10 de julho de 2026
Geral

"Sem poços, haveria guerra civil aqui"

Thiago Navarro
| Tempo de leitura: 7 min

Malavolta Jr.

Em meio à crise de abastecimento, Rodrigo e Giasone se reuniram ontem

A situação crítica que Bauru vive em relação ao abastecimento de água suscita discussões em relação ao presente momento de escassez, mas também remete aos próximos anos. Dependente do Rio Batalha para que 38% da cidade tenham água, a prefeitura diz que precisa reduzir a extração do rio e apostar em novos mananciais, como o Córrego Água Parada e mesmo o Rio Tietê, porém, admite que serão soluções, no mínimo, a médio prazo.

O prefeito Rodrigo Agostinho, acompanhado do presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE), Giasone Candia, falou com o JC ontem sobre diversos assuntos relativos ao abastecimento de água e admitiu que seu sucessor terá de buscar soluções mais amplas do que a perfuração de poços. Já o rodízio, que começou ontem, só vai terminar quando a represa de captação do Rio Batalha voltar ao normal, ou seja, em pelo menos 2,60m. O problema é que a previsão de chuva  é somente a partir de terça-feira.

JC – Você fala da abertura de novos poços. Mas Bauru já está perto do limite de abertura de poços.

Rodrigo – O problema não está apenas na abertura dos poços. Independente da dificuldade, a população tem que ter água na porta de casa. Mas nós hoje já retiramos mais água do que deveríamos do subsolo, e um exemplo disso é o Roosevelt. Tinha o 1, entrou em colapso, o mesmo com o segundo, e agora já estamos no Roosevelt 3. É uma produção de água sem sustentabilidade, mas está sendo feito para atender a população.

JC – Mas pode haver um rebaixamento no nível do lençol freático com a abertura de tantos poços?

Rodrigo – Na época dos dinossauros, Bauru era um lago. E esse lago foi assoreando com o tempo, que deu origem ao solo arenoso de Bauru. O fundo desse lago formou as artérias, que são os córregos da bacia do Rio Bauru e o próprio rio em si. Ela tem uma produção de água muito pequena, e agora com a retirada do esgoto do Rio Bauru, vai diminuir ainda mais o volume do rio. Quando chove, essa água sobe de uma vez, mas que não dá pra usar no abastecimento, está fora de cogitação. Bem abaixo dessa formação geológica está o Aquífero Guarani. Acima da rocha-mãe, temos o Aquífero Bauru, que foi muito usado até a década de 50 para abastecer a cidade. Ainda se usa muito esse aquífero na área rural, mas na zona urbana é uma água muito contaminada, pois vem de infiltração de chuva. Depois dos anos 60, Bauru começou a usar muito o Rio Batalha, hoje estamos no limite, aliás, estamos tirando além, e os poços começaram a ser cada vez mais profundos, para atingir o Aquífero Guarani. E isso tem um custo, principalmente para bombear essa água, tanto que a maior despesa do DAE é energia elétrica, mais até do que com pessoal. Em cidades como Ribeirão Preto, não se pode mais perfurar poço algum. O ideal é no futuro ter outra opção, e esta seria o Água Parada ou o Tietê.

JC – Quanto custariam obras no Água Parada ou no Tietê?

Rodrigo – O que nós estamos elaborando é o Plano Diretor de Água, um investimento de R$ 1,3 milhão, e a empresa que está fazendo é boa e está detalhando bastante. E não está dizendo só o que a gente já sabe, está apontando alternativas, como a necessidade de interligar toda a cidade, a setorização. Hoje temos isso em algumas regiões, mas não na cidade toda. Eles entregarão até o final do ano para nós também o plano da setorização, e isso o DAE poderá fazer com a própria equipe. Interligar será fundamental para fazer uma manobra e garantir água em regiões que estão desabastecidas. O plano mostra que precisamos reduzir vazamentos e, para isso, já adquirirmos 79 veículos, mais 14 máquinas estão chegando e estamos contratando 21 encanadores.  Mais poderão entrar por um novo concurso que está para ser publicado. Só com as melhorias que foram feitas, já diminuímos pela metade os vazamentos, mas precisa reduzir mais, e o tempo de reação do DAE precisa ser mais rápido entre um vazamento surgir e sua solução.

JC – Mas e quanto custariam obras no Água Parada ou no Tietê?

