Nem mesmo a instituição do rodízio de água tem sido suficiente para garantir o abastecimento de acordo com o cronograma do Departamento de Água e Esgoto (DAE). Devido ao baixo nível da lagoa de captação do rio Batalha, em muitos momentos do dia, apenas uma bomba é posta em funcionamento, com produção insuficiente para levar água até as regiões mais altas da cidade.
Exatamente por este motivo, moradores de bairros como o Núcleo Habitacional Leão 13, por exemplo, estão sem água desde o início da semana. Em uma reação de desespero, ontem, eles cercaram um caminhão-pipa do DAE que levava água para uma creche. Entidades assistenciais, unidades de saúde e órgãos públicos também estão sendo afetados pelo racionamento, resultado da crítica falta d’água em 38% da cidade.
O presidente do departamento, Giasone Candia, confirmou que não há qualquer medida emergencial que possa ser tomada para minimizar o problema e adiantou que, caso não chover nos próximos dias, todos os 130 mil moradores abastecidos pelo Batalha poderão ficar sem água. Ontem, às 17h, a lagoa de captação chegou a 1,04 metro e, caso atingir o nível de 80 centímetros, a retirada de água se tornará inviável operacionalmente.
“Corremos o risco de interromper até mesmo o rodízio, porque pode não ter água nem mesmo para abastecer uma parcela dos setores que recebem água do Batalha. Não podemos fazer nada. Só quando voltar a chover é que a distribuição será normalizada”, comenta o presidente.
Para tentar retardar o esgotamento do Batalha, a única estratégia adotada pelo DAE tem sido a redução da captação de água na lagoa. Quando o nível da represa chega próximo a um metro, como ocorreu ontem, apenas uma bomba continua a funcionar, com vazão de 250 litros de água por segundo.
Tempo integral
Normalmente, quando as três bombas estão em funcionamento para garantir o abastecimento nos horários de pico, a produção é mais do que o dobro, de 550 litros por segundo. “Se eu deixar duas bombas ligadas o dia todo, a água da lagoa acaba no mesmo dia, porque, sem chuva, não tem reposição em quantidade suficiente”, completa Candia.
Por conta desta manobra, o volume produzido não tem sido suficiente para levar de água às regiões mais altas da cidade, mesmo que estejam dentro do dia programado para o abastecimento. Hoje (veja mapa do rodízio abaixo), por exemplo, há previsão de direcionamento de água para as regiões do Jardim Bela Vista e Vila Falcão, mas as partes mais altas destes bairros, assim como os jardins Ouro Verde e Solange, poderão continuar com as torneiras secas.
Amanhã, quando a região central e zona sul devem receber água no sistema de rodízio, há possibilidade de o produto não chegar às casas e estabelecimentos da região do Bauru Shopping, Altos da Cidade, Jardim Aeroporto e da parte mais elevada do Centro. “E, quanto mais a chuva demorar, mais áreas poderão ficar desabastecidas em tempo integral”, reforça Candia.
A estimativa do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) é de que a chuva só chegue a Bauru na próxima terça-feira. Já o Climatempo prevê chuva a partir da tarde de domingo.
Captação do Batalha pode parar totalmente
Engenheiro do DAE, Isaar de Almeida explica que, caso a lagoa de captação de água do rio Batalha chegar a cerca de 80 centímetros, as bombas poderão ser totalmente desligadas. Isso porque, segundo ele, as quedas repentinas de pressão, provocadas por ausência de água na bomba, podem danificar a parte interna do equipamento.
“É o que chamamos de cavitação. Antes de chegar a este limite, temos de interromper totalmente o funcionamento”, cita. Segundo Almeida, com o Batalha no nível atual, entre 1 m e 1,2 m, os funcionários já têm de se desdobrar para manter o crivo limpo e impedir a entrada de sujeira oriunda do fundo da lagoa, que também pode queimar a bomba d’água.
‘Interligação poderia ter evitado o problema’, aponta engenheiro
A interligação de toda a rede de distribuição de água poderia ter evitado o desabastecimento atual, segundo análise do engenheiro Eric Fabris, presidente do DAE entre 1993 e 1996. Mas, ele pondera que os recursos necessários para implementar a mudança são elevados e entende que outras prioridades, como a perfuração de poços, podem ter sido mais importantes para evitar um colapso ainda maior.
“O projeto de interligação é bastante antigo. Ele permitiria buscar água em outros reservatórios, inclusive naqueles abastecidos por poços, caso faltasse água em alguma região. Mas, a crise está relacionada a um ano bastante atípico de seca que, isolado, talvez não justifique tamanho investimento”, analisa.
Outra saída, segundo Fabris, seria implantar um sistema de captação do Ribeirão da Água Parada, algo já estudado no passado para garantir o abastecimento da zona norte. “Hoje, esta região recebe água de poços. Como o Batalha é o único manancial da zona sul, adutoras poderiam fazer a interligação do Água Parada para suprir a demanda desta área e do Centro”, cita.
As obras, no entanto, também demandariam grande investimento. Já a ampliação da área de reservação da represa do Batalha, também uma alternativa já estudada em administrações anteriores, teria resultados paliativos.
“E o custo também não é baixo. Talvez sejam adequações inviáveis para enfrentar uma situação de desabastecimento que pode ocorrer uma vez a cada 10 ou 20 anos”.