10 de julho de 2026
Nacional

Vizinhos falam sobre a rotina do 'serial killer' de Goiânia

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Desde que começaram a circular notícias de que um assassino em série estava matando mulheres jovens em Goiânia, há cerca de quatro meses, a operadora de caixa Flavia de Carvalho, 34, obrigou as duas filhas adolescentes a mudarem a rotina.

 

Polícia Civil/Divulgação 

Rocha foi detido pela Polícia Civil de Goiás na noite de terça-feira (14)

A ordem para Isabela Eduarda, 17, e Ingrid Alessandra, 16, era não andarem sozinhas na rua, principalmente à noite. "Até falei para prenderem o cabelo", lembra a mãe.

 

Mal sabia Flavia que, segundo a polícia goiana, o "serial killer" morava na rua dela, a cinco casas de distância, no conjunto Vera Cruz 2.Assim como a operadora de caixa, outros vizinhos do vigilante Tiago Henrique Gomes da Rocha, 26, se assustaram com a notícia de que o rapaz, que até a última terça-feira (14) morava com a mãe no bairro, havia confessado a morte de 39 pessoas, incluindo 15 mulheres e oito moradores de rua.

 

Uma vizinha que mora em frente à casa de Rocha, a técnica em segurança do trabalho Carmem Reis, 27, diz que os dois eram amigos.Carmem afirma que o rapaz nunca saía de casa. Depois de voltar do plantão noturno como vigia em um hospital público, por volta das 7h, ele dormia até as 11h. Algumas vezes ela o via fazendo o próprio almoço ou arrumando algum cômodo da casa e lavando as roupas dele.

 

Rocha assistia TV em um aparelho de 14 polegadas, um presente de Carmen. "Eu dei a TV porque ele disse que não tinha em casa, porque a mãe é evangélica e não tinha esse costume", conta ela.

 

Ele trabalhava um dia e ganhava outro de folga, segundo Carmen. Ela diz que, mesmo com tempo livre, ela nunca viu o rapaz sair para passear. A mãe dele ia todas as noites aos cultos.

 

Carmen conta ainda que Rocha morava apenas com a mãe naquela casa, e que era o filho predileto. O outro irmão, mais novo, é casado e mora com a mulher. O padrasto raramente era visto. O vigilante não conheceu o pai.

 

Um dia depois da prisão do suspeito de cometer 39 homicídios, a mãe do vigilante, que é auxiliar de serviços gerais na prefeitura, mudou-se do imóvel e não voltou mais. Levou junto um cachorro vira-lata e Belinha, a cadela da raça shitzu que o filho havia lhe dado há dois meses.

 

'Assustei' 

O motorista Rubens Barros, 59, que mora na casa vizinha à do vigilante, diz que raramente o via. Para o motorista, ele aparentava ser um bom rapaz.

 

"Assustei, né? Saber que você está do lado de um cara assim...", disse ele, que é pai de uma jovem de 18 anos.

A mãe de Raelly Santana, 16, outra vizinha, também a alertara para evitar andar sozinha nos últimos meses. "Minha mãe até brincou que a gente imaginava que o assassino poderia estar em qualquer lugar, mas nunca bem aqui na rua", diz.

 

A reportagem não conseguiu conversar com a mãe do suspeito. Na sexta (17), ela esteve na delegacia para visitar o filho, mas na saída se negou a dar entrevista.

 

Serial killer de Goiânia tinha 'condutas irrepreensíveis', diz empresa

 

O Grupo Fortesul, onde o vigilante Tiago Henrique Gomes da Rocha, 26, assassino confesso de 39 pessoas em Goiânia, trabalhava desde agosto, divulgou uma nota na qual informa ter sido "surpreendido" com as notícias sobre o vigilante.

 

No documento, o grupo diz que irá aguardar o andamento da investigação a respeito da participação de Rocha nos crimes e afirma que ele, "até então, apresentava condutas irrepreensíveis em seu ambiente de trabalho".

 

Segundo a nota, o vigilante estava em fase de experiência e havia passado por todo o processo necessário para a contratação.

 

Consta na nota que Rocha apresentou certidão criminal negativa, diploma de formação de vigilantes em escola autorizada pelo Ministério da Justiça, com registro do certificado junto à Polícia Federal, e uma declaração de conclusão de curso de reciclagem feito em fevereiro de 2013, "que possui como pré-requisito a aprovação em exame psicotécnico".

 

Além disso, continua, o vigilante teria realizado todos os procedimentos formais exigidos pela empresa para sua contratação, como o exame admissional.

 

Contratado pela Fortesul, Rocha prestava serviços como vigilante desde o dia 1º de agosto no Hospital Materno Infantil. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, ele trabalhava no período noturno, em regime de plantão. A unidade hospitalar não se pronunciou sobre o comportamento dele no local nem sobre os crimes que ele confessou.

 

Rocha foi detido pela Polícia Civil de Goiás na noite de terça-feira (14). Informações levantadas por uma força tarefa ligou as características físicas do suspeito e da motocicleta que ele usava com a do autor da série de assassinatos cometidos contra mulheres em Goiânia desde janeiro, além de assaltos e furtos.

 

Ele admitiu, em dois depoimentos, ter matado 15 mulheres e um homem este ano, que eram alvos de investigação dessa força tarefa, além de outros 23 homicídios, desde 2011.