Rodrigo – Não temos projeto para nenhum dos dois. O Água Parada é o mais próximo. O Tietê eu digo que, sozinho, o município não consegue fazer. No caso do Água Parada, seria possível até usar o dinheiro do Fundo de Tratamento de Esgoto, mas a Câmara tem que aprovar, claro. O segundo passo desse Plano Diretor de Águas é justamente contratar os projetos. É difícil apontar valores, mas, pelo que a gente conversa e ouve de alguns técnicos, uma estação robusta mais o sistema de captação no Água Parada ficaria em R$ 70 milhões. Já o Tietê é mais caro, pois teríamos que captar a água em Pederneiras e bombeá-la até Bauru, e certamente não custaria menos de R$ 100 milhões. Tudo isso são estimativas, pode ser mais. O que precisa fazer agora são os projetos.

JC - Quanto ao Rio Batalha, o que o plano aponta? A ETA já está ultrapassada, não?

Rodrigo – Algumas intervenções, principalmente para que a gente possa tirar menos água do rio. A ETA é muito boa. Foi inaugurada na época com tudo o que havia de melhor, mas está defasada. O problema não é esse. O problema é simplesmente que não chove. A humanidade está judiando demais do planeta. O aquecimento global é uma realidade, o Polo Norte está derretendo. O fenômeno não é só de investimento. Veja Itu, por exemplo, que teve de comprar água, ou São Paulo, com o sistema Cantareira. Estamos brigando com a natureza. E não é a cidade inteira que está com rodízio. 60% da cidade é abastecida pelos poços e não é afetada. Tem regiões que, mesmo com o poço, sofre com a água, mas independe do rodízio, que pega a área do Batalha. São 20% da cidade tendo rodízio em um dia, e 20% em outro.

JC – E a possibilidade de se aumentar a represa do Batalha?

Rodrigo – Recentemente já houve uma ampliação da represa. Mas a questão não é só reservação, você precisa ter água nova. Entrando o período de chuva, o DAE retoma os trabalhos de melhoria do Batalha. O Plano de Águas indica a necessidade de novos reservatórios para aumentar a vazão, mas isso não significa que aumentaremos a quantidade extraída do rio. Pelo contrário, precisamos diminuir. Hoje, não podemos abrir mão do Batalha. Talvez o dia que tivermos uma captação bruta em um rio como o Tietê, isso seja possível.

JC – O aumento da tarifa de água é uma possibilidade e há chances de se terceirizar ou privatizar o DAE?

Rodrigo – Não vejo este modelo de privatização ou terceirização como solução para Bauru. Pelo contrário. Nós investimos R$ 76 milhões nos últimos anos através do DAE. Só em frota, foram R$ 10 milhões. O que precisamos agora é pensar a longo prazo. Bauru está crescendo e 60% da cidade está bem abastecida, através dos poços, mesmo neste período de seca. E nos outros 40%, que são do Rio Batalha, muita gente nem está sentindo o rodízio, desde que haja caixa d’água. Se a gente não tivesse investido nesses dez poços nos últimos anos, aí sim a situação estaria mais grave, seria guerra civil aqui na porta (da prefeitura). Para os próximos cinco ou dez anos, está equilibrado, o que precisa é discutir o futuro, e isso passa pelo estudo de viabilidade do Água Parada e mesmo do Tietê, em umoutro momento.


Economia da população

Para Rodrigo Agostinho, é possível ficar mais de um dia sem água nas casas se houver um reservatório, ou seja, uma caixa d’água. “O problema é que, em muitos bairros, pouca gente tem caixa, e qualquer alteração na rede de água é mais sentida”, diz. Ao mesmo tempo, Rodrigo agradece os bauruenses pela economia que têm feito nos últimos dias. “A gente sabe que as pessoas estão economizando”, cita.

Quanto ao investimento direto do DAE, o prefeito explica que, desde 2009, quando iniciou seu primeiro mandato, a autarquia já investiu mais de R$ 76 milhões, sem contar folha salarial. “Foram oito poços, e mais dois ficarão prontos até o fim do ano. Um já está quase finalizado, que é o Val de Palmas, e dependemos de uma autorização do DER para passar a tubulação de um lado para o outro da Bauru-Marília. Esse poço ajudará muito a região da Vila Dutra. O outro que fica pronto neste ano é o do Jardim TV. Depois, até 2016, vamos reformar os poços Conceição e Padilha, no Bela Vista, que melhorarão muito em termos de qualidade, e construir outros como o Zona Norte 3 e o Santa Cecília, com verba própria, e o Villagio 4, Imperial 2 e o Ecovila, estes como contrapartida da iniciativa privada”, aponta o prefeito.