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Autor de livros sobre o tema, Luiz Alberto Hanns fala também sobre negociação entre o casal |
Educar é preparar os filhos para a vida, ensinar lições. Assim, estabelecer limites (ao invés da intersecção verticalizada da ordem familiar do “impor”) é apenas uma ferramenta. Mas a meta, frise-se, é para prepará-los para a vida. Quem aborda a questão é Luiz Alberto Hanns, psicólogo especialista em clínica e autor de livros que abordam a equação do casamento, a negociação entre o casal e, em especial, como educar filhos hoje.
A relação com os filhos é o tema da palestra do autor em Bauru, na próxima quinta-feira, às 19h30, no FourC Bilingual Academy (informações no telefone 3878-9600). Graduado em psicologia pela Universidade de São Paulo (1993), mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998) e doutor na mesma área também pela PUC no mesmo ano, Hanns também elenca os seis fatores fundamentais para o que ele chama de “equação do casamento”. Confira os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade: Qual a equação do casamento?
Luiz Alberto Hanns: A equação de casamento é difícil de explicar em uma entrevista porque, no livro, tratamos disso em várias frentes. Mas o eixo fundamental é levar em conta seis fatores que abordo no livro e que as pesquisas mostram que são fundamentais para mostrar se um casal está bem ou está mal. Um fator que determina a qualidade do casamento é a compatibilidade psicológica do casal, o segundo está ligado ao grau de consensos que eles têm sobre projetos de vida, valores. O terceiro tem a ver com a capacidade que eles têm de conviver a dois, porque têm pessoas que não sabem conviver a dois e outras sabem. Outro fator é a atração sexual que existe entre o casal. Tem também o grau de estresse e pressões as quais o casal está submetido, como desemprego, filho doente, sogra invasiva, etc. O último é o quanto cada um valoriza o estar casado. Neste último entram questões como o medo de ficar sozinho, o projeto de família feliz, amenidades do casamento, do lar. Para cada pessoa esses fatores têm um peso, mas os seis fatores é que movem a equação do casamento.
JC: Então, monitorar a equação do casamento é condição para a continuidade da relação?
Hanns: Sim. Porque, para entrar no casamento, é preciso a negociação em cima desses fatores, a análise deles pelo casal. E, para continuar no casamento, é fundamental verificar a aplicação desses fatores. E ter filhos é uma dessas questões depois. Porque filho é um fator de alegria, mas também de grande estresse. Você ter uma equação de casamento razoável vai ajudar o casamento a florescer, tendo filhos.
JC: Os filhos estão vivendo sob a dependência estrutural e financeira dos pais até depois dos 20 anos. O primeiro emprego já não é mais aos 18 anos para muitos filhos. Como fica a pressão do relógio biológico sobre a mulher e essa geração com homens que querem primeiro ter carreira e curtir?
Hanns: Essa é uma tendência não só entre os brasileiros. Está acontecendo em todos os lugares. Homens e mulheres estando sob a dependência dos pais até mais tarde. Pessoas que querem primeiro uma carreira, depois viver a solteirice e, somente após isso, pensar em casar. Isso tem um impacto enorme sobre as relações. Primeiro esse impacto é no ciclo de vida, porque as pessoas vão ter filhos mais tarde. Depois, isso, por um lado, paradoxalmente, dificulta encontrar um parceiro e também faz com que ter filhos aconteça no limiar do relógio biológico da mulher.
JC: E como a mulher pode digerir esse paradoxo?
Hanns: Existe uma dissintonia de ciclos de vida entre homens e mulheres. E isso leva a uma maior aflição de fato às mulheres nesta fase. Mas não há uma solução pronta e que possa ser dada como receita geral. Porque não é razoável você propor para as mulheres que esqueçam da carreira e esqueçam das vivências de solteira e se forcem a casar com 20, 22 anos. O único jeito é manter a calma, entender que, hoje, é possível ter filhos um pouco mais tarde e tentar usufruir da vida nas condições que a ela oferece hoje.
JC: O que é educar em um ambiente com condições adversas em valores, estrutura social e confrontos emocionais entre liberdade e disciplina, limites e pressões?
Hanns: Ser pai na sociedade moderna não é só lidar com a falta de tempo, porque as condições no ambiente no qual eles crescem mudaram. E houve três grandes mudanças. A primeira é que o ambiente geral não promove mais a disciplina e o empenho. Este não é mais o ambiente social onde, antigamente, as crianças apanhavam na escola, tinha palmatória e o discurso da vida era voltado aos deveres e à religião. Hoje os principais valores são a busca da felicidade e a democracia. E isso tornou educar mais desafiador. Porque o avô educava batendo com cinta ou usando a varinha de marmelo. E havia uso, tradições e costumes voltados a deveres e obrigações. Era mais fácil para o avô educar o pai. Mas, hoje, para você educar o filho, democraticamente e com diálogo e garantir que ele tenha foco e disciplina, ficou mais difícil.
JC: Há paradoxo entre foco, performance, felicidade e prazer?
Hanns: É porque nossa expectativa na educação cresceu muito. Nós não queremos apenas que os filhos cresçam saudáveis e bons na escola, como na época dos nossos avós. Nós queremos que eles aprendam idiomas, pratiquem esportes, sejam assertivos e socializados. E o dilema nisso é querer filhos com superperformance, superpreparados em matemática, xadrez, idiomas e estudos, e tudo. E, ao mesmo tempo, felizes. Porque é um impasse. Porque são coisas que se opõem. Ser feliz pressupõe um conceito de relaxamento, de poder não fazer nada por algum tempo, o que contrapõe à exigência de foco e disciplina para a busca de superpreparação para a vida. Então, o fundamental é que educar, preparar os filhos para a vida, é ensinar lições de vida. Estabelecer limites é apenas uma ferramenta para os pais. A meta é preparar os filhos para a vida.