06 de junho de 2026
Regional

Resgate da memória pelos nomes de ruas

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 10 min

A área urbana da cidade de Pederneiras (26 quilômetros de Bauru) tem 549 ruas. Desse total, 95% são nomes que precisam ser ‘desvendados’ para fazer parte de um arquivo histórico que revelará quem são, o que foram e por que receberam tal homenagem. A intenção é resgatar a história e valorizá-la. 

 

O projeto “Viajando pelas ruas de Pederneiras” é uma iniciativa da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade e foi motivado pela grande demanda de pesquisadores e estudantes que procuram informações sobre nomes de ruas, prédios públicos, praças e avenidas no município. 

 

A pesquisa foi iniciada e não tem dada para ser encerrada, segundo a historiadora da cidade Anna Carolina da Fonseca Oliveira. “O projeto vai ampliar a gama de informações necessária para catalogar quem é cada homenageado. Nessa etapa, precisamos da ajuda da população para nos fornecer dados de seus parentes e amigos que têm o nome cravado nas ruas, praça, prédios públicos e avenidas.” 

 

Segundo a pesquisadora, a prefeitura criou um banco de dados disponível no site oficial (www.pederneiras.sp.gov.br), onde qualquer pessoa que tenha parente ou amigo que foi homenageado em alguma via, praça ou prédio público pode clicar no link “Projeto Viajando pelas ruas de Pederneiras” e preencher on-line os dados com informações sobre uma determinada pessoa. 

 

As informações serão acessadas e confirmadas pela equipe da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo para garantir a veracidade dos fatos. “O cidadão só vai conseguir enviar os dados se preencher corretamente todos os campos, incluindo telefone e e-mail para contato.”

 

Os arquivos da Câmara e prefeitura sobre os nomes de rua deram o início ao projeto, comenta a historiadora. “Estamos resgatando os registros e documentos existentes nos órgãos públicos. Na primeira etapa estamos pesquisando na Câmara e na prefeitura. Vamos aguardar as informações da população e numa terceira fase consultaremos o arquivo do cemitério municipal.” 

 

Segundo a historiadora, das 549 ruas urbanas, só 5% têm histórias registradas, dentre elas, os homenageados nacionais como Tiradentes, Duque de Caxias. “Tem ainda os pederneirenses que participaram da história da cidade como Eliazar Braga, coronel Coimbra. Esses tem registros no projeto Baú de Memórias.” 

 

Uma parte da pesquisa foi feita nos arquivos da Câmara Municipal. 

 

Dados da pesquisa vão para arquivo histórico

 

A pesquisa ainda está no começo e o município aguarda que os parentes e amigos daqueles que têm seus nomes cravados nas placas de ruas, entrem no site e forneçam informações. Mas algumas descobertas curiosas já aparecem na pesquisa que está sendo feita nos arquivos da Câmara Municipal e da prefeitura, comenta a historiadora Anna Carolina da Fonseca Oliveira. 

 

O fato aconteceu na década de 40. O prefeito Antônio Guerize fez uma homenagem para o comendador João Chammas e no dia seguinte retirou a homenagem. O motivo? Ninguém sabe, mas a pesquisa poderá responder. “Nós estamos buscando informações, porque não faz sentido. Hoje, o nome do comendador está em uma escola e uma rua da cidade.” 

 

Outro fato curioso da fase inicial da pesquisa é que muita gente que tem nome em ruas da cidade, viveu pouco tempo. “Acredito que em muitas cidades brasileiras isso aconteça. Porque  a indicação do nome para uma rua ou órgão público é política. Durante o trabalho vamos conseguir saber até a história de bairros, através de decretos da prefeitura.” 

 

A historiadora frisa que muitos nomes de pederneirenses foram lembrados na denominação de ruas, avenidas e órgãos públicos, mas o nome da primeira professora da cidade foi esquecido. “Tem vários pedidos feitos durante muitos anos, mas nunca foi atendido. Não sabemos porque. Recentemente, eu recomendei ao prefeito Daniel Camargo que dê o nome dela a uma escola.” 

 

O dono de uma sorveteria, bastante popular na cidade teve seu nome cravado em um bairro. “É o Vicente Juliano Menguile. Outro bairro recebeu o nome de Jaime Bigelli. O Bruno Cury era um jovem, filho do ex-prefeito que também tem um bairro com o nome dele. São várias as justificativas e todas diferentes.” 

 

O trabalho vai exigir  mudanças nas placas de ruas. “A partir da pesquisa que estamos fazendo, as placas de ruas terão um padrão. O prefeito vai criar uma lei para isso. Buscamos na Vila Mariana-SP um modelo que traz o nome da pessoa homenageada, a ocupação que teve e o ano de nascimento e morte.” 

 

Prédios são inaugurados com histórico

 

Os prédios públicos mais recentes, lembra a historiadora Anna Carolina, estão com a documentação atualizada. “Arquivamos o histórico da pessoa homenageada para que no futuro, os estudantes e pederneirenses encontre mais facilmente os dados necessários em pesquisas. A antiga estação ferroviária, por exemplo foi batizada de Izavam Ribeiro Macario e o teatro de Flávio Razuk.

 

Mas quem foi Izavam Ribeiro Macario?  Embora não tenha nascido em Pederneiras, nasceu  em Nova Granada, Estado de São Paulo. Ele viveu muito tempo na cidade e tinha uma vida muito ativa na parte cultural e artística. “Ele montava bailes no Clube Alvorada, curso para debutantes, ajudava no teatro da igreja matriz, mesmo sendo a Presbiteriana. Hoje é Centro Cultural. A homenagem foi feita em 2008 quando foi inaugurado o prédio.” 

 

O nome Izavam nasceu da junção dos nomes de seus irmãos, Idalina, Zaira, Alda, Vera, Antonia e Macário. Em sua infância participou de jograis e peças teatrais da Igreja Presbiteriana, à qual pertencia sua família. Seu entusiasmo contagiava as demais crianças e sua criatividade já aflorava nas produções de textos e cenografias. Seu sonho era ser arquiteto. Cursou o técnico em contabilidade na Escola Técnica de Comércio Anchieta, onde mais tarde ministrou aulas de matemática. Formou-se professor de magistério na Escola Normal Anchieta. Em 1966 participou do Grupo Amigos do Teatro através de diversas peças, entre elas, “Irene” de Pedro Bloch.

 

Organizou bailes no Clube Alvorada, inclusive para meninas debutantes, e durante o carnaval organizava blocos. Fez parte da comissão de planejamento da participação de Pederneiras no Programa Silvio Santos em 1969. Foi bancário, trabalhou na agência do Banco do Brasil de Pederneiras. Foi diretor e professor da Escola Preve Objetivo. Morreu em 23 de novembro de 1996. À época cursava o último termo de direito e trabalhava na Justiça do Trabalho em Jaú. 

 

O teatro municipal, inaugurado em 2012, foi batizado de Flávio Razuk . “Ele era um pederneirense que gostava, lutava pelo turismo na cidade. Tinha uma agência de viagens aqui. Enaltecia os pontos turísticos de Pederneiras.”  

 

‘A voz de Pederneiras’ ganhou nome de rua como homenagem

 

Antonio Facciolo chegou em Pederneiras em 1933. Veio morar na cidade a convite do maestro Francisco Paini para participar da banda. Instalou na cidade uma oficina e relojoaria na esquina das ruas coronel Coimbra e atual 9 de Julho. Esportista, defendeu as cores do Ford Futebol Clube, tornando-se um batalhador pela fundação da Associação Atlética Pederneiras, onde foi presidente por mais de trinta anos. 

 

Em 1943 adquiriu o serviço de Alto Falantes Comercial “A Voz de Pederneiras”, que levava ao ar músicas, festividades e notícias. Na década de 1940, sua relojoaria e joalheria “A Esmeralda” era a maior do ramo na cidade, com variedade de relógios Omega e Tissot, canetas Parker e Sheaffer’s, rádios RCA Victor, refrigeradores Westinghouse, instrumentos e discos musicais, óculos, artigos para presentes em vidros, louças, porcelanas e cristais. Morreu em 1987

 

Castelo Furlani

 

Fausto Furlani nasceu na Itália e veio para o Brasil em 1897 quando já tinha terminado seus estudos de engenharia e topografia. Desembarcou em Santos e de São Paulo seguiu para Jaú onde foi contratado para construir construção de prédio para máquinas de beneficiamento de café, moinho e casas para os trabalhadores. Construiu em fazendas de Bariri, Jaú e Bocaina. Foi para Pederneiras em 1901 para terminar a divisão judicial da Fazenda Macaco. 

 

Construiu sua casa em 1903 e instalou o primeiro telefone particular da cidade em sua residência. Para poder receber títulos profissionais no Brasil, estudou português e fez os cursos de engenharia pela Escola Livre de Engenharia do Rio de Janeiro. Em 1911 seu pai convence Fausto e os seus irmãos Amadeu, Giovani Batista Mario e Valério a construírem o Castelo, iniciado em 1913 e concluído em 1914.

 

Instalou a pedreira Furlani na Fazenda Cachoeirinha com ramal ferroviário em 1924, abastecendo a Estrada de Ferro Noroeste. Foi eleito vereador em 1925 assumindo em janeiro de 1926 quando a Câmara elegeu-o prefeito. Morreu no dia 14 de novembro de 1973.

 

Parque Ecológico leva nome de ex-prefeito

 

Prefeito duas vezes em Pederneiras, Giácomo Metódio Bertolini nasceu no dia 27 de fevereiro de 1933. Cursou o primário no Grupo Escolar Eliazar Braga, o ginasial no Ginásio Estadual Anchieta e técnico em contabilidade na Escola Técnica de Comércio Anchieta. Foi produtor rural, caminhoneiro, empresário de desmatamento e terraplenagem além de comércio de tratores. Manteve também a empresa Criarte – Parque e Jardins. Foi eleito vereador em 1976 e exerceu o mandato de 1977 a 1982 quando foi eleito prefeito pela primeira vez com mandato de seis anos. 

 

Reformou o prédio anexo à prefeitura para a implantação da Divisão de Obras e Engenharia, Divisão de Recursos Humanos, Junta de Alistamento Militar e Incra e construiu passagem de nível inferior sob os trilhos da ferrovia na Rua Santos Dumont. Centro de Atendimento Médico Municipal, Prédio da Polícia Militar e para a Ciretran, fábrica de blocos e artefatos de cimento, usina de asfalto e amplo almoxarifado, ponte entre os Distritos de Guaianás e Santelmo, padaria e cozinha piloto fornecendo refeições para as Emeis, Emefs, escolas estaduais e várias entidades, 1.500 metros de galerias fluviais, l4 quilômetros de esgoto. 

 

O Recinto de Exposições onde é realizada todo ano a festa máxima do município, a Feira das Nações e outros eventos também foi uma obra feita na gestão dele. Foi eleito pela segunda vez em 1992, Giácomo Metódio Bertolini concedeu transporte gratuito para estudantes, iniciou a implantação de distritos industriais, do terminal rodoviário e do programa de desfavelamento em diversas vilas.

 

Numeração tem sistema diferente

 

Quem vai pela primeira vez à cidade de Pederneiras a procura de um determinado endereço fica confuso ao consultar a numeração. É que, antes do número tem uma letra: N, S, L e O que significam os pontos cardeais. 

 

O criador do sistema de numeração predial foi Wilson Ruiz Fernandes durante a gestão do prefeito Waldomiro Fernandes Mateus, em 1981. Ele tomou como base a esquina da avenida Tiradentes com a rua Belmiro Pereira que se cruzam perpendicularmente, formando as zonas Norte, Sul, Leste e Oeste. O criador patenteou a ideia. 

 

De acordo com a historiadora Anna Carolina Fonseca Oliveira, ele era um professor projetista, fazia muitas casas na cidade. Foi ele que reformou o Clube Alvorada o que a gente conhece hoje do clube. “Ele escolheu a igreja matriz como marco zero da cidade. A numeração é a metragem que a pessoa está do eixo principal da cidade que é o número da casa.” 

 

Se a pessoa mora na região oeste da cidade, na rua Nove de Julho 474, por exemplo, isso significa que ela está a 474 metros da avenida Tiradentes. “Aqui é N 989. Isso é estamos a 989 metros do eixo principal da cidade.  A letra na frente indica o setor. Um lado da rua é par e o outro é número impar.” 

 

Segundo a historiado, até mesmo os moradores da cidade não entendem muito como funciona. “Quem vem de fora pior ainda. Quem  vem entregar mercadoria tem dificuldade em encontrar. É o único município com a numeração assim. O Wilson Ruiz patenteou na época. A documentação da patente encontra-se  no arquivo do Centro Cultural. Foi doada pela família após sua morte. Não se sabe porque ele criou esse sistema e patenteou.”

 

Quem foi Wilson Ruiz Fernandes 

 

Wilson Ruiz Fernandes nasceu em Pederneiras, no dia 3 de dezembro de 1923 e morreu em 12 de junho de 2008. O salão de entrada do Centro Cultural da cidade leva seu nome. Ele trabalhou como contínuo na Casa Bancária de Antonio Ruiz & Filhos e a noite estudava na Escola de Comércio do professor Felipe Lebeis de Aguiar. Estudou no Ginásio Dom Luiz (primeiro nome da Escola Anchieta), participando do teatro amador, e imitava o Mazzaropi. Iniciou o curso colegial no Colégio Mackenzie em São Paulo, passou para a Escola Técnica São Francisco de Bórgia, onde se formou como desenhista em arquitetura, conseguindo o registro como construtor licenciado. Passou a trabalhar como desenhista na Companhia Litográfica Ipiranga. 

 

Fez parte do Cruzeiro Cestobol Clube. Lecionou Desenho e Trabalhos Manuais. Conseguiu o registro de professor e fez concurso para o magistério. Iniciou como professor Ginásio Estadual de Pereira Barreto. Foi transferido para Bariri e finalmente para Pederneiras, lecionando por 33 anos. Lecionou também na EEPG Neusa Cestari Fabri, na EEPG Maria José Cestari De Conti em Vanglória e na EEPG Laudelino de Abreu em Jaú.