O problema da falta d’água se agrava a cada dia que passa em Bauru. Ontem, primeiro dia de rodízio no abastecimento, foi caótico. Em pouco mais de 18 horas, o Departamento de Água e Esgoto (DAE) recebeu 192 solicitações de caminhões-pipa, sendo que 20% delas vieram de regiões que deveriam receber água. Em meio à seca, a população se vira como pode para ter acesso ao líquido (leia mais abaixo).
Ontem à tarde, nem a reportagem conseguiu contato imediato com o DAE, já que as linhas ficaram congestionadas. Muitos bauruenses entraram em contato com o JC para saber o motivo de bairros onde moram - Vila Souto, Vila Nipônica, Vila Falcão, Jardim Terra Branca, Vila Pacífico e Vila Ipiranga - apresentaram problemas no abastecimento, sendo que a falta de distribuição nesses locais não foi prevista pelo cronograma do rodízio.
Josélia Josefa dos Santos, 43 anos, mora com as duas filhas na quadra 1 da rua Américo Cesetti, no Leão 13, e está sem água há três dias. O bairro dela faz parte da região da Vila Falcão/Bela Vista, que deveria ser abastecido das 6h de ontem às 6h de hoje. Para “driblar” a falta d’água, Josélia ganhou um reservatório de 2.750 litros, onde estoca a água dos caminhões-pipa e distribuiu aos vizinhos. “Nessas horas, nós temos de nos unir”, aconselha.
Sônia Lopes, 61 anos, passa pelo mesmo dilema de Josélia. A aposentada divide uma casa simples, localizada na quadra 6 da rua Altino Arantes, na Vila Souto, com 13 gatos e três cães, o que exige que uma boa limpeza seja feita diariamente. “Mas, cadê a água?”, questiona a moradora. Assim como no caso de Josélia, as torneiras de Sônia deveriam estar cheias, mas a aposentada não vê sequer uma gota d’água desde o último domingo.
Para o DAE, explicação para o problema em regiões que, segundo o cronograma do rodízio, deveriam receber a água é o calor excessivo e o baixo volume do Rio Batalha, cuja lagoa de captação registrava, na tarde ontem, 1,15 metro, 11 centímetros a mais do que anteontem. Porém, não significa que o manancial está se recuperando. É apenas o resultado da economia de água decorrente da manobra de fechamento dos registros (veja cronograma na ilustração abaixo).
Vazamento
Enquanto algumas regiões sofrem com a falta d’água, outras são palco de desperdício. Este é o caso do bairro Vista Alegre, em Bauru. Na tarde de ontem, um leitor entrou em contato com o JC e denunciou um vazamento na quadra 1 da praça Diogo Hojas, que já estaria com dois meses. O DAE informou que uma equipe foi enviada ao endereço para verificar o vazamento, ontem à noite. Se o desperdício estivesse muito grave, os reparos seriam feitos no mesmo dia. Caso contrário, será finalizado, no máximo, até amanhã.
Cartório fechado
Nem o cartório da 23ª Zona Eleitoral de Bauru, localizado a 50 metros do DAE, escapou das consequências da crise. O órgão fica na rua Antonio Alves, 21-35, no Altos da Cidade, região que seria privada, das 6h de ontem às 6h de hoje, da distribuição do líquido por conta do rodízio. Por volta das 11h desta quarta-feira, o chefe do cartório Munir Sayed percebeu que a água não chegaria nas torneiras e dispensou todos os funcionários.
“Tivemos de fechar as portas, porque são dez pessoas que precisam ir ao banheiro e lavar as mãos, por exemplo”, justifica Sayed, que espera que o abastecimento de água seja normalizado hoje para não atrasar o cronograma do segundo turno das eleições. “Nosso trabalho já está adiantado e o incidente de hoje (ontem) não chegou a atrapalhar”, acrescenta.
Em meio à seca, bica se tornou ‘oásis’
O movimento foi bastante intenso na Gelo Gelic, que fica na avenida Castelo Branco, 27-63, na Vila Ipiranga, em Bauru, ontem à tarde. Lá, a fábrica, que comercializa gelo, coloca à disposição da população uma bica de água do lado de fora do estabelecimento. Nem mesmo o sol e forte calor impediu que os bauruenses formassem longas filas na frente do local em busca de “driblar” a falta d’água nas residências.
“Nós já não temos médicos nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), agora não temos água. Onde vamos parar?”, desabafa Helena Maria de Andrade, 51 anos, que mora na quadra 14 da rua Pedro Fernandes, na Vila Ipiranga. Ela diz estar sem água desde domingo e tem de tomar banho na casa de parentes que vivem em outra região. “Rodrigo Agostinho, eu votei em você e agora eu quero saber o que vai fazer por mim”, interroga a moradora.
Na “fila da água”, também estava o proprietário de uma choperia localizada na Vila Falcão, que pediu para não ser identificado. Ele enchia diversos baldes com a água da bica. “Só vai durar até umas 20h. Depois vou ter de voltar para pegar mais”, lamenta o homem. No estabelecimento, segundo ele, há reservatórios de 5 mil litros e, mesmo assim, as torneiras permaneceram secas durante todo o dia.
Mais calor vem por aí
O calor foi intenso ontem tanto que uma motorista chegou a desmaiar, mas as temperaturas não bateram o recorde de terça, quando o IPMet da Unesp de Bauru registrou 39,2 graus. A máxima desta quarta-feira alcançou, às 14h10, 37 graus. Quanto à umidade do ar, o menor índice chegou a 31%.
Para aqueles que esperam uma chuvinha para refrescar, a previsão é de que haja precipitação só a partir do próximo dia 20. Enquanto isso, a massa de ar quente e seco permanecerá influenciando as temperaturas, que ficarão em torno de 18 e 38 graus. Em relação à umidade relativa do ar, a variação ficará entre 20 e 30%.
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