A crise do desabastecimento continua trazendo transtornos para os bauruenses. E, se a situação já está ruim com o rodízio, pode piorar caso o nível do Batalha baixe ainda mais (leia mais na página ao lado). Para conseguir cuidar da higiene e cozinhar, o jeito é usar água mineral mesmo. Três distribuidoras da cidade disseram que, de duas semanas para cá, a venda foi triplicada por conta do calor, que exige um consumo maior do líquido, além do desabastecimento em residências e estabelecimentos comerciais.
“Todo início de verão, os consumidores não estão preparados para enfrentar o calor e o consumo acaba dobrando, mas depois se estabiliza. Contudo, por conta da falta d’água, a venda chegou a triplicar”, explica o proprietário de uma distribuidora do Jardim Brasil, Carlos José de Freitas.
Ele conta que muitos clientes ligam quando a água acaba e querem urgência na entrega. “Pela resolução 219 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e a lei municipal 6.324, datada de 4 de março de 2013, nós temos limites para o transporte de galões d’água e, agora, por conta da demanda, não conseguimos fazer as entregas na hora que os clientes ligam”, justifica Freitas.
O empresário orienta os consumidores a pedirem água alguns dias antes que acabe para que ninguém fique desabastecido.
O responsável por outra distribuidora, localizada no Bela Vista, William Mello Cruz, concorda com a estimativa de Freitas quanto ao fato de a venda ter triplicado. “Eu tenho clientes que pedem de sete a dez galões de 20 litros de uma vez só. Eles usam para cozinhar, tomar banho, além de garantir a limpeza das residências e das roupas”, revele o funcionário, que teve até de usar o próprio carro para fazer algumas entregas.
Sérgio Henrique do Prado, proprietário de uma distribuidora na região do Hospital Manoel de Abreu, também “pega no pesado” para que a empresa dê conta de todos os pedidos. Ele até ajuda a carregar os caminhões e afirma que a seca chegou a mudar o perfil dos consumidores. “Eles não reclamam mais do preço dos galões de 20 litros, que custam, em média, R$ 25,00, mas querem que a água chegue o mais rápido possível”, reitera.
Sem água
Pelo terceiro dia consecutivo, os telefones do JC não paravam de tocar e o motivo das reclamações, claro, foi a falta d’água. Moradores das regiões do Centro, do Jardim Nasralla, do Jardim Terra Branca, Jardim Ferraz e da Vila Souto, sendo que os três últimos bairros deveriam ser abastecidos, segundo o cronograma do rodízio. No DAE, as linhas telefônicas permaneceram congestionadas.
Uma moradora do Terra Branca, que entra no sistema de rodízio e deveria ter tido o abastecimento ontem, disse que usou mais de três litros de água mineral para tomar banho no dia anterior. “Minha casa está desabastecida desde terça-feira”, reclamou a mulher, que preferiu não se identificar.
Adriano Aparecido Santana de Andrade, morador da Vila Souto, é outro que está a ponto de utilizar água “de beber” para tomar banho, cozinhar e fazer as tarefas domésticas, porque o reservatório da casa do aposentado está acabando.
Procura por reservatórios
O DAE sempre orienta a população a ter um reservatório que consiga atender a demanda quando a água está em falta. Mas será que os bauruenses seguem o conselho? O JC entrou em contato com os responsáveis por três estabelecimentos da área e todos convergiram para a mesma resposta: a venda de caixas d’água teve um aumento de 20% nas últimas duas semanas e os clientes procuram justamente complementar a reserva que já têm em casa.
Para Márcio Augusto Spósito, gerente de uma loja, o sistema de rodízio, que começou na última quarta-feira, é o responsável pela procura. Já Silvia Estevão, sócia de outra loja, diz que vendia duas caixas d’água por semana e, na última quinzena, passou a comercializar um equipamento por dia. Osmil Souza, gerente de outro local, revela que a procura gira em torno de reservatórios de 500 e 1.000 litros.
Revolta
Moradores da Vila Dutra e bairros das imediações realizaram um protesto ontem, na entrada do bairro, na Bauru-Marília. Eles colocaram fogo em pneus no mesmo local de uma manifestação realizada no mês passado. Naquela ocasião, a falta d’água também era a reclamação. “Não aguentamos mais. E não é por causa desse calor não. Faz 3 anos que moro aqui e todo esse tempo foi assim. Não dá mais”, disse a funcionária pública Renata Cristiane dos Santos, 37 anos. Por meio da assessoria de comunicação, o DAE deu a mesma explicação de sempre: como o bairro fica na parte alta, sofre com o desabastecimento.