durante a oficina realizada na ITE. Enquanto isso, outras crianças precisaram ser estimuladas a se habituar a perguntar. “Eu percebi com esse trabalho que todos podem dizer o que nossa escola precisa. E isso também pode ser bom para a gente melhorar as coisas em nosso bairro. No Ferradura tem esgoto na rua, problema com iluminação, um monte de coisa”, emendou Ana Carolina, por conta própria, fazendo uma “conexão” entre o trabalho de líder juvenil e a participação social - uma resposta de dar estímulo ao cidadão adulto mais passivo, pessimista.

 

Pedro Henrique, 14 anos, por sua vez, empostou a voz para o tom mais, digamos, adulto, visivelmente sem “decoreba”: “Estamos discutindo planejamento e gestão e conversando como a discussão antecipada pode melhorar as condições de nossa escola. Aprendemos a estabelecer o que pode ser feito e quanto tempo é preciso para alguma coisa ser feita”.

 

Aposta no embrião

 

A doutora em psicologia escolar Flávia Asbahr não tem dúvidas de que o embrião vai espalhar suas sementes. “A participação desde criança vai fazer com que elas estejam familiarizadas com os conceitos de participação ativa, efetiva na vida de suas comunidades. E isso será levado para o ensino médio, onde a participação perdeu força e foco”, aposta.

 

Conceito de democracia se aprende pela ‘teia’

 

Em uma das oficinas realizadas durante o Fórum Juvenil, na semana passada, as crianças foram estimuladas a discutir sobre democracia. Sentadas no chão, formando um grande círculo dentro da sala, os alunos foram conversando sobre problemas da vida em sociedade, a necessidade de ouvir, da hora certa ou mais educada para falar, sobre o saudável hábito de dar opinião diferente do colega...

 

A partir das argumentações e dúvidas, quando cada criança levantava as mãos ou era convidada a se manifestar, uma teia de barbante formava sua “dinâmica” no meio da roda.

 

Por simbologia, quanto mais organizada aquela “sociedade” formada na sala de aula, menos “nós” a teia de participação formava. “A teia é a ideia de compartilhar o saber, uma dinâmica de relações de mundo, uma metáfora de organização e participação social, do coletivo”, posiciona Flávia sobre o trabalho.

 

Aluno de psicologia que integra o projeto como orientador na escola Etelvino Rodrigues Madureira, no Jardim Araruna, Rafael Carreteiro, “desenrola” o conteúdo de sua teia, no bairro, desde março. “A proposta desenvolvida lá na escola é de gestão democrática e de formação do grêmio a partir da compreensão do processo de participação e de escolha de representantes pelas próprias crianças”, comenta.

 

Para Carreteiro, o projeto avança. “Inicialmente as crianças mostram pouca informação, porque não estão habituadas com esses conceitos. Depois que elas aprendem, e elas aprendem muito rápido, já começam a opinar e a ver que podem falar sobre seus direitos”, completa.         

 

Integrante da teia da oficina sobre racismo, Ana Vilela opinou: “Não podemos chamar as pessoas de gordo, magro ou preto. Eu também aprendi que o incêndio nas matas é ruim e que as pessoas estão ficando sem água”. 

 

Protagonismo juvenil vive período de crise

 

Apesar da manifestação em massa nas ruas em junho do ano passado, o movimento estudantil a partir do ensino médio enfrenta uma crise de protagonismo. A “onda da vez” tem sido o de clicar e difundir “protestos” através da rede social, mas sem a conjunção de ação e consequência que levem a massa de jovens a ser ouvida.

 

A despeito da força da amplitude do movimento de rua em 2013, praticamente todas as “bandeiras” apresentadas pelos jovens no movimento continuam sem ser atendidas. Para a doutora em ciências sociais, titular de sociologia pela Unesp-Bauru, Caroline Kraus Luvizotto, o movimento secundarista enfrenta a crise do protagonismo juvenil.

 

“O movimento de junho do ano passado demonstrou que quando a ação de participação sai do mundo virtual e toma corpo nas ruas, ele gera energia. Mas o que temos no movimento secundarista é que eles não protagonizaram de fato nada, não acontecem as questões reivindicadas, falta a eles articular. Eles continuam sem ser ouvidos e a sociedade também.”

 

Ela acrescenta que “o jovem atual, a partir dos 15 anos e até a universidade, não passou, em sua maioria, por essa formação, nem em casa, nem na escola. Por isso eles não têm preparação para agir. É a crise de identidade que esse jovem vive, a crise de qual é o seu lugar na sociedade e como fazer seus gritos se tornarem ações”.

 

Caroline Kraus lembra que essa geração tem voz, mas continua com o “grito” preso ao mundo virtual, se valendo do simbolismo da massificação das críticas pela Internet. “É uma ação só de interlocução”, observa.

Isso explica, em parte, o chamado efeito “bolha de sabão” protagonizado pelo movimento de junho passado. “Eles se movimentaram, se organizaram via redes sociais, foram às ruas, conseguiram criar efeito de massa, falaram, na rua e na Internet, mas continuam sem participar do processo de decisão. E isso vira uma apatia social”, finaliza